quinta-feira, 4 de maio de 2017

UMA FILOSOFIA DA MENTIRA

O dinheiro acumulado sempre leva o seu dono à conclusão de que a melhor política é a covardia. A verdade é que o acúmulo tende a tornar você uma formiga contida em seu formigueiro


Se no futuro existir um medidor de mentiras, o início do século 21 ganhará o prêmio de era da mentira.

Uma filosofia da mentira é algo necessário para qualquer dossiê de temas urgentes. Sabe-se que a mentira foi duramente condenada pelo filósofo Immanuel Kant no século 18. Para ele, se ninguém mentisse, o mundo seria mais ético e mais “transparente”. Se vivesse hoje, acreditaria, provavelmente, na gestão ética dos indivíduos através de uma espécie de sistema universal de compliance.

Contra essa ideia de um mundo perfeito da transparência, o russo Dostoiévski, no século 19, visitando feiras de ciência da Europa ocidental, já percebia a morte da privacidade pelas mãos de um “palácio de cristal” onde a vida seria um fato “claro e distinto”.

No Brasil, nosso maior filósofo da moral, Nelson Rodrigues, em pleno século 20, clamava “mintam, mintam por misericórdia!”. Nelson pensava que, sem a mentira, a vida em sociedade seria impossível. A mentira, nesse caso, era uma forma de doçura para com as fraquezas humanas. Aquele tipo de mentira misericordiosa que sustenta jantares em família, amizades, longos relacionamentos, silêncios honrosos em nome de um morto ou a piedade diante de uma feia.

Mas há formas de mentira que precisam ser mais analisadas por nossa vã filosofia. Refiro-me à mentira a serviço do marketing moral. Esse tipo de mentira visa vender a ideia de que somos uma época mais avançada em costumes, afetos e comportamentos. Se formos à tradição filosófica, veremos que a mentira contemporânea se encaixa no tipo de mentira que se chama mentiras da vaidade. Vejamos três casos.

A vaidade ferida, normalmente, se transforma em sua irmã ainda mais miserável, a inveja. A falsa afirmação do marketing moral de que todas as pessoas são iguais (uma corruptela da ideia justa de que todos devem ser iguais perante a lei, mentira essa evidente, na verdade) gera, no convívio interno a instituições, a mentira travestida de normas burocráticas.

Alguém sob forte inveja pode, facilmente, querer destruir a fonte de sua humilhação cotidiana (por exemplo, destruir alguém muito melhor do que você profissionalmente) lançando sobre essa fonte (uma pessoa, na maioria dos casos) um conjunto de normas que visa inviabilizar a vida dessa pessoa.

Se indagado acerca da causa desse conjunto de normas burocráticas asfixiantes, o mentiroso no exercício de sua função burocrática dirá que apenas exerce sua função, aplicando as normas.

Como muitas normas burocráticas visam mesmo à destruição da espontaneidade e criatividade, e riscos inerentes às duas, em nome da mediocridade segura, o mentiroso burocrático estará seguro no exercício de sua função. Não prestamos a devida atenção ao fato que a mediocridade é a forma mais segura de viver que existe.

Fala-se muito em “pensar fora da caixa”, mas, na verdade, nunca o mundo corporativo investiu mais no seu contrário: as pessoas devem ser cada vez mais medíocres e respeitadoras dos limites dessa caixa.

O dinheiro acumulado sempre leva o seu dono à conclusão de que a melhor política é a covardia. Apesar de se falar o contrário disso, a verdade é que o acúmulo tende a tornar você uma formiga contida em seu formigueiro.

Falar em “pensar fora da caixa” é para o pensamento da “gestão de ideias” o que a punheta é para o sexo: uma atividade segura, sem riscos de engravidar alguém. Quando o risco de perda é muito alto, a melhor política é a mediocridade que paga pouco, mas sempre paga.

As relações entre homens e mulheres nunca foram tão ruins como hoje. O desinteresse pelo sexo é seu maior sintoma. Sexo suja, implica em riscos e precisa de um “outro” para ser realizado.

Aliás, uma das maiores mentiras contemporâneas é a masturbação ética ao redor da “alteridade”(o tal do “outro”). Fala-se muito dele, mas o eliminamos à nossa volta. Outros na África são mais seguros do que em casa. A ideia de que as pessoas evoluíram nos afetos é, talvez, a maior de todas as mentiras contemporâneas. Suspeito, na verdade, que “involuímos”. Somos uns retardados do afeto.
Por: Luiz Felipe Pondé, escritor, filósofo e ensaísta, é doutor em Filosofia pela USP e professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap. Do site: http://www.gazetadopovo.com.br

terça-feira, 2 de maio de 2017

A MORTE DO OCIDENTE

A busca frenética do prazer sensível, em detrimento da própria razão e da ordem natural da sociedade, indica que estamos num alto grau de decadência


O clássico de ficção científica Um Cântico para Leibowitz acompanha uma ordem religiosa fictícia desde pouco após um apocalipse nuclear (o livro é de 1960) a milênios depois, passando por todos os períodos de reconstrução, auge e decadência de uma sociedade. Na época do lançamento, as cenas da sociedade futura tremendamente decadente em que as pessoas buscavam voluntariamente a eutanásia causaram espécie. Já na vida real, estamos quase lá. Esta semana, o bravo governo guatemalteco conseguiu expulsar de suas águas um barco pertencente a uma organização abortista que se dedica a matar bebês mundo afora.

A morte não é uma libertação. Nem a própria, como na eutanásia buscada pelos personagens do livro, nem a de outrem, como a do filho que as mães que procuram o barco assassino querem eliminar.

É nosso dever preservar as riquezas do Ocidente para que ele renasça veja também

Nossa sociedade, decadente até a medula, dedica-se aos prazeres como se o mundo fosse acabar amanhã, num frenesi que só faz aumentar no carnaval, enquanto foge das responsabilidades o quanto puder. No carnaval, distribuem-se aos bêbados camisinhas e lubrificantes genitais às mancheias, enquanto uma barraquinha perdida lá no meio conduz testes de HIV e se surpreende com a quantidade de casos positivos. Em muitas cidades do Brasil, andar sozinha no carnaval sem ser agarrada e beijada à força é quase impossível para uma moça sozinha.

Esta busca frenética do prazer sensível, em detrimento da própria razão e da ordem natural da sociedade, indica que estamos num alto grau de decadência. A busca voluntária da morte de modo social é a próxima etapa. É o que já vemos com os movimentos pró-aborto, e em breve veremos com movimentos pela eutanásia e suicídio assistido. A Holanda, onde um amigo meu dizia que o capeta faz test-drive, já está matando tantos idosos que se tornou comum entre os cidadãos mais velhos buscar tratamento médico na Alemanha, para evitar ser morto pelos médicos.

Não há o que se possa fazer para reverter o processo de decadência; só o que se pode é esperar que o que virá seja melhor, e que nossos filhos e netos consigam erigir alguma coisa decente sobre as ruínas da nossa civilização. Para isso, é fundamental que ajamos sempre tendo em vista o bem comum e, especialmente, o bem das futuras gerações. Devemos, cada um de nós, procurar preservar uma parcela do grandioso construto que foi um dia a civilização ocidental, para que isso possa ser resgatado daqui a algumas gerações. Aqui no Brasil estamos na periferia, nos subúrbios desta civilização. Exatamente por isso, sua decadência aqui não tem um alcance tão forte; temos feministas gritando pelo aborto, mas ele continua praticamente proibido. É nosso dever preservar as riquezas do Ocidente para que ele renasça. Por: Carlos Ramalhete  carlosgazeta@hsjonline.com 

[02/03/2017]  Publicado na Gazeta do povo

domingo, 30 de abril de 2017

MACACOS COM MELHORES SMARTPHONES NUNCA DEIXARÃO DE SER MACACOS

Vou contar uma história: a princesa do Reino Unido foi sequestrada. O criminoso, em vídeo divulgado pelo Youtube, fez as suas exigências. Não queria dinheiro. Não queria a libertação de prisioneiros. Não queria o fim das hostilidades em algum lugar do Oriente Médio.


Ele apenas exigiu que o premiê britânico fosse transportado até o centro de Londres para ter sexo com um porco em frente das câmeras. Caso contrário, bye bye princesa.

O premiê ficou atônito com a exigência. Intolerável. Impensável. A população apoiou o premiê e ficou tão atônita quanto ele. Sexo com miss Piggy? Melhor chamar a polícia.

O premiê chamou a polícia. A polícia tentou capturar o bandido em tempo útil. Sem sucesso. O bandido, como medida de retaliação, enviou um dedo cortado da princesa.

Horror no reino! O povo, que apoiava o premiê, começou a criticá-lo. Novas pesquisas mostravam que a maioria da população já apoiava o "rendez-vous" suíno. O que é mais importante: a vida da princesa ou a dignidade de um premiê?

A rainha telefonou para Downing Street. Não exigiu nada –explicitamente. Apenas pediu que tudo fosse feito –tudo?– para salvar a princesa.

Os assessores do premiê concordaram. "Tudo" significa tudo. Será assim tão degradante fazer sexo com um porco para salvar a linhagem real?

Essa pergunta não nasceu da minha cabeça doente. Ela inaugura "Black Mirror", uma das séries mais perturbadoras dos últimos anos. Não é uma história de folhetim, dividida em episódios, como as séries habituais. Cada episódio é um pequeno filme sobre o futuro humano e tecnológico.

Atenção às palavras: "humano" e "tecnológico". Que o mesmo é dizer: que tipo de vida teremos nós com as alterações promovidas pela tecnologia?

O caso do porco –uma óbvia evocação de um rumor sobre o comportamento de David Cameron quando era estudante em Oxford– é apenas um exemplo: hoje, a política "moderna" já se faz ao ritmo das exigências da turba. A tirania das enquetes; as discussões no "bas-fond" das redes sociais; a promoção da "vox populi" pela mídia tradicional –os bárbaros mandam.

O líder, em rigor, já não lidera; ele é liderado pelas massas. E, se assim é, haverá ainda lugar para conceitos arcaicos como "dignidade", "independência intelectual" ou "coragem" para ser impopular?

"Black Mirror" é feito dessas perguntas. E de outras, que já podemos intuir em 2017. Devemos ter direito ao esquecimento e à privacidade das nossas memórias? Ou será preferível ter acesso permanente ao passado –acesso visual, detalhado, partilhável, como se a existência fosse um filme facilmente rebobinável?

E a morte? Sim, nenhuma civilização temeu tanto a morte como a nossa. Mas será desejável que os nossos mortos possam ser "ressuscitados" pela tecnologia em simulacros de voz e corpo que nos poupam as dores do luto?

E se um dia a forma como somos avaliados no Facebook transbordar para a vida cotidiana? Até onde estaremos dispostos a ir para receber mais "likes" e subir na hierarquia social?

Todas essas demandas convidam a uma reflexão inversa. Um político que é escravo da opinião popular pode facilmente transformar-se em simples marionete dos piores instintos da maioria.

O esquecimento e a privacidade são a última barreira que nos protege da destruição e da autodestruição.

O luto não é apenas feito de dor e sofrimento; é uma pausa necessária para reencontrar sentido e reconciliação depois do naufrágio.

E a obrigação de sermos permanentemente alegres e felizes para subir na hierarquia dos "likes" é uma forma de tortura. Não por excluir a infelicidade (isso é impossível); mas apenas a expressão pública dessa infelicidade. Como acontece em regimes totalitários.

A maior proeza de "Black Mirror" está na forma como mostra duas realidades contrastantes, que os fanáticos da tecnologia são incapazes de vislumbrar: de um lado, a fluidez amoral da criação tecnológica; do outro, a permanência da natureza humana.

Podemos imaginar um mundo de mil possibilidades técnicas; mas o "software" de que somos feitos –sentimentos primitivos como o medo, a inveja, o ciúme, a vergonha– não se altera com uma simples mudança de cenário.

Macacos com melhores smartphones nunca deixarão de ser macacos. Apenas se tornam mais patéticos ou mais perigosos. 
Por: João Pereira Coutinho Publicado originalmente na Folha de SP

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O OCIDENTE DEIXOU DE FAZER FILHOS PORQUE O SEXO FOI VENCIDO PELO TÉDIO

Mudar de casa é uma roleta-russa. Sei disso. Mudei agora. Na primeira noite, havia farra no apartamento do lado. Tolerei: tapei os ouvidos com material apropriado e consegui as minhas dez horas de sono, sem as quais sou um figurante da série "The Walking Dead". E mordo também.


Na noite seguinte, quando entrei no leito, a farra recomeçava. Meditei. Sem sucesso.

Na escuridão do quarto, com os olhos fixos no teto, afinei os ouvidos e tentei escutar. Risos. Gritos. Gemidos. Objetos no chão.

Bati na parede —uma, duas, três vezes. Nada. Levantei-me, caminhei até a porta do vizinho e, quando me preparava para arrombá-la, escutei uma frase que me paralisou: —Vai, Messi!

Duas hipóteses: Lionel Messi era meu vizinho e eu não sabia; ou, então, Messi já fazia parte das fantasias privadas do casal. Encostei os ouvidos à porta e tentei resolver o mistério. Não havia mistério. Os meus vizinhos jogavam PlayStation.

Regressei à cama com a tristeza do mundo sobre os ombros. Deitei-me na cama. Risos. Gritos. Gemidos. Objetos no chão. Adormeci de cansaço.

A manhã chegou. Alguém abria a porta do lado. Abri a minha. O vizinho, ensonado e tísico, cumprimentou-me com o vigor de um condenado. Apresentei-me. Ele apresentou-se: estudante universitário. Aproveitei o momento para comunicar as minhas dores: o barulho a horas impróprias, sobretudo para quem precisava de trabalhar cedo.

Ele corou como uma criança e prometeu "se controlar". A culpa era do vício, dos jogos, dos amigos, até das amigas (o horror, o horror!). Riu, envergonhado. Ri, derrotado. Disse-lhe um "prazer em conhecer, meu filho" e depois me fechei em casa com uma pergunta angustiada: que se passa com a mocidade?

A ciência ajuda: um estudo publicado no "Archives of Sexual Behaviour" defende, após extensivo levantamento, que os jovens adultos americanos (os "millennials" e os "iGen", ou seja, nascidos nas décadas de 1980 e 1990) não têm grande interesse por sexo.

O caso agrava-se quando comparamos as novas gerações com os seus pais, nascidos nas décadas de 1960 e 1970. Os pais, pelos padrões atuais, eram simplesmente uns devassos. Pior: 15% dos jovens entre os 20 e os 24 anos poderiam perfeitamente legar as partes íntimas à ciência e arriscar uma carreira no canto lírico.

Antigamente, todo mundo ria com a frase clássica: "No sex please, we're British". Hoje, todo mundo é britânico. Millôr Fernandes, um sábio, escreveu que o melhor afrodisíaco era a abstinência prolongada. Eis um dos raros casos em que Millôr foi otimista —e falhou.

O melhor afrodisíaco é a abstinência forçada. Se o sexo só começou em 1963, como escreveu o poeta Philip Larkin, isso explica o entusiasmo do pessoal dos "sixties" e dos "seventies" pelas flores e pelas abelhas. Houve excessos. Mas são excessos comparáveis ao enfartamento de um etíope depois de abusar da maminha (a carne, não a dita).

Ah, que saudades do meu avô quando ele recordava a primeira vez que viu os joelhos de uma mulher. "Os joelhos!", dizia ele, com lágrimas de saudade e gratidão. Depois de casar, vieram dez filhos.

Hoje, o Ocidente está em crise demográfica. As razões são conhecidas: dos métodos contraceptivos à precariedade laboral, que adia a maternidade (e a paternidade) para depois dos 40, não há reposição geracional.

Mas eu sempre desconfiei que a causa é mais profunda: o Ocidente deixou de fazer filhos porque o sexo foi vencido pelo tédio. Antes da revolução sexual, os avós sonhavam com joelhos. Depois da revolução, os pais atiraram-se às carnes (as ditas, não as do rodízio). Quando os filhos chegaram, o sexo tornou-se tão onipresente —no cinema, na TV, na internet— que o mistério e o tesão se perderam pelo caminho.

Pelo contrário: a produção continua vigorosa no mundo muçulmano. O próprio presidente Erdoğan, para se vingar da Europa (e da Holanda), aconselhou os imigrantes turcos a fazerem, pelo menos, cinco filhos por família. Coisa fácil para quem ainda cultiva o segredo dos joelhos e das maminhas.

A minha proposta para salvar a civilização ocidental?

O uso de véu e burca entre quatro paredes. Para que os jovens celibatários abandonem o PlayStation e procurem novamente outro tipo de jogos e botões
Por: João Pereira Coutinho Publicado originalmente na Folha de SP.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O FEMINISMO ESTÁ MORTO

Feministas sabem armar manifestações em países onde a lei as protege, mas são inócuas contra homens que esquartejam dissidentes e matam quem difamar o nome de seu profeta


O ser humano tem uma capacidade ímpar de exagerar a dose de seus remédios – na ânsia de consertar o que acredita estar errado, acaba criando uma situação igualmente ruim em termos quantitativos, mudando apenas a qualidade do problema. De uma perspectiva histórica, as aplicações exageradas de tais remédios assemelham-se a um movimento pendular: parte-se de uma situação inicial, com o pêndulo em sua posição mais alta de um dos lados; o pêndulo começa a perder altura e a ganhar energia cinética, acelerando para a posição mais baixa; ao passar pelo ponto mais baixo, que seria o de equilíbrio, o pêndulo está com tanta velocidade que não consegue parar; finalmente, ele termina o movimento no lado oposto, quase na mesma altura de onde iniciou.

O feminismo é um exemplo claro da ocorrência de um pêndulo histórico. Quando o movimento teve início, as pautas eram genuínas e as reivindicações eram justas e necessárias. As mulheres queriam respeito e direitos equivalentes aos dos homens, e assim o pêndulo começou a descer. Na virada do século, já não havia praticamente nenhuma restrição de liberdades ou direitos que se aplicasse às mulheres na maioria das nações ocidentais democráticas. O pêndulo chegara ao ponto mais baixo, o ponto de equilíbrio. Coloque-se um pêndulo estaticamente nesse ponto, e ele não se moverá para nenhum lado sem a aplicação de uma força externa. Não foi o caso, no entanto. O feminismo não só vinha com uma energia prévia, como também recebeu impulso adicional de uma situação política até então inédita: governos de esquerda espalhados pela grande maioria dessas mesmas nações onde o feminismo já havia atingido seus objetivos. O pêndulo passou reto e voltou a subir, e nessa subida ele trouxe ao mundo o feminismo radical.

O feminismo radical não é apenas o contrário do machismo radical (se é que isso existe). O feminismo radical é a elevação do machismo à décima potência. Se os machistas queriam suas mulheres “com a barriga no fogão”, as feministas radicais querem todos os homens sete palmos abaixo da superfície. O mundo que elas idealizam é um mundo sem homens, onde a ciência tenha resolvido a questão da reprodução e elas possam viver livres para sempre da opressão dos terríveis e maldosos machos de sua espécie. Ao leitor que nunca se aprofundou no assunto, pode parecer que estou contando uma piada ou que estou citando um trecho de alguma ficção distópica, mas essas pessoas realmente existem. Não são incomuns os relatos de feministas radicais que abortam seus filhos quando descobrem que são meninos ou que declaram ódio incondicional a todo e qualquer homem do planeta.

Se queremos algum futuro civilizado, machismo e feminismo devem morrer juntos, de braços dados veja também

Mas – e sempre há um mas – o feminismo contemporâneo não sabe fazer contas e tem uma péssima capacidade de análise factual. Embriagadas com direitos e liberdades garantidos por leis que somente os países ocidentais e de tradição judaico-cristã conseguiram desenvolver, essas feministas não conseguem nem sequer olhar ao seu redor e realizar a mais simples das operações matemáticas: quando somamos as populações dos países onde as mulheres têm menos direitos hoje que a mulher ocidental média da década de 1950, chegamos à conclusão de que o feminismo existe em menos da metade do mundo: somente na parte que não inclui os países muçulmanos, a China e a Índia.

Aliás, a menção aos muçulmanos é uma ótima deixa para explicar o título deste artigo. O mundo de hoje assiste à expansão rápida do islamismo no mundo ocidental, e o islamismo é intrinsecamente antifeminista. Ouso afirmar que o islamismo é a nêmesis do feminismo, tamanha é sua oposição a tudo o que as feministas têm como mais precioso. Sendo assim, tomemos dois possíveis desfechos históricos para comprovar esse óbito hipotético.

Desfecho 1: o feminismo radical avança em todo o mundo ocidental, vencendo sua “luta contra o patriarcado”. Mesmo não eliminando os homens por completo, consegue emasculá-los e transformá-los em meros acessórios sociais. Uma sociedade dessas, quando atacada e confrontada pela força do radicalismo islâmico, desaparecerá quase sem luta. Feministas são muito competentes quando o assunto é armar manifestações públicas em países onde a lei as protege e em fazer discursos inflamados para plateias cheias de artistas corroídos pelas culpas do mundo politicamente correto, mas são praticamente inócuas contra homens capazes de queimar crianças vivas, explodir aviões, esquartejar dissidentes e matar qualquer um que ouse difamar o nome de seu profeta. Resumindo, esse desfecho leva ao fim do feminismo e, portanto, o feminismo está morto.

Desfecho 2: o feminismo radical desaparece e o feminismo “original” desvanesce em meio à situação atual de igualdade de respeito e direitos, impedindo a deterioração da virilidade masculina na sociedade como um todo, condição extremamente necessária em tempos de guerra. Uma sociedade dessas, quando atacada e confrontada pela força do radicalismo islâmico, terá como se defender e contra-atacar, podendo até mesmo levar as conquistas feministas a lugares onde hoje elas não existem. Resumindo, esse desfecho só acontece com o fim do feminismo e, portanto, o feminismo está morto.

A síntese disso tudo é simples: o feminismo já fez o que precisava ter feito. As nações ocidentais atingiram um nível de civilidade e igualdade irreversíveis, desde que mantidas as bases legais e morais mesmas que permitiram às mulheres lutar por essa igualdade. Solapar a base judaico-cristã do ocidente, destruir a estrutura familiar tradicional e subverter os valores que nos trouxeram aonde estamos hoje resultará tão somente no enfraquecimento das únicas defesas que temos contra os radicalismos políticos e religiosos que atentam contra nossas liberdades. Se queremos algum futuro civilizado, machismo e feminismo devem morrer juntos, de braços dados. A alternativa é preencher uma ficha de membresia na mesquita mais próxima. 

colunagp@flavioquintela.com  [09/02/2017]  Hugo Harada/Gazeta do Povo


terça-feira, 25 de abril de 2017

VOCÊ TEM PROBLEMAS DE DINHEIRO OU PREOCUPAÇÕES COM O DINHEIRO?

Uma pergunta: você tem problemas de dinheiro ou preocupações com dinheiro? Não são a mesma coisa.


"Problemas" são coisas reais, tangíveis, quotidianas, que lidam com as contas - a bancária e as que precisam de ser pagas. "Preocupações" são outra história: ansiedades, confusões ou desejos que só existem nas nossas cabeças.

Eis a tese do filósofo John Armstrong em pequeno e delicioso tratado moral: "Como se preocupar menos com dinheiro" (Objetiva). Subscrevo cada capítulo e, sem falsas modéstias, já pratico há muito algumas das lições.

Mas voltemos ao início: você tem problemas ou preocupações com o vil metal? Se são problemas, lamento, nada a fazer: a questão é mesmo matemática. É preciso pagar o aluguel, as despesas da casa, a educação dos filhos. E ainda a alimentação, a roupa, o transporte, os remédios. O básico do básico, a que poucos escapam.

Claro: você pode decidir viver como o Gandhi e vestir como ele. Nesse caso, a nossa conversa termina aqui. Para os restantes, as dificuldades da vida permanecem.
Divulgação 

Capa do livro "Como se Preocupar Menos com Dinheiro", de John Armstrong

Mas Armstrong não escreve o livro para enfrentar essas necessidades básicas - e implacáveis. Ele sobe um degrau para falar das "preocupações" com o dinheiro, ou seja, sobre aquilo que acontece depois das necessidades básicas estarem satisfeitas.

Sim, pagamos o aluguel da casa. Mas queremos uma casa maior, ou melhor. Sim, temos roupa no corpo e comida na mesa. Mas queremos aquela grife e aquele jantar no melhor restaurante da cidade. Que fazer?

John Armstrong não é um puritano nem um asceta. O dinheiro é importante - tão importante que nem as relações amorosas escapam a ele. Quem acredita no mito de "um amor e uma cabana" nunca conheceu verdadeiramente um amor (nem uma cabana). Como Jane Austen ensinou há mais de 200 anos, não são apenas as qualidades pessoais que sustentam uma relação. Dinheiro no bolso também é uma ajuda preciosa.

O ponto de Armstrong, porém, é outro: falar de dinheiro não é falar de dinheiro. É analisar antes aquilo de que precisamos para termos uma "vida boa" no sentido aristotélico do termo. Atenção: disse "precisamos", o que é diferente de "querermos".

Quando queremos algo, obedecemos a um desejo - e os desejos são infindos por definição.

Quando precisamos de algo para "florescer" (uma vez mais, Aristóteles é o nome), as nossas necessidades de dinheiro estão intimamente ligadas ao tipo de pessoa que queremos realmente ser. O desejo expande; o florescimento pessoal restringe. Só depois de sabermos quem somos é possível perguntar de quanto dinheiro precisamos. E, às vezes, a quantia é menor do que se imagina.

Penso na minha vida. Houve excessos e desperdícios. Mas esses excessos e desperdícios foram alimentados por caprichos, vaidades, inseguranças - e por um desconhecimento profundo sobre a vida que eu realmente procurava. Direi mais: os excessos e os desperdícios eram inversamente proporcionais à ignorância sobre mim próprio. Quanto menos sabia, mais gastava.

Hoje, cometo loucuras como qualquer pessoa racional. Mas são esporádicas como tempestades tropicais. Depois de pagar as fatais contas do mês, noto que há um padrão nos gastos - e até nas poupanças. Para viver a minha vida, não preciso de um automóvel de luxo. Não preciso de uma casa majestosa. Não preciso de roupas de grife (aliás, na moda só há uma regra: qualquer trapo que tenha um símbolo distintivo deve ser cuidadosamente evitado).

Mas preciso dos meus livros, dos meus filmes, da minha música. Preciso de horas vazias, vagarosas, ociosas. E preciso de partilhar as alegrias (e as tristezas) com a família e os amigos onde houver boa mesa - o que é diferente de uma mesa cara.

Oscar Wilde dizia que era uma pessoa fácil de contentar: só gostava do que era bom. Eu também. E quando temos a noção de que o tempo é limitado e a nossa personalidade não é elástica, até aquilo que é bom começa a ficar mais barato.
Por: João pereira Coutinho  Publicado originalmente na Folha de SP.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

PENSAMENTO POLITICAMENTE CORRETO É A RELIGIÃO DOS ÓRFÃOS DE MOSCOU

As crianças estão sensíveis. Todos sabemos disso. As semanas passam e as notícias repetem-se: algures, numa universidade qualquer, um pequeno grupo de selvagens impediu um debate, uma palestra, uma mera conversa porque o tema é "sensível" e pode incomodar os estudantes.


As nossas universidades não são universidades –centros de aprendizagem, ou seja, de alguma violência intelectual para abrir cabeças usualmente fechadas. São estufas de sensibilidade e ressentimento. Como explicar isso?

Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York, concedeu uma entrevista ao "The Wall Street Journal" que deveria ser distribuída por aí. Confrontado com o "iliberalismo dos campus", o professor Haidt defende os estudantes. A maioria é pacífica, diz ele. A maioria quer aprender. A maioria não tem problemas com ideias heterodoxas.

O problema, acrescenta, é a minoria: uma minoria intolerante e agressiva que –atenção, atenção– se comporta como as antigas seitas religiosas.
Angelo Abu/Folhapress 


Para esses crentes, as universidades devem ser "espaços sagrados" onde as "vítimas", ou as supostas "vítimas" (negros, gays, mulheres etc.), são deuses reverenciais. Quando alguém ameaça alterar a ordem divina, chovem críticas, ameaças, vidros quebrados. E coquetéis Molotov. Como se chegou até aqui?

Jonathan Haidt tem razão quando fala do gradual desaparecimento de vozes conservadoras na academia, um eufemismo para designar a falta de pluralismo no ensino das humanidades. E tem muitíssima razão quando afirma que a esquerda radical é onipresente, defendendo um conceito de "igualdade" que é uma paródia do conceito original.

"Igualdade", hoje, não significa "igualdade de oportunidades" mas "igualdade de resultados". Se esses resultados não aparecem, a culpa é de um "racismo sistêmico" (ou, melhor ainda, de um "preconceito inconsciente") que deve ser combatido por palavras, atos –e silêncios.

"Preconceito inconsciente": qual a diferença entre essa aberração e as possessões demoníacas que eram curadas pela força das chamas? Não responda. A pergunta é retórica.

Uma pergunta, porém, que não é retórica é tentar saber como foi que a esquerda radical se tornou tão "religiosa", no sentido bastardo da palavra.

Jonathan Haidt não responde. Com a devida vênia, respondo eu: porque os extremismos políticos sempre foram religiosos. O escritor francês Raymond Aron, em livro que a Três Estrelas já publicou ("O Ópio dos Intelectuais"), dedicou ao tema algumas linhas sublimes.

Defendia Aron que os fenômenos totalitários do século 20, em especial o comunismo e o nazismo, eram "religiões seculares". Elas nasceram com o declínio e a destruição da fé tradicional, procurando mimetizar alguns dos seus traços fundamentais.

Ambas são ideologias que prometem um "reino de salvação" –seja o reino do proletariado ou o reino da raça ariana. E ambas congregam os "fiéis" para espectáculos públicos de adoração carismática.

Todos sabemos como as "religiões seculares" terminaram: não com a salvação terrena, mas com cadáveres terrenos. O nazismo consumiu-se nas chamas de 1945. O comunismo sobreviveu a 1945 e só foi esmagado pelo Muro em 1989. Cuba ou a Coreia do Norte são apenas piadas de mau gosto.

Só que os homens, "animais religiosos" por definição, não aguentam o vazio espiritual que vem com a queda das utopias. E não é por acaso que o chamado "pensamento politicamente correto", na sua versão atual, se tenha espalhado pela "intelligentsia" acadêmica ou midiática nos últimos 25 anos.

Os órfãos de Moscou não sobrevivem sem uma fé. E uma fé não sobrevive sem santos e pecadores. Os santos são as minorias várias que ocupam hoje o lugar do antigo proletariado. Os pecadores são todos aqueles que sofrem de "preconceito inconsciente", uma nova versão da "falsa consciência" que Marx e Lênin deixaram aos seus herdeiros.

Muitas universidades, sobretudo no mundo anglo-saxônico (as restantes são apenas cópias do produto original), tornaram-se o último bastião dos derrotados. Incapazes de implantar "cá fora" os seus projetos de dominação social e econômica, resta aos intelectuais viciados no ópio das ideologias manipular o que se passa "lá dentro": jovens com cabeças simplórias que são apenas marionetes de uma história que os transcende.
Por: João pereira Coutinho  Publicado originalmente na Folha de SP.

domingo, 23 de abril de 2017

O DESASTRE DE NÃO IMAGINAR O DESASTRE

O Facebook é o faroeste. Não falo das mensagens ou dos comentários que exibem uma violência e uma selvajaria inauditas. Isso, digamos, é quase brincadeira de crianças. Falo do resto: espancamentos, violações, suicídios, homicídios —tudo transmitido ao vivo para milhares de seres humanos.


O último caso foi protagonizado por Steve Stephens. Escrevo "protagonizado" porque existe uma dimensão quase cinematográfica no horror. Steve, como um vilão de filme, aproximou-se de Robert Godwin, 74, e abateu-o depois de uns segundos de suspense. Depois, para cumprir o roteiro, filmou-se em meditações profundas sobre a vida.

Sabemos agora que, perseguido pela polícia, o criminoso suicidou-se. É incompreensível que não tenha filmado o último ato da sua narrativa. Acredito que seria um sucesso de bilheteria.

Perante esta sombria realidade, a pergunta é básica: como foi que Mark Zuckerberg e sua tribo não previram, sequer imaginaram, que o Facebook seria "sequestrado" por psicopatas vários para promoverem, como estrelas de Hollywood, os seus atos macabros?

A pergunta é formulada por Steve Coll na "New Yorker" mas o autor não consegue encontrar uma resposta. Todos os dias, o Facebook tem 1,2 bilhões de utilizadores. Mark Zuckerberg pode prometer maior vigilância. Mas haverá sempre alguém que terá no Facebook Live o seu palco, ou o seu açougue.

O problema, em suma, está na existência do próprio Facebook Live, uma evidência que nunca passou pela cabeça do adolescente Zuckerberg.

E não passou pela cabeça por razões que um filósofo inglês explica muito bem. O nome é Roger Scruton e o livro —pessoalmente, o melhor livro dele— intitula-se "As vantagens do pessimismo e o perigo da falsa esperança" (É Realizações, 208 págs.).

O objetivo de Scruton é analisar a mente otimista. Cautela: Scruton nada tem contra o otimismo. Sem um mínimo de esperança —na vida, nos outros, em nós— a existência seria um vale de lágrimas insuportável.

O perigo, para Scruton, está no "otimismo inescrupuloso" que se baseia em várias falácias intelectuais. E a primeira delas, que importa relembrar agora, é designada por "the best case fallacy", algo que podemos traduzir livremente por "falácia do melhor resultado".

Para o "otimista inescrupuloso", as suas escolhas em condições de incerteza nunca são escolhas de resultado incerto. Pelo contrário: para o "otimista inescrupuloso", só existe um resultado possível - o melhor, o ideal, o perfeito.

O "otimista inescrupuloso" é muito parecido com alguém viciado no jogo. E existe uma ideia "romântica", escreve Scruton, de que o jogador é alguém que assume o risco e, apesar disso, aposta na mesma.

Antes fosse. O viciado não acomoda o risco no seu cálculo; ele entra no jogo com a certeza de que vai ganhar. Perder não é um resultado "natural"; é um surpresa cósmica que nunca lhe ocorreu "a priori".

Foi esse tipo de mentalidade que presidiu aos maiores horrores do século 20. É indiferente falarmos de Lênin, Stálin, Hitler ou Mao. Todos eles lançaram-se no abismo da utopia porque, logicamente, nunca imaginaram que o abismo seria mesmo um abismo. Nas suas cabeças estreitas e criminosas, o resultado final seria perfeito. Melhor ainda: só poderia ser perfeito.

Dizer que não foi perfeito é um arrepiante eufemismo. Mas enganam-se os que pensam que o "otimismo inescrupuloso" e a falácia do melhor resultado ficaram sepultadas no século 20. Hoje, em diferentes latitudes, "otimistas inescrupulosos" continuam a resistir a qualquer "imaginação do desastre", para usar a famosa expressão do escritor Henry James.

Mark Zuckerberg é apenas um deles: basta escutá-lo ou lê-lo para vermos como o mundo de Zuckerberg é composto por fadas e duendes, em danças alegres, sob as cores do arco-íris. Nesse mundo, não há espaço para a natureza humana tal como ela é: generosa e criativa, sim, mas também narcísica, cruel, patológica. Para usarmos a palavra proibida da pós-modernidade, no mundo de Zuckerberg não há espaço para o Mal.

Mal? Na mesma semana em que o homicida de Cleveland deslumbrava o auditório, Zuckerberg anunciava que o Facebook terá direito a "realidade aumentada". Em breve, qualquer um poderá adicionar efeitos especiais às suas imagens. Como nos filmes de Hollywood.

De fato, é só mesmo o que faltava: tornar o sangue real das vítimas mais vermelho e os gritos mais musicais Por: João pereira Coutinho  Publicado originalmente na Folha de SP

A PREVIDÊNCIA FOI DEFICITÁRIA DESDE O COMEÇO


A Previdência Foi Deficitária Desde o Primeiro Dia

Fico abismado com a ignorância desses professores que saem a campo dizendo que não há deficit na Previdência.

E dos jornalistas que os entrevistam.

A Previdência começou deficitária desde o primeiro ano de vida.

A lei Eloy Chaves de 1923 concedeu de imediato aposentadorias a todos que tivessem 50 anos de idade, justamente os velhos que nada haviam contribuído.

“Art. 12. Aposentadoria ao empregado ou operário que tenha prestado, pelo menos, 30 anos de serviço e tenha 50 anos de idade.”

Daí o deficit inicial da Previdência, por incluir quem não havia contribuído um único centavo.

Deficit que somente foi se agravando ano após ano.

No ano seguinte, milhares de velhos que haviam contribuído somente um ano também se aposentaram com salários integrais.

E assim por diante, até chegarmos ao deficit atual de R$ 560 bilhões por ano.

Deficit previsível desde 1923.

Deficit escondido por todos os nossos Ministros da Fazenda.

Deficit que somarão um total R$ 15 trilhões nos próximos 30 anos, por baixo.

E tem imbecil que ainda acha que os aposentados atuais não têm um problema.

O de provavelmente morrerem de fome porque essa dívida é impagável, e portanto não será paga.

Em vez de nossas contribuições serem investidas por 30 anos, para que tivéssemos recursos financeiros para arcar com essa previsível obrigação no futuro, nossos Ministros da Fazenda as usaram para “cobrir o deficit”.

Em vez de investir em empresas e debêntures de longo prazo.

Por isso nossos juros são estratosféricos.

Suas contribuições foram literalmente roubadas por todos os nossos Ministros da Fazenda do Brasil, como forma de financiar o deficit que eles até hoje dizem que não existe.

Pena que nunca estudaram, nem nossos intelectuais, a Administração Responsável Das Nações. Por: Stephen Kanitz Do site: blog.kanitz.com.br 

sábado, 22 de abril de 2017

VAMOS RESOLVER "DA MANEIRA INGLESA"

Participei ontem de uma pequena reunião em Londres no Legatum Institute, reconhecido mundialmente pela publicação anual do The Legatum Prosperity Index, em que a atração principal foi uma palestra de sir Roger Scruton. Inesquecível. 


Scruton é pessoalmente o que se espera de um conservador inglês: ironia que beira o cinismo, humor sofisticado, um leve pedantismo e mais cultura, inteligência e bom senso do que em quase todos os departamentos de humanas das universidades atuais somados. É uma lenda viva e não conheço um único livro dele que não mereça ser lido. 

O tema do encontro foi “Que Instituições Importam e Como Restaurar a Confiança Nelas?”, parte da série “Transformação Cultural” promovida pelo instituto. Na platéia, representantes da nobreza britânica lado a lado com alguns universitários, jornalistas, professores e até um brasileiro, um rapaz de Natal (RN) que mora na Califórnia e que se apresentou antes do início da palestra como alguém que escolheu cursar filosofia por causa da estrela principal da noite. 

Logo na abertura, ele já fez uma ironia sobre o Legatum Institute ser um think tank conservador: “é bom estar falando num evento de direita, ao menos aqui a divergência de opiniões é permitida e tolerada”. Ele diz que vivemos sob “censura” e que é um dos principais problemas a serem combatidos hoje. Triste realidade. 

Scruton presenteou o grupo com sua habitual sabedoria e seu olhar atento e original sobre as questões mais importantes do momento, especialmente aqui na Inglaterra. Para o filósofo, os atuais problemas que a sociedade britânica enfrenta hoje devem ser resolvidas “do jeito britânico”, com bom senso e liberdade de expressão, confrontado idéias até se chegar a uma decisão. 

Ele está particularmente incomodado com a maneira como a Inglaterra e o Ocidente são comparados com modelos utópicos de sociedade supostamente perfeitas e não com a realidade atual do mundo. A acusação de “islamobofia”, o “xingamento da moda”, despreza a realidade sobre a quantidade de imigrantes muçulmanos foram recebidos recentemente no país e do esforço britânico em acomodar essas pessoas da melhor maneira possível. Ouvi estas palavras num momento em que Londres tem um prefeito muçulmano. 

Um pequeno resumo do que foi dito por um dos maiores intelectuais do mundo. 

1. “Prosperidade” como medida de tudo 

Scruton conta que David Cameron, ex-primeiro-ministro que convocou o plebiscito sobre o Brexit, só conseguia discutir o assunto em termos econômicos, sempre trazendo “especialistas” para ameaçar os eleitores com os piores cenários caso optassem pela saída na União Européia. Para sua surpresa e indignação, qualquer outra discussão política fora da economia parece ter sido varrido para fora do mapa e só interessaria entender o que dá mais dinheiro e o que não dá. 

Scruton lembra que parte do que é viver numa democracia é estar sob um governo de adversários políticos, de um governo que parte do eleitorado votou contra. Como construir uma sociedade em que não há nada mais que una a população além do dinheiro? Se um país é apenas um aglomerado de indivíduos sem qualquer ligação, sem o “nós”, o que é capaz de fazer com que tenham laços de compromissos sociais e confiança mútua nas instituições e na própria nação? 

2. Patriotismo x Nacionalismo 

Para o filósofo, a idéia de que toda a explicação sobre as causas da Segunda Guerra serem atualmente atribuídas ao “nacionalismo” e que a maneira de evitar guerras é abolir as nações é simplesmente absurda. O sentimento abjeto de superioridade racial dos nazistas não pode ser usada para manchar o nome do bom e velho patriotismo, do apreço pela história do país e das suas tradições. 

3. O “direito comum” (Common Law) 

Boa parte da palestra foi investida na explicação das bases do “direito comum” ou common law, tradição inglesa baseada na resolução de conflitos pessoais e locais que vai, aos poucos, sendo incorporada ao arcabouço legal do país. Este é um dos temas recorrentes de Scruton e pode ser visto em vários de seus livros, com destaque para o fundamental Pensadores da Nova Esquerda

Quando a lei é entendida como uma consolidação do que emerge naturalmente na sociedade ao longo das gerações e não como uma canetada arbitrária de legisladores e juízes, ela é o reflexo direto da sabedoria acumulada por um povo e está em total harmonia com ele, formando os alicerces para que governados possam consentir com os poderes dos governantes e suas decisões. 

Scruton evidentemente se orgulha de falar pelo país que criou a idéia de monarcas que respondem às leis e por elas podem ser até destituídos de suas coroas. O império é das leis (naturais) e não dos homens e seus humores. 

4. Proibir e Permitir 

A idéia central de um sistema baseado no direito comum é que tudo é permitido até que haja uma lei proibindo especificamente, o que é um fenômeno raríssimo num mundo em que tudo é proibido até que o governo permite. A sociedade dos alvarás, carimbos, permissões e autorizações restritas não é o que o Reino Unido entende por um sistema legal democrático e saudável. 

Scruton alfinetou a esquerda britânica e seu braço político, o Partido Trabalhista, por querer adotar o sistema nada britânico de colocar o governo como supremo decididor de tudo, até quem pode ou não fazer filantropia. Ele diz que na Alemanha você precisa de permissão da polícia até para se mudar e que isso é tudo menos a maneira como ingleses vivem e construíram sua sociedade. 

5. “Islamofobia” 

Scruton evidentemente rejeita os rótulos jogados pela esquerda para a sociedade ocidental e inglesa, os que “dizem que tudo que é britânico é racista”. O filósofo é enfático ao lembrar do esforço genuíno da sociedade britânica em acomodar os muçulmanos da “melhor maneira possível” e que quem acusa a Inglaterra de “islamofóbica” não costuma discutir a “cristofobia” em países islâmicos, preferindo falar de modelos utópicos de sociedade e não do mundo real. “Que tal dar uma olhada em como os países vizinhos estão lidando com a situação? Será que a Inglaterra está mesmo atrás deles em termos de tolerância e aceitação?” 

Neste momento, Scruton volta ao sistema legal britânico, “uma lei de homens e não um revelação divina”. Ele lembra que “lei de homens pode ser mudada, pode ser adaptada para melhor acomodar as demandas sociais com o tempo, pode ser questionada e melhorada, o que é impossível com leis entendidas como divinas”. Scruton sugere que leis como a da Sharia são incompatíveis com uma sociedade secular como a britânica e este assunto precisa ser enfrentado com urgência e com coragem. 

6. Muçulmanos radicais na Inglaterra 

Outro ponto levantado foi a simpatia de parte da comunidade muçulmana britânica com os jihadistas e com o ISIS. Scruton disse que isto deve ser resolvido “da maneira inglesa”, com debates francos e abertos sobre o assunto com “estes jovens que precisam dizer o que pensam e entender se a Inglaterra é o melhor lugar para eles”. 

Scruton acredita que é preciso um debate público e aberto, sem medos ou censura, sobre o tema. Se alguém acha que quem não é muçulmano merece ser morto, que tem sentimentos destrutivos em relação a quem não tem a mesma fé, precisa ser confrontado intelectualmente e, eventualmente, ser avaliado sob a ótica de sua aceitação sobre o arcabouço legal e social da sociedade britânica. 

7. Pessimismo 

Scruton se diz um “pessimista”, dizendo que evidentemente os pessimistas são os que podem estar sempre se surpreendendo positivamente, como ele mesmo em relação ao resultado do Brexit. Ele é o autor do ótimo As Vantagens do Pessimismo, um dos meus preferidos dele. 

8. Cristianismo e política 

Ao ser perguntado sobre as bases cristãs da sociedade ocidental e de como deveriam ser resgatadas para sua sobrevivência, Scruton deu uma resposta que passeou entre o sarcasmo e o cinismo. Ele se assumiu como cristão e que reconhece as evidentes contribuições cristãs para as bases culturais e civilizacionais da Inglaterra, mas que o iluminismo teria conseguido separar igreja e estado numa maneira que ele considera fundamental para o ordenamento social e jurídico do país atualmente. 

Scruton foi sarcástico ao elogiar a igreja anglicana dizendo que ela “acabou por diluir com o tempo e se tornar irrelevante” em assuntos de estado, o que para ele é o ideal. Em tempos de Papa Francisco, não é uma postura incomum entre conservadores. Ao ouvir uma citação de T. S. Eliot sobre o assunto, Scruton tira um sarro do poeta dizendo que ele não era exatamente um pensador político “muito ágil”, tirando risos da platéia. 

9. Aprender com a experiência soviética 

O filósofo faz uma leitura curiosa sobre como a experiência soviética pode ensinar lições sobre como seduzir os jovens em relação ao conservadorismo. Para ele, como qualquer autor de direita era proibido na URSS, ler e discutir estas idéias era um “ato revolucionário, rebelde”, o que é naturalmente atrativo para jovens. É um ponto que o analista americano Bill Whittle sempre repete. 

10. A pergunta “de esquerda” 

Quando chegou o momento das perguntas e respostas, uma senhora aparentemente esquerdista disse que ele estava sendo condescendente demais com os britânicos e que a sociedade é cheia de problemas. Ele respondeu que é claro que a sociedade é imperfeita e deve sempre melhorar, mas “com quem estamos sendo comparados?” É o argumento definitivo. 

Na minha conversa particular com ele, quando fui apresentado ao filósofo por Nick Chance, ele ironizou dizendo que sempre recebe emails de brasileiros dizendo “por favor, venha aqui e nos salve”. Ele disse que já está em conversações para ir ao Brasil. 

Sua visita nunca foi tão necessária como agora.
Publicado originalmente em http://www.gazetadopovo.com.br



A entrevista que você jamais irá ver na TV - Alexandre Garcia entrevista...

NOSSOS INTELECTUAIS QUE NADA PRODUZEM

Todo país precisa de pessoas pensantes de várias disciplinas para, juntas, encontrarem soluções para os nossos problemas.

Os Estados Unidos devem muito a seus “think tanks“, como Brookings Institute, NBER, Russell Sage Foundation, muitos criados em 1910 e que contribuíram para o desenvolvimento do país.

Leiam The Idea Brokers, de James A. Smith.

Talvez seja por isso que o Brasil está à deriva, sem rumo e sem projeto.

Pesquisem os sites de nossas principais universidades e procurem as “soluções para a corrupção

ou “soluções para os juros altos”

ou “soluções para a questão da Previdência”

ou “soluções para fazer o Brasil crescer”.

Quando muito encontraremos “papers” de um professor ou outro, raramente uma solução multidisciplinar.

Nem temos um termo como “think tank” em português.

Não se encontram soluções onde não se ouvem profissionais de direito, contabilidade, administração, demografia, medicina, atuária.

Só para citar as áreas que deveriam se reunir para uma Reforma da Previdência, por exemplo.

Nenhum atuário foi sequer entrevistado ou convidado na GloboNews.

Somente ouvimos as mentiras de intelectuais de Esquerda, economistas dizendo que não há deficit, cientistas políticos afirmando que o problema são as empresas devedoras.

Nossa imprensa de esquerda nem sabe entrevistar uma equipe, somente intelectuais trabalhando sozinhos.

Entre nos sites da USP e seu Instituto de Estudos “Avançados” ou nas Universidades Federais, e veja se estamos recebendo sugestões em troca dos bilhões que gastamos em “pesquisa”.

O Plano Real não foi criado numa Universidade com o concurso de psicólogos, contadores de custos, administradores, advogados, publicitários, como deveria ter ocorrido.

O Plano Collor, o mais dramático dos planos, foi elaborado às pressas por três economistas enfurnados num hotel.

O cerne do conceito de universidade é justamente congregar intelectuais num mesmo lugar ou “universo”, para que eles pesquisem e proponham soluções em conjunto.

Se fosse para todos ficarem enfurnados em suas faculdades ou departamentos, não necessitaríamos de universidades.

Quando eles assinam algo em conjunto, são sempre abaixo-assinados a favor do Lula ou artigos que não vão além da crítica.

Ou com platitudes como “precisamos aumentar os gastos com a educação”.

Nossos intelectuais de esquerda têm muita dificuldade para desenvolver trabalhos em grupo, sempre reina uma fogueira das vaidades só.

A grande maioria da esquerda é no fundo individualista, egocêntrica, vaidosa e persegue seus interesses pessoais de pesquisa.

Não é esse tipo de intelectual que o Brasil desesperadamente necessita.

Precisamos de intelectuais de Direita nas Universidades.

Que acreditem na cooperação, na pluralidade de ideias vindas de várias especialidades, não somente de economistas e sociólogos.

Um recente estudo da OCDE mostra que o Brasil é o país que mais gasta com universidades e não tem o retorno que deveria.

Essa flagrante omissão em especificar soluções multidisciplinares, em entrar nos detalhes, a tendência de ser simplesmente contra alguma coisa, não justifica o que gastamos, verdadeiras fortunas.

Se dependermos desses intelectuais de esquerda jamais sairemos desse marasmo.

Você que é Professor de Universidade de Direita, estamos cansados com sua omissão, sua falta de coragem de se manifestar, seu desprezo com os nossos problemas.

Se você é um professor de Direita, mas calado, mexa-se. Crie as propostas sensatas que precisamos.

Ou será que não há essa tal pluralidade de pensamento nas nossas Universidades?

Caso contrário vocês serão privatizados e depois demitidos.

E aí jamais teremos as pesquisas e soluções que precisamos porque o objetivo desses donos de Faculdades, como um Ricardo Galindo, é o lucro trimestral e realizar mais um IPO.

Portanto, mexam-se ou vocês serão mexidos. 
Por: Stephen kanitz. Do site: blog.kanitz.com.br

sexta-feira, 21 de abril de 2017

EMPRESAS DEVEDORAS NÃO RESOLVEM O ROMBO DA PREVIDÊNCIA


Fico triste quando vejo que jovens de esquerda mentem para poder ganhar uma discussão, em vez de usar a ciência.

O rombo da Previdência é de R$ 540 bilhões por ano. É uma fortuna, bem maior do que esses R$ 180 bilhões noticiados pela direita, e os R$ zero, noticiados pela esquerda.


Essa lista de devedores do INSS que circula por aí não soma nem 100 bilhões, representa somente o rombo de meio ano de deficit, não dos 30 anos até você se aposentar.

Portanto usam um argumento verdadeiro, mas pífio.

Cientificamente pífio, só para lhe enganar. Se todas pagarem o INSS, 99% do rombo continua.

E tem mais. 80% dessa dívida para com o INSS são juros e correção monetária de dívidas de empresas que já quebraram.

Vide as “massa falida”, a VASP, a Transbrasil, a Gazeta Mercantil e outras.

Se essas empresas sequer pagaram os valores originais, jamais pagarão os valores corrigidos, estando inclusive inativos. A Varig nem voa mais.

Empresas como Bradesco e Prefeitura de São Paulo estão contestando atuações do INSS indevidas, e metade delas ganharão o pleito.

Por que jovens de esquerda mentem, se eles mesmos irão um dia querer se aposentar?

O problema da Previdência não são os inadimplentes.

O problema é que todas as contribuições que você depositou sumiram, foram usadas para outras despesas.

Adivinhem por quem?

Se você não está lutando por uma Reforma da Previdência, pelo menos você deveria estar lutando para parar de ser roubado, por você sabe quem.

Apoie o Projeto do MBL que exige que seus depósitos sejam feitos na sua conta do FGTS para você pelo menos poder controlar, e nunca mais ser roubado.
Por: Stephen Kanitz  Do site: http://blog.kanitz.com.br/

AINDA VIVEMOS NO MUNDO DE HITLER

Mais de sete décadas após sua morte, parece impossível escapar do fantasma de Adolf Hitler


Hitler: sua nefasta sombra permanece sobre o mundo Arquivo

Na Inglaterra, uma antiga disputa a respeito dos supostos comentários de um ex-líder do Partido Trabalhista associando Hitler e o Sionismo foi reacendida semana passada. Durante uma guerra de palavras com líderes europeus mês passado, o presidente turco Recep Tyyip Erdogan disse que os políticos holandeses e alemães são nazistas dos tempos modernos. E, na terça-feira (11), Hitler apareceu proeminentemente na espantosa gafe do secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer.

É importante que o horror do Holocausto e dos massacres executados pela máquina de guerra de Hitler permaneça na consciência global. Hitler e os nazistas, por muitas razões óbvias, ainda fornecem o sombrio parâmetro para o pior que a política e a humanidade podem se tornar. Mas é melhor deixar de lado a tentação de invocá-lo para marcar algum ponto político.

De fato, a Casa Branca de Trump e muitos de seus entusiastas na extrema-direita europeia atual se ressentem profundamente das analogias com o fascismo que seus oponentes por vezes atiram contra eles. Confrontados com o legado tóxico do ultranacionalismo ocidental, eles insistem que seus movimentos populistas de direita representam algo de totalmente novo, uma virada histórica. Mas eles não podem afastar tão facilmente a sombra do passado.
Gafe histórica

Sean Spicer, secretário de imprensa da Casa Branca: gafe históricaAFP

O que nos traz novamente ao principal porta-voz do presidente Donald Trump. Na terça-feira – o primeiro dia do feriado judeu da Páscoa – Spicer cometeu um incrível erro não provocado quando lhe perguntaram sobre a resposta dos Estados Unidos ao suposto uso de armas químicas pelo presidente sírio, Bashar al-Assad.

Spicer buscou condenar ainda mais enfaticamente as ações de Assad sugerindo que nem mesmo Hitler tinha usado armas químicas durante a Segunda Guerra Mundial – ignorando, ao que pareceu no momento, que milhões de judeus e outros foram mortos com gás nos campos de concentração nazistas.

“Sabe, você tinha alguém tão desprezível quanto Hitler que não se rebaixou ao ponto de usar armas químicas”, disse Spicer. “Então, se você for a Rússia, precisa se perguntar: esse é um país e um regime ao lado do qual você quer se colocar?”

O ponto que Spicer tinha esperanças de fazer – sublinhando novos relatórios de inteligência dos Estados Unidos de que a Rússia buscou encobertar o uso recente de ataques com armas químicas por Assad – se perdeu em um desnorteado kit de imprensa. Spicer recebeu uma chance de arrumar essa bagunça, mas seu esclarecimento ergueu mais sobrancelhas.

A transcrição de meus colegas captura o quão desconcertante o momento foi para todos, inclusive Spicer.

Acho que quando se trata de gás sarin, não houve – ele não estava usando o gás em seu próprio povo da maneira como Assad está fazendo. Quero dizer, houve, claramente. Entendo seu ponto, obrigado. Obrigado, aprecio isso. Não houve no... Ele trouxe para dentro dos centros de Holocausto, entendo isso. O que estou dizendo é que o jeito que Assad o usou. Ele entrou nas cidades, o atirou em pessoas inocentes, no meio das cidades, foi trazido – assim como seu uso. E aprecio o esclarecimento aqui. Essa não foi a intenção.SEAN SPICER secretário de imprensa da Casa Branca

Essa, é claro, não é a primeira gafe de Spicer, mas há alguns trechos chocantes para se pinçar da salada de palavras acima. Primeiro há a problemática inferência de que judeus alemães e outros mortos por gás nas mãos de Hitler não eram “seu próprio povo”. Depois há a desajeitada rotulação dos campos de concentração como “centros de Holocausto” e a implicação de que aqueles mortos lá de alguma forma não eram igualmente “inocentes”. E, finalmente, há a questão que permanece: em que momento qualquer parte disso pareceu fazer sentido como uma metáfora apropriada?

A reação foi rápida, e o Twitter fez a festa.

Spicer então se saiu com três versões diferentes de um pedido de desculpas, jurando que “de maneira alguma estava tentando diminuir a natureza horrenda do Holocausto”. Mais tarde ele continuou sua turnê de desculpas na CNN, mas tropeçou nas palavras lá novamente, dizendo que não queria distrair as pessoas dos planos de Trump para o Oriente Médio e sua agenda de “desestabilizar a região”.

O Twitter do programa da CNN “The Situation Room” tuitou: “Você sabia que havia câmaras de gás onde os nazistas massacravam pessoas? ‘Sim, estou claramente ciente disso’, diz Spicer.”
Descuidados e mal orientados, não ideológicos

É claro que isso é tudo um tanto tolo. Mas bizarramente não é um incidente isolado da Casa Branca de Trump, que já fez uma bagunça com mensagens sobre o Holocausto e a prevalência do antissemitismo nos Estados Unidos e em outros países. O círculo mais próximo de Trump inclui figuras como o chefe de estratégia Stephen K. Bannon, que no passado foi acusado de difundir discurso antissemita, e Sebastian Gorka, que se recusa a renunciar à sua ligação com uma organização húngara antissemita e de filiação nazista.

Em defesa de Spicer, seus comentários foram descuidados e mal orientados, não ideológicos. Mas o mesmo não pode ser dito a respeito dos aparentados do presidente do outro lado do oceano.
Passado sombrio da França

Marine Le Pen, a candidata a presidente de extrema-direita que está determinada a ganhar uma corrida acirrada na França, causou controvérsia ao argumentar que seu país não precisa mais compartilhar a culpa do Holocausto, se referindo especificamente a um incidente em 1942 quando milhares de judeus foram reunidos e detidos em Paris e depois despachados para morrer.

“A França esteve enlameada nas mentes das pessoas por anos. De fato, nossas crianças são ensinadas a terem toda razão para odiá-la, a olharem apenas para os aspectos mais sombrios de sua história”, Le Pen disse em comentários que provocaram censura do ministro do Exterior de Israel. “Quero que eles se orgulhem de serem franceses novamente.”

Críticos dizem que seu partido, Frente Nacional, está crivado de negadores do Holocausto e simpatia neofascista pelo regime francês de Vichy, colaboracionista dos nazistas. Seu principal oponente, o centrista independente Emmanuel Macron, devolveu: “Madame LePen cometeu um grave erro político e histórico. Essa é a verdadeira face da extrema-direita francesa, contra a qual luto.” Le Pen também vê sua fortuna condenada pelo fantasma de Hitler.
Por: Ishaan Tharoor  Publicado originalmente no jornal The Washington Post  13/04/2017
Do site: http://www.gazetadopovo.com.br/ideias/ainda-vivemos-no-mundo-de-hitler-15pakrbblu6rgyq8equa88gmr

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Olavo de Carvalho | Nova Era, vegetarianismo, origem esotérica da teoria...

O IMPÉRIO ROMANO É AQUI

Governantes e os legisladores do passado administraram de forma trágica as finanças públicas, cuja situação atual agride a lógica mais elementar de economia e finanças


Estudar História é uma das melhores formas de aprender. Quase tudo o que ocorre atualmente de alguma forma já ocorreu no passado. Se formos capazes de aprender com os erros dos outros, o conhecimento da história nos permite, pelo menos em tese, evitar a repetição dos erros. A situação de crise que o Brasil vive guarda semelhanças com a ascensão e queda do Império Romano.

Os romanos desenvolveram eficiente tecnologia para conquistar e tributar outros povos. Nisso residiu a base de seu império. Embriagada pelo sucesso, Roma criou imensa burocracia estatal e encheu de vantagens e privilégios os políticos e os burocratas. Tudo bancado por impostos extorsivos. Isso levou os povos conquistados a migrarem de seus territórios para a capital do império.

Roma começou a crescer demasiadamente, e os líderes romanos passaram a temer por revoltas da massa urbana em razão da falta de trabalho, alimento e moradia para todos. A solução encontrada foi dar comida e diversão ao povo. Cresceram os centros de entretenimento, entre eles o Coliseu. A população da cidade passou a exigir mais comida e diversão (pão e circo). Quanto mais os problemas se agravavam, mais o governo crescia e a burocracia e os impostos aumentavam, sob o jugo de exércitos opressores.

Roma criou imensa burocracia estatal e encheu de vantagens e privilégios os políticos e os burocratas

A vida no campo não fazia mais sentido, e a população abandonava a zona rural rumo às cidades atrás de pão e circo de graça. A produção rural começou a decrescer, os impostos diminuíam, os gastos com o exército e a burocracia não paravam de aumentar, e o império baixou lei proibindo os trabalhadores de deixarem suas terras, sob severas punições a eles e suas famílias. Não deu certo. Roma não resolveu seus problemas, e o Império Romano entrou em declínio.

Como não resolvemos nossos problemas – incluindo a falência da Previdência Social, a privada e a pública –, a história está se repetindo aqui, e o colapso financeiro está anunciado. Até a maior potência mundial, os Estados Unidos, vem trilhando essa estrada: o país está endividado, a burocracia estatal inchada, a moeda nacional enfraquecida, a pobreza aumentando... enfim, é o Império Romano sendo revivido.

O estudo que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) acaba de publicar, sobre o déficit de R$ 77,2 bilhões na Previdência dos servidores dos estados, é assustador. É um rombo equivalente a 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O estudo mostra que, nos últimos dez anos até 2015, o total de servidores estaduais aposentados cresceu 38% enquanto o total na ativa caiu 4%, e os salários cresceram em média 50% contra 21% no setor privado.

Doze estados deram aumentos superiores a 60%, e o campeão é o Ceará, com 78%. Como as aposentadorias dos servidores inativos são vinculadas aos salários dos servidores ativos, os gastos com pessoal explodiram, sem que isso beneficiasse a população. O rombo previdenciário é enorme. Os estados foram excluídos do projeto de reforma da Previdência em tramitação no Congresso Nacional, o que deixa dúvidas se irão fazer alguma reforma.

Por falta de educação financeira ou por demagogia política (ou ambas), os governantes e os legisladores do passado administraram de forma trágica as finanças públicas, cuja situação atual agride a lógica mais elementar de economia e finanças. Mesmo que o conserto comece agora, a recuperação será tarefa de várias gerações. Uma coisa é certa: o declínio do Império Romano não ensinou nada aos governantes brasileiros, salvo raras e honrosas exceções.
Por: José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo. 
Do site: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/oimperio-romano-e-aqui-5p9kur31edqsqwd4lzod7qhir