quinta-feira, 28 de julho de 2016

HONÓRIO, ROMA E A GALINHA

São inúmeros aqueles que procuram entender ou explicar os acontecimentos apenas com base nas articulações ou tramas políticas, nas vantagens ou interesses econômicos, nos avanços ou conquistas tecnológicas. Pouca atenção prestam ao caminhar dos espíritos, à transformação das mentalidades, à influência das ideias, à alteração dos hábitos, costumes sociais, leis e instituições.

Farândola enlouquecida
O Ocidente sofre há muito a erosão sistemática dos valores cristãos que estão na base da maior e mais esplendorosa civilização que o mundo tenha conhecido.

Seduzidos pelo imediatismo e pelas coruscações materialistas e prazenteiras da “modernidade”, os homens foram renunciando às grandes perspectivas históricas, aos valores transcendentes e perenes, ao esforço ascensional da cultura, ao senso do dever e ao espírito de sacrifício, seja a nível pessoal, seja a nível social.

No presente, o Ocidente cristão (ou quase ex-cristão) sofre os embates de forças políticas, econômicas, científicas, filosóficas, ideológicas, religiosas, etc. que o empurram para uma desestabilização profunda. Ameaças diversas parecem fazer em torno de nós a dança de uma farândola enlouquecida.

Nice e Turquia
Nos últimos dias, em Nice, no sul da França, um tunisiano muçulmano atropelou indiscriminadamente, com seu caminhão, vítimas indefesas, num atentado reivindicado pelo Estado Islâmico; e na Turquia eventos pouco claros protagonizados por uma ala militar, propiciaram ao Presidente Erdogan consolidar, com mão de ferro, um regime autoritário islâmico e promover uma maciça “caça às bruxas” em vastos setores da sociedade e em importantes instituições do Estado, tornando a potência militar da NATO uma grave incógnita no tabuleiro internacional.

As reações desencontradas e frouxas das autoridades e das populações ocidentais, sobretudo europeias, deixam entrever uma civilização debilitada face aos perigos e pronta à compreensão – ou até à subserviência – face aos inimigos.

A perene lição de Roma
“A História é mestra da vida”, sentenciava o grande Cícero. Não parece supérfluo voltarmo-nos para a Roma Imperial, no momento de sua decadência, para tentar entender o que presenciamos nestes dias. Talvez para alguns este exercício pareça enfadonho e, numa fuga para a frente, prefiram sair por aí à caça de Pokémons, a mais recente febre da “modernidade” fútil e vazia. Talvez até nisso Roma não deixará de ser uma lição...

Convido-os, pois, a ler um artigo de Helena Matos, publicado no Observador (17.07.2016), intitulado “Uma Europa chamada Roma”:

"Horas antes do golpe na Turquia tivera lugar em França mais um atentado e mais uma vez o Presidente francês dissera que a França era forte. E os jornais escreviam que “um caminhão matou”, como se o caminhão se tivesse posto em marcha sózinho.

Face ao atentado de Nice repetia-se que havia que compreender os motivos do homem que praticara tal acto sendo que neste contexto o verbo compreender não é sinónimo de adquirir conhecimento para melhor agir sobre o agressor mas sim para aceitar com maior resignação o papel de vítima.

Como sempre o Facebook encheu-se de vídeos virais em que os likes fazem as vezes das convicções e o máximo da decisão passa por pintar a Torre Eiffel com as cores da bandeira francesa. Desta vez já nem houve muitas velas nas ruas, talvez para não atrapalhar as corridas atrás dos Pokémons.

De repente, o drama desta Europa, uma Europa que foi capaz de garantir ao maior número de cidadãos um conjunto mais alargado de direitos mas que se condenou a si mesma à decadência, parece-me decalcado desse outro drama vivido por outra civilização extraordinária – o império romano. Um drama que simbolicamente terminou numa noite de Agosto de 410 dC, em Ravena. Nessa noite um mensageiro (há sempre uma mensagem e um mensageiro, o tempo apenas muda a natureza do mensageiro) entrou a correr no palácio de Ravena onde o imperador Honório estava retirado para escapar ao cerco que o rei visigodo Alarico montara em torno de Roma. A notícia é tão grave que os presentes resolvem acordar Honório: Roma caíra às mãos do invasor [quadro].

Perante a notícia, o imperador Honório declara consternado “Ainda há pouco comeu da minha mão”. O desalento desconcertante da resposta do imperador leva um dos presentes a esclarecer Honório: Roma, a sua galinha preferida, estava bem. Fora sim a capital do seu império e não a sua preferida que caíra perante o invasor. Honório terá suspirado de alívio pois por momentos pensara que fosse a sua galinha e não a cidade a soçobrar.

Há oito séculos que Roma era inviolável. Mas nesse Agosto de 410 dC, o rei visigodo Alarico atravessara a Porta Salaria e entrara em Roma à frente dos seus homens. O saque começou. A própria irmã do imperador, Gala Placidia, estava cativa de Alarico, um chefe militar que soube tirar partido das fraquezas do outrora grande império.

Valha a verdade que o saque de Alarico foi apenas o primeiro – e nem sequer o pior – dos vários que reduzirão a orgulhosa Roma a um símbolo da decadência. A dado momento os romanos antecipar-se-ão até aos invasores e antes que estes montem mais um cerco abrem-lhes as portas da cidade para que no momento do inevitável saque se mostrassem mais misericordiosos (não mostraram).

A história da reacção de Honório ao saber do saque de Roma foi muito provavelmente romanceada mas tem servido para ilustrar o que bondosamente designamos como decadência do império romano. Perante essa fabulosa civilização que se condenou a si mesma à derrota poucas coisas ilustrarão melhor o comportamento das elites romanas do que esse imperador a chorar a sua galinha e não a sua cidade.

Neste século XXI, Honório, a sua cidade e a sua galinha andam por aí. Simplesmente Roma agora chama-se Europa. E os europeus, tal como o imperador Honório, desdenham dos aliados, não resolvem o essencial, assistem abúlicos aos ataques de que são alvo e perante a catástrofe fazem de conta que não a vêem. Ou apenas vêem a morte da sua galinha – com quantas causas fúteis se entretêm semanalmente os parlamentos da Europa? – e não a queda da sua cidade.

Enquanto escrevo os presos na Turquia contam-se aos milhares e a purga na justiça e entre os militares é profunda. Nas televisões europeias confunde-se apoio e bandeirinhas nas redes sociais com legitimidade. Erdogan entretanto avisa que quem estiver com os rebeldes, está “em guerra com a Turquia”, sendo que o conceito de “estar com os rebeldes” é muito lato. Por exemplo, não entregar à Turquia os oito militares turcos que pediram asilo político à Grécia é sinónimo de estar com os rebeldes? E como vai daqui em diante a Turquia usar os seus controlos fronteiriços para pressionar a Europa a deixar de “estar com os rebeldes”, queira isso dizer o que queira? E o que fazem os líderes europeus caso Erdogan, com menos folclore, mais racionalidade e umas forças armadas purgadas mas bem treinadas, entre na espiral de confronto-amizade-chantagem como durante anos fez Kadafi? Telefonam para Washington e esperam que o presidente norte-americano, seja ele qual for, mobilize os nascidos no Ohio ou no Kansas para reforçarem a presença militar nas bases norte-americanas na Europa, precisamente aquelas contra as quais não houve estudante europeu que não achasse de bom tom manifestar-se?

Na escola aprendíamos como os romanos fizeram o seu império. Na verdade devíamos ter estudado mais como o desfizeram. Porque Honório e a sua galinha não aconteceram por acaso. Eles são o resultado de uma sociedade que se derrotou a si mesma antes de ser derrotada pelos outros. De um império que acabou a ter de pagar para não ser atacado por aqueles a quem antes pagara para que o defendessem.

Da próxima vez que o estrépito de um atentado nos distrair dos Pokémons, em vez de desabafarmos no Facebook será bem mais útil ir estudar os romanos. Honório e a sua galinha fazem parte do nosso passado e nós já estivemos mais longe de nos refugiarmos em Ravena".
Imagem: 'A Invasão dos Bárbaros' ou 'Entrada dos Hunos em Roma', Ulpiano Checa, 1887.
Por: José Carlos Sepúlveda da Fonseca 27 Julho 2016 
Do site: http://www.midiasemmascara.org/

A VERDADE SOBRE NOSSA INCONGRUÊNCIA: COBRAR POR PESO OU POR PESSOA?


Na esteira da iminente entrada em vigor da lei que tornará obrigatória a individualização das contas de água em condomínios habitacionais, proponho uma reflexão sobre uma particularidade do Brasil na hora de pagar a conta do restaurante: a cobrança por peso ou por pessoa (independentemente do consumo). Seria mesmo correto 400 gramas de camarão custarem menos que 450 gramas de arroz? E por que um glutão deve pagar o mesmo que alguém que sequer repete o prato? Acredito que tal procedimento típico do Brasil (é raro deparar-se com tal sistema mundo afora) reflete sobremaneira nossa mentalidade coletivista e demonstra uma clara tendência do brasileiro ao abusar de um direito quando pode dividir a respectiva despesa com outras pessoas – como não poderia deixar de ser, aliás.

Vejamos a semelhança com outro episódio recente, quando as empresas de telefonia propuseram que os usuários dos serviços de banda larga fossem tarifados conforme a quantidade de dados que consumissem, e não mais apenas com base na velocidade contratada (e raramente entregue pela companhia, diga-se). Parecia razoável: alguém que usa a internet apenas para acessar websites deve pagar o mesmo que outro consumidor que faz downloads pesados 24 horas por dia? Não seria mais adequado oferecer pacotes para os diferentes perfis de internautas, desde os aficionados até aqueles que utilizam o serviço apenas eventualmente?

A resposta para essas perguntas passa pela seguinte constatação: empresas de telefonia (ou de qualquer outra atividade econômica) não vivem de caridade. O custo para fornecer a banda de internet para o internauta eventual e para o “viciado” certamente será compartido entre ambos. Com a legislação vigente, todavia, se eles contratam a mesma velocidade, pagam o mesmo valor. Ou seja: quem consome menos está pagando para quem consome mais. Se alguma companhia pretende oferecer a possibilidade de quebrar essa distorção, medindo o consumo de dados e cobrando conforme a utilização, o Estado brasileiro não deveria impedi-la. Os usuários insatisfeitos com tal modelo poderiam procurar alternativas na concorrência, pois sua demanda por um “buffet livre” de internet seria, por certo, atendida por outras empresas do ramo de olho neste nicho – especialmente se as barreiras para entrada no setor fossem derrubadas pela Anatel, permitindo que a competição no setor aumentasse substancialmente, em benefício dos consumidores (especialmente daqueles que não passam o dia inteiro online).

Nesse mesmo sentido, o custo dos alimentos consumidos em uma refeição, considerados dois pratos servidos de igual peso, dificilmente será o mesmo, considerando que as predileções dos indivíduos variam muito. Mas como o dispêndio total dos alimentos consumidos em uma determinada ocasião, em um dado estabelecimento, deverá ser custeado por todos que usufruíram do serviço (não importando se consumiram 500 gramas de picanha ou costela, cortes de valor muito diferenciado), novamente nos deparamos com a situação onde consumidores de diferentes perfis são tratados de forma homogênea. A mesma discrepância ocorre no sistema de “all you can eat”, onde determinadas pessoas acarretam prejuízo para o restaurante, e outras lucro, sendo que essas, na prática, pagam parte do almoço daquelas.

Esse expediente de “somar tudo e dividir por todos” é bastante comum em confraternizações entre amigos e parentes. Raramente alguém irá se importar se o fulano comeu mais que o beltrano no almoço de Páscoa. Mas essa concepção, na qual se justifica que certos cidadãos sejam beneficiados em detrimento de outros, com a coletividade bancando parte do consumo de determinados indivíduos, não se sustenta quando se trata de pessoas que não se conhecem e, não raro, nunca virão a se conhecer. Todavia, no Brasil, já estamos acostumados a lidar com esse tipo de iniquidade, quando os frequentadores de cinemas e show artísticos bancam a meia entrada de diversos beneficiários; quando o BNDES concede empréstimos com juros subsidiados a determinadas empresas detentoras de laços com governantes (utilizando até mesmo recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT); quando universidades públicas são custeadas com impostos de brasileiros que nunca sequer chegaram perto de uma – ao passo que os favorecidos, em vez de justificar tal sacrifício popular dedicando-se aos estudos, preferem “fazer greve” e praticar bizarrices as mais diversas, até porque não desembolsam nem um tostão com seus estudos.

É claro que existem restaurantes que adotam o sistema à la carte, e mais lógico ainda é que, se há tantos outros que vendem comida por quilo ou no buffet livre, existe demanda para tal. Longe de mim, pois, querer que o Estado intervenha e determine de que maneira os comerciantes devem cobrar por seus produtos e serviços, tal qual ocorreu anos atrás, quando o governo determinou que padarias deveriam vender o pão francês por peso,desagradando empresários e consumidores – e, claro, justificando a criação de “fiscais de balança” (leia-se: mais Estado e impostos).

O que estou preconizando é que os próprios consumidores apercebam-se da incongruência de onerar pessoas que consomem menos em favor de outras que consomem mais, e passem a demandar que os restaurantes empreguem métodos de valoração do consumo mais condizentes com a realidade. Já há iniciativas neste rumo, onde são impostos limites ou preços diferenciados para alimentos mais caros (normalmente carnes), mas que ainda passam distante do objetivo tornar mais equânime a relação entre consumo real e preço cobrado.

As consequências deste cenário deturpado podem ser constatadas quando observamos, em restaurantes de sistema buffet livre ou rodízio, avisos solicitando aos clientes que “não desperdicem alimentos”, pelo fato de que costuma sobrar muita comida nos pratos. Nem poderia ser diferente: quanto todos os consumidores pagam uma mesma quantia para usufruir livremente da comida do restaurante, ela passa a ser vista como um bem “público”, tal qual a água que sai da torneira em um condomínio habitacional que não individualiza os consumos deste bem natural.

Ou seja: a tendência é que ocorra muito desperdício mesmo, e, neste cenário, tanto lavar o carro durante horas, quanto servir-se sem nenhuma preocupação se haverá sobra, são atitudes totalmente previsíveis. Se algo é de todos, não é de ninguém – e aquele produto escasso será tratado como sendo ilimitado. Contribui para este panorama o fato de que o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o que pode provocar a percepção geral de que a comida farta é inesgotável. De fato, a evolução dos meios de produção e distribuição, e o comércio globalizado, levaram a humanidade a este período de fartura inédito, mas nem por isso devemos considerar admissível que clientes de apetite menos voraz banquem parte da conta dos mais gulosos.

Outro exemplo claro da mesma circunstância: a política de uma rede de fast food que chegou ao Brasil na última década é de vender refrigerante em sistema de refil. A intenção era apenas que o cliente pudesse usufruir da bebida enquanto come o lanche adquirido na loja. Eis que os brasileiros resolveram ficar tomando refrigerante a tarde toda, e inclusive dividindo a bebida entre amigos. Tal atitude advém da mesma lógica: se todos os clientes pagam “X” para consumir o quanto quiserem, a nossa malandragem inata manda beber até explodir. O resultado: como a empresa não vai arcar com o prejuízo sozinha, todos os demais clientes (inclusive aqueles que tomaram apenas um copo de refrigerante) serão solidariamente penalizados com aumentos do preço dos lanches.

Tal mentalidade acaba se alastrando por diversas outras áreas em que muitos não se importam em sustentar privilégios de outros. Ela revela-se fortemente na estrutura da Previdência Social: todas as contribuições dos trabalhadores são recolhidas para um mesmo fundo, mas os pagamentos retornam em proporções muito diferentes. Será que não deveríamos reivindicar que os descontos efetuados nas remunerações de cada cidadão fossem destinadas a contas individuais, de tal forma que ninguém precisasse trabalhar para pagar aposentadorias com regras especiais de categorias privilegiadas? Parece-me que sim, especialmente porque, desta forma, cada um poderia decidir até que idade está disposto a trabalhar. Se eu quisesse seguir na ativa até 55 anos (percebendo uma aposentadoria menor) ou pendurar as chuteiras com 70 (fazendo jus a remunerações superiores), ficaria a meu critério.

O brasileiro costuma preferir o popular “rachide” ao enjeitado “cada um paga o s eu”. E nesse processo, claro, todos tentam ingressar no grupo dos agraciados e sair da turma dos extorquidos. O problema é que estão sobrando poucos “otários” para manter tantos “espertos”.
Por Bourdin Burke, publicado pelo Instituto Liberal Do site:www.institutoliberal.com.br 

LEANDRO KARNAL INFORMA OU DESINFORMA?

quarta-feira, 27 de julho de 2016

TENTATIVA DE GOLPE NA TURQUIA: UM FESTIVAL DE PRETEXTOS

- Agora será ainda mais difícil para os dissidentes viverem na Turquia. O Presidente Erdogan já fala sobre a reintrodução da pena de morte.


- O Departamento Geral de Segurança (que dirige a força policial) emitiu um comunicado convocando os cidadãos a informá-lo sobre qualquer material em circulação nas redes sociais que apoie os terroristas, a organização de Gulen ou que contenha material de propaganda contra o governo.

Tudo parecia surreal na Turquia; soldados convidando o chefe do esquadrão anti-terrorismo da polícia para uma "reunião", na verdade para matá-lo com um tiro na cabeça; oficiais de alta patente, incluindo o chefe do estado-maior das forças armadas, o comandante da força aérea, o comandante das forças terrestres e o comandante da guarda civil, serem tomados de reféns pelos seus próprios ajudantes de ordens; depois pessoas tomando as ruas, aos milhares, para resistirem ao golpe de estado, se apoderando de tanques, sendo mortos, soldados abrindo fogo contra civis e, para completar a vitoriosa multidão pró-Erdogan linchando soldados que encenavam o golpe onde quer que se encontrassem.


A rede de TV NTV da Turquia mostrando soldados que participaram da tentativa de golpe se rendendo, com as mãos levantadas, na ponte do Bósforo em Istambul, 15 de julho de 2016.

O Presidente Recep Tayyip Erdogan acusou o seu ex-aliado político mais importante, Fethullah Gulen, um clérigo muçulmano ora exilado nos Estados Unidos além de pessoas leais a ele dentro do exército. Aparecendo perante uma multidão de simpatizantes de seu partido,Erdogan solicitou a Washington a extradição do "terrorista" Gulen.

Tanto a inteligência quanto a força policial fiéis a Erdogan imediatamente prenderam cerca de 6.000 militares e membros do judiciário, alegando que eles pertenciam à "organização terrorista 'gulenista'." O Ministro da justiça Bekir Bozdag salientou que mais prisões estavam programadas, sinalizando a eclosão de uma caça às bruxas em todo o país. Tomada essa medida, o Ministério do Interior logo suspendeu 8.777 servidores, incluindo governadores, suspeitos de serem "gulenistas" e prendeu milhares de funcionários do judiciário. Muitos liberais acreditam que o governo usará a tentativa de golpe como pretexto para intimidar seus opositores quer tenham ou não alguma ligação com Gulen.

"Erdogan sai enormemente fortalecido deste episódio"de acordo com Howard Eissenstat, professor doutor de história do Oriente Médio da Universidade St. Lawrence em Canton, Nova York. "Isto mobilizou com novas energias a sua base de sustentação, que estava ficando irritada com ele, por assim dizer. A tentativa de golpe pelo menos lhe deu um respiro que ele usou para unir todos os elementos da sociedade contra uma clara ameaça."

Agora será ainda mais difícil para os dissidentes viverem na Turquia. Erdogan já fala sobre areintrodução da pena de morte "Nosso governo debaterá a pena de morte com a oposição" salientou ele ao discursar perante uma multidão de simpatizantes de seu partido que interrompia sua fala com as seguintes palavras de ordem: "nós queremos a pena de morte." Então ele ressaltou que sancionará a reintrodução da pena de morte se ela for aprovada pelo parlamento

Enquanto isso, o Departamento Geral de Segurança (que dirige a força policial) emitiu umcomunicado convocando os cidadãos a informá-lo sobre qualquer material em circulação nas redes sociais que apoie os terroristas, a organização de Gulen ou que contenha material de propaganda contra o governo.

Toda esta agitação turca traz à mente o incêndio do Reichstag, incêndio criminoso no parlamento alemão em Berlim em 27 de fevereiro de 1933. Marinus van der Lubbe, um jovem holandês, comunista, desempregado, foi preso pelo crime. Ele tinha acabado de chegar à Alemanha; se declarou culpado e foi condenado à morte. O incêndio do Reichstag foi usado de pretexto pelo Partido Nazista para dizer a sua plateia que os comunistas estavam conspirando contra o governo alemão -- um acontecimento crucial para o estabelecimento da Alemanha Nazista.

Pode ser que jamais saberemos se o golpe fracassado de 15 de julho foi uma versão turca do incêndio do Reichstag. Mas sabemos que será usado como pretexto para reivindicar que uma enorme massa de inimigos, dentro e fora da Turquia, estão conspirando contra o governo.
Por: Burak Bekdil, estabelecido em Ankara, é um colunista turco do Hürriyet Daily e Membro Destacado no Middle East Forum. 21 de Julho de 2016
Tradução: Joseph Skilnik Do site:http://pt.gatestoneinstitute.org/

terça-feira, 26 de julho de 2016

FRANÇA: A GUERRA CIVIL ESTÁ CHEGANDO

- Para o presidente francês François Hollande o inimigo é uma abstração: "terrorismo" ou então "fanáticos".


- O presidente francês opta por reafirmar sua determinação a favor de ações militares no exterior: "iremos reforçar nossas ações na Síria e no Iraque," ressaltou o presidente após o ataque em Nice.

- Confrontados com esse fracasso da nossa elite -- que foi eleita para capitanear o país pelos perigos nacionais e internacionais -- causaria alguma surpresa se grupos paramilitares estiverem se organizando para retaliar?

- Na França, foram as elites globais que fizeram a escolha. Eles decidiram que os "maus" eleitores da França eram pessoas desatinadas, idiotas demais, para enxergarem a beleza de uma sociedade aberta para aqueles que muitas vezes não querem se assimilar, que querem que você seja assimilado por eles e que ameaçam matá-lo se você discordar. A elite se alinhou contra os próprios idosos e pobres do país porque eles não quiseram mais votar neles. A elite também optou por não combater o islamismo, porque os muçulmanos votam coletivamente na elite global.


"Estamos à beira de uma guerra civil". Essa afirmação não foi feita por um fanático ou lunático. Não, ela foi feita por Patrick Calvar, Chefe do Departamento de Segurança Nacional França, DGSI (Direction générale de la sécurité intérieure). Na realidade ele já tinha se referido, por diversas vezes, sobre o risco de guerra civil. Em 12 de julho ele fez o alerta à Comissão dos Membros do Parlamento, responsável por um levantamento em relação aos ataques terroristas de 2015.
A polícia francesa matou um terrorista islamista natural da Tunísia, que matou 84 pessoas em Nice, França em 14 de julho de 2016. (Imagem: captura de tela da Sky News)

Em maio de 2016, ele enviou uma mensagem bem parecida a uma outra comissão de membros do parlamento, desta vez encarregada da defesa nacional. A "Europa", realçou ele, "corre perigo. O extremismo cresce em todos os cantos e agora nós estamos voltando a nossa atenção para alguns movimentos de extrema-direita que estão se preparando para um confronto".

Que tipo de confrontação? "Confrontos entre comunidades", ressaltou ele -- eufemismo para "guerra contra os muçulmanos". "Mais um ou dois ataques terroristas", acrescenta ele "e poderemos nos ver diante de uma guerra civil".

Em fevereiro de 2016, diante da Comissão do Senado responsável pelas informações da inteligência, ele voltou a afirmar: "nós estamos dirigindo nossos olhares para a extrema-direita que está apenas esperando que aconteçam mais ataques terroristas para lançarem mão de confrontos violentos".

Ninguém sabe se o terrorista que lançou o caminhão em cima da multidão no Dia da Bastilha em 14 de julho em Nice matando mais de 80 pessoas irá precipitar uma guerra civil na França, mas poderá ajudar a identificar o que irá gerar esse risco na França e em outros países como a Alemanha ou a Suécia.

A principal razão é o fracasso do estado.

1. A França Está em Guerra, Mas Nunca se Menciona o Nome do Inimigo.

A França é o principal alvo de recorrentes ataques islamistas; os banhos de sangue que mais ficaram em evidência ocorreram na redação da revista Charlie Hebdo e no supermercado Hypercacher de Vincennes (2015); na sala de espetáculos Bataclan, nos restaurantes próximos e no Estádio Stade de France (2015); no ataque frustrado contra o trem Thalys; na decapitação de Hervé Cornara (2015); no assassinato de dois policiais em Magnanville em junho (2016) e agora no atropelamento do caminhão em Nice no dia do festejo da Revolução francesa de 1789.

A maioria desses ataques foram cometidos por muçulmanos franceses: cidadãos voltando da Síria (os irmãos Kouachi contra o Charlie Hebdo) ou por islamitas franceses (Larossi Abballa que matou a família de um policial em Magnanville em junho de 2016), que mais tarde assumiu sua lealdade ao Estado Islâmico (ISIS). O assassino do caminhão em Nice era tunisiano, casado com uma francesa com a qual teve três filhos, viviam tranquilamente em Nice até que ele resolveu matar mais de 80 pessoas e ferir dezenas mais.

Após cada um desses trágicos episódios o Presidente François Hollande se recusa a dizer quem é o inimigo, se recusa a dizer islamismo -- e principalmente se recusa em citar os islamistas franceses -- como inimigos dos cidadãos franceses.

Para Hollande o inimigo é uma abstração: "terrorismo" ou então "fanáticos". Mesmo quando o presidente já ousa apontar o inimigo como sendo o "islamismo", ele se recusa a dizer que irá fechar todas as mesquitas salafistas, proibir na França a Irmandade Muçulmana e organizações salafistas ou proibir que as mulheres usem véus nas ruas ou nas universidades. Não, o presidente francês opta por reafirmar sua determinação a favor de ações militares no exterior: "iremos reforçar nossas ações na Síria e no Iraque," ressaltou o presidente após o ataque em Nice.

Para o presidente francês, o posicionamento de soldados no próprio país deve ser empregado apenas em casos de operações defensivas: política de contenção, não o rearmamento ofensivo da república contra um inimigo interno.

Confrontados com esse fracasso da nossa elite -- que foi eleita para capitanear o país pelos perigos nacionais e internacionais -- causaria alguma surpresa se grupos paramilitares estiverem se organizando para retaliar?

Conforme salienta Mathieu Bock-Côté, sociólogo da França e do Canadá, no jornal Le Figaro:

"As elites ocidentais, com uma obstinação suicida, opõem-se em identificar o inimigo. Confrontadas com ataques em Bruxelas ou Paris, elas preferem imaginar uma luta filosófica entre a democracia e o terrorismo, entre uma sociedade aberta e o fanatismo, entre a civilização e a barbárie".

2. A Guerra Civil Já Começou e Ninguém Quer Dar um Nome a Ela.

A guerra civil começou há dezesseis anos, com a Segunda Intifada. Enquanto os palestinos levavam a efeito ataques suicidas em Tel-aviv e Jerusalém, os muçulmanos franceses começavam a aterrorizar os judeus que viviam pacificamente na França. Durante dezesseis anos, os judeus -- na França -- foram massacrados, atacados, torturados e esfaqueados por cidadãos franceses muçulmanos, teoricamente para vingar os palestinos da Cisjordânia.

Quando um grupo de cidadãos franceses, que são muçulmanos, declara guerra a outro grupo de cidadãos franceses que são judeus, que nome se dá a isso? Para o establishment francês, não se trata de guerra civil, é apenas um lamentável mal-entendido entre duas comunidades "étnicas".

Até agora ninguém queria estabelecer uma ligação entre estes ataques e o ataque assassino em Nice contra pessoas que não eram necessariamente judias -- e chamá-lo como deveria ser chamado: guerra civil.

Para o establishment francês, politicamente correto ao extremo, o perigo de uma guerra civil somente se concretizará se houver retaliação contra muçulmanos franceses; se todos apenas cederem às suas exigências tudo estará bem. Até agora ninguém pensou que os ataques terroristas contra os judeus cometidos por muçulmanos franceses; contra os jornalistas doCharlie Hebdo por muçulmanos franceses; contra um empresário que foi decapitado há um ano por um muçulmano francês; contra o jovem Ilan Halimi por um grupo de muçulmanos; contra escolares menores de idade em Toulouse por um muçulmano francês; contra os passageiros do trem Thalys por um muçulmano francês, contra pessoas inocentes em Nice por um francês praticamente muçulmano fossem sintomas de uma guerra civil. Estes banhos de sangue continuam a ser vistos, até hoje, como algo parecido com um trágico mal-entendido.

3. O Establishment Francês Considera os Pobres, os Idosos e os Desiludidos o Inimigo

Na França, quem reclama mais da imigração muçulmana? Quem mais sofre com o islamismo local? Quem gosta mais de beber uma taça de vinho ou comer um sanduíche de manteiga com presunto? Os pobres e os idosos que vivem perto das comunidades muçulmanas, porque não têm dinheiro para se mudarem para outro lugar.

Hoje, como resultado, milhões de pobres e idosos na França estão dispostos a elegerem Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional (partido de direita), como próxima presidente da República, pela simples razão da Frente Nacional ser o único partido determinado a combater a imigração ilegal.

Visto que os franceses idosos e pobres estão dispostos a votar na Frente Nacional, eles se tornaram o inimigo do establishment francês, tanto da direita quanto da esquerda. O que a Frente Nacional está dizendo a essas pessoas? "Vamos restaurar a França como nação dos franceses". E os pobres e idosos acreditam -- porque eles não têm escolha.

Na mesma linha, os pobres e idosos na Grã-Bretanha não tiveram outra escolha senão a de votarem a favor do Brexit. Eles fizeram uso do primeiro instrumento que lhes foi fornecido para expressarem seu descontentamento de viver em uma sociedade que não apreciam mais. Eles não votaram com o intuito de dizer: "matem esses muçulmanos que estão transformando o meu país, roubando o meu emprego e absorvendo meus impostos". Eles somente estavam protestando contra uma sociedade que uma elite global tinha começado a transformar sem o seu consentimento.

Na França, foram as elites globais que fizeram a escolha. Eles decidiram que os "maus" eleitores da França eram pessoas desatinadas, idiotas demais, racistas demais para enxergarem a beleza de uma sociedade aberta para aqueles que muitas vezes não querem se assimilar, que querem que você seja assimilado por eles e que ameaçam matá-lo se você discordar.

As elites globais fizeram outra escolha: se posicionaram contra os próprios idosos e pobres do país porque eles não quiseram mais votar neles. As elites globais também optaram por não combater o islamismo, porque os muçulmanos votam globalmente na elite global. Os muçulmanos na Europa também oferecem uma grande "recompensa" para a elite global: votam coletivamente.

Na França, 93% dos muçulmanos votaram no atual presidente, François Hollande em 2012. Na Suécia, os sociais-democratas afirmaram que 75% dos muçulmanos suecos votaram neles na eleição geral de 2006; estudos mostram que o bloco "vermelho-verde" conquista de 80 a 90% dos votos muçulmanos.

4. A Guerra Civil é Inevitável? É!

Se o establishment não quer enxergar que a guerra civil foi declarada primeiro pelo extremistas muçulmanos -- se o establishment não quer enxergar que o inimigo na França não é a Frente Nacional, a AfD na Alemanha ou os Democratas Suecos e sim o islamismo na França, Bélgica, Grã-Bretanha e Suécia -- então haverá sim uma guerra civil.

Tanto a França quanto a Alemanha e a Suécia, dispõem de militares e policiais fortes o suficiente para combaterem o inimigo islamista interno. Mas primeiro eles têm que apresentar o nome do inimigo e tomar medidas contra ele. Caso contrário -- se deixarem os cidadãos autóctones aflitos, sem opção a não ser se armarem e retaliarem -- sim, a guerra civil é inevitável.
Por: Yves Mamou, radicado na França, trabalhou por duas décadas como jornalista para o Le Monde. 19 de Julho de 2016
Original em inglês: France: The Coming Civil War
Tradução: Joseph Skilnik Do site: http://pt.gatestoneinstitute.org/

OLAVO DE CARVALHO - ENTENDA, PODE MUDAR SUA VIDA

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O IMÃ ENALTECIDO PELA IGREJA DA SUÉCIA: "OS JUDEUS ESTÃO POR TRÁS DO ESTADO ISLÂMICO!"

- Os sacerdotes têm medo de falar sobre Jesus durante a missa. — Eva Hamberg, episcopisa e professora, renunciou ao sacerdócio em sinal de protesto e deixou a Igreja.


- A Igreja da Suécia pode estar caminhando para o "Crislão" -- uma mistura do cristianismo com o Islã. Os sacerdotes suecos ao observarem o fervor religioso dos muçulmanos que vivem na Suécia e que agora tomam parte, entusiasmados, de diversos programas de confraternização entre as religiões.

- "Há fontes confiáveis do Egito que mostram que a família real saudita é, na realidade, uma família judia que veio do Iraque à Península Arábica ao redor dos anos 1700. Eles montaram um exército com a ajuda de oficiais britânicos que lutavam contra o sultanato otomano." — Imã Awad Olwan com quem o sacerdote Henrik Larsson está trabalhando em um programa de cooperação entre religiões.

- "O envolvimento que a Igreja da Suécia demonstrou em relação à vulnerabilidade dos cristãos palestinos, foi substituído pela indiferença para com a limpeza étnica dos cristãos da Síria e do Iraque. Naqueles países, as atrocidades são cometidas na maioria das vezes pelos muçulmanos, sendo evidentemente o bastante para que a Igreja da Suécia se debruce sobre questões ambientais e climáticas." — Eli Göndör, estudioso da religião.


A Igreja da Suécia deixou de ser a forte e austera igreja oficial. No passado, os suecos nasceram nela e até 1951 ninguém tinha autorização de deixá-la. Hoje em dia, no entanto, é uma instituição que tem muito pouco a ver com o cristianismo ou com Jesus. A Suécia, de acordo com o >World Values Survey, é um dos países mais seculares do mundo; anualmente um contingente considerável de suecos abandona a igreja.

Normalmente somente os ateus deixavam a Igreja; agora são os cristãos devotos que a deixam -- em sinal de protesto contra a relação, cada vez mais questionável, da igreja em relação a fé cristã.

Quando, por exemplo, a atual Arquiepiscopisa Antje Jackelén, pouco antes da nomeação ao arcebispado, participou de um programa de perguntas e respostas no outono de 2013, uma das perguntas foi a seguinte: "Jesus transmite uma imagem mais verdadeira de Deus do que Maomé?", surpreendentemente, a futura arquiepiscopisa não disse imediatamente que sim, mas envolveu-se em um longo monólogo sobre as muitas maneiras de se chegar a Deus. Evidentemente isso aborreceu muitos paroquianos A renomada sacerdotisa e professora Eva Hamberg, renunciou ao sacerdócio em sinal de protesto e deixou a Igreja da Suécia.

"Isso fez com que eu saísse mais depressa", disse ela ao jornal cristão Dagen. "Se a futura arquiepiscopisa não consegue defender a Fé dos Apóstolos e ainda fica racionalizando, então é porque a secularização já foi longe demais."

Hamberg, que conduziu a pesquisa sobre o processo de secularização, salientou que na Suécia a secularização passa por uma celeridade -- mesmo dentro da Igreja da Suécia. Como exemplo, Hamberg disse que Antje Jackelén não acredita na Imaculada Conceição e diz ser uma metáfora. Hamberg também salientou que há falta de reverência diante do Deus Trino e que os sacerdotes têm medo de falar sobre Jesus durante a missa.


"Há também uma clara falta de tolerância dentro da Igreja da Suécia. Todos os candidatos (ao cargo de arcebispo) estavam ávidos a falar sobre diálogo e isso, ao que tudo indica, é excelente, mas não passa de frases vazias. Na realidade os líderes da igreja perseguem os dissidentes. Se você não concordar com a ordenação de mulheres, você não será ordenado. A margem de manobra é incrivelmente pequena."

Quando Antje Jackelén venceu a eleição e se tornou a primeira arquiepiscopisa da Suécia, estava na hora do próximo impacto. Como lema, ela escolheu "Deus é Grande", "Allahu Akbar" em árabe. Jackelén referia-se a 1 João 03:19-21, que diz :

"E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações; sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que os nossos corações, e conhece todas as coisas."

No entanto, poucos acreditam que a escolha do lema não seja o velho e conhecido flerte, sem rodeios, com os muçulmanos da Suécia. No Islã, "Allahu Akbar" são as primeiras palavras que se ouve quando de cada chamada para a oração, oriunda de cada minarete ao redor do mundo e é o grito que ouvimos recorrentemente associado aos atentados suicidas islâmicos, decapitações de não muçulmanos e ataques terroristas.

O rei, a rainha e a princesa herdeira da Suécia estavam presentes na ordenação arquiepiscopal da Episcopisa Antje Jackelén na Catedral de Uppsala em 15 de junho de 2014. (Imagem: Igreja da Suécia)

A escolha do lema da Arquiepiscopisa Jackelén não é um caso isolado; apenas o mais evidente sinal de que a Igreja da Suécia pode estar caminhando para o "Crislão" -- uma mistura do cristianismo com o Islã. Os sacerdotes suecos ao observarem o fervor religioso dos muçulmanos que vivem na Suécia e que agora tomam parte, entusiasmados, de diversos programas de confraternização entre as religiões. No ano passado, a Episcopisa de Estocolmo Eva Brunne, sugeriu retirar a cruz da Igreja dos Pescadores para que os muçulmanos pudessem lá rezar.

O Gatestone Institute entrou em contato com seu colaborador mais próximo, o Sacerdote Diocesano Bo Larsson, para saber mais detalhes sobre a proposta.

Gatestone: os cristãos nos países muçulmanos podem esperar o mesmo nas mesquitas?

Bo Larsson: "não, acredito que não. Para os muçulmanos as construções têm uma dignidade especialmente sagrada."

Gatestone: mas não é assim para os suecos?

Bo Larsson: "parece que não. Mas já há muitas mesquitas na Suécia."

Gatestone: Então, por que a necessidade de rezar na Igreja dos Pescadores?

Bo Larsson: "sabe, foi apenas uma sugestão. Muitas pessoas nas redes sociais colocaram na cabeça que isso quer dizer que a Brunne não é mais cristã, mas isto, obviamente, não é verdade."

Gatestone: de modo que nós cristãos devemos respeitar os muçulmanos, ainda que eles não nos respeitem?

Bo Larsson: "acredito que sim. É a minha opinião. Sou padre há 40 anos. Ainda somos a maior igreja da Suécia, de modo que devemos dar oportunidades aos muçulmanos e judeus."

Gatestone: "o senhor está dizendo 'se você não pode vencê-los, junte-se a eles?'"

Bo Larsson: "é uma maneira de ver as coisas."

Gatestone: a Igreja da Suécia é conhecida por sua atitude positiva em relação aos homossexuais. Sua própria episcopisa Eva Brunne, é abertamente gay. Mesmo assim o senhor apoia o Islã que persegue os homossexuais?

Bo Larsson: "é uma pergunta difícil de responder. Mas claro, é terrível que os gays não têm quaisquer direitos nos países muçulmanos e não podem viver abertamente. Terrível."

Gatestone: e mesmo assim você quer apoiar essa religião?

Bo Larsson: "você sabe, também há cristãos que são contra a homossexualidade."

Gatestone: que querem enforcar os gays?

Bo Larsson: "parece que não. Acho que o senhor está simplificando demais. O que nós queremos na Suécia é ter diálogo com os muçulmanos."

Gatestone: você já conversou sobre homossexualidade com os muçulmanos?

Bo Larsson: "não."

Gatestone: o senhor se considera capaz de transformar o Islã da Suécia em uma religião tolerante, de mente aberta?

Bo Larsson: "há cristãos fundamentalistas nos Estados Unidos que não aceitam os homossexuais."

Gatestone: mas você acredita que há uma diferença entre não aceitar e querer matar?

Bo Larsson: "eu nunca ouvi um muçulmano dizer que ele quer matar homossexuais."

O "Crislão" foi ao extremo no subúrbio de Fisksätra em Estocolmo, onde predominam os imigrantes; são 8.000 pessoas, falando 100 idiomas diferentes. Naquele subúrbio a Igreja da Suécia começou a arrecadar fundos com o objetivo de construir uma mesquita -- um programa intitulado "Casa de Deus" -- adjacente a uma igreja. O programa é descrito em seu Websiteoficial da seguinte maneira:

"A Casa de Deus representa o desejo de paz e trabalho duro no espírito da paz. Estamos construindo uma mesquita ao lado da igreja em Fisksätra. Entre a Igreja e a mesquita será construída uma praça interior comum com livre acesso, do tipo jardim de inverno. A Casa de Deus é singular, um exemplo da cooperação e do diálogo religioso, tão importantes nos dias de hoje. Junte-se a nós!"

O Gatestone entrou em contato com Henrik Larsson, padre e um dos fundadores do programa Casa de Deus. Ele nos assegurou que o Islã é pacífico e democrático, mas as suas respostas seguintes indicaram que ele pode não estar tão maravilhado por esta religião, apesar de tudo.

"Nós cristãos também fizemos coisas horríveis ao longo dos séculos," salientou ele. "Queimamos bruxas, colonizamos outros países e nos aliamos a vários exércitos ao longo da nossa história. Penso que todas as religiões podem ser usadas da mesma maneira."

Gatestone: o senhor está dizendo que nós estamos em 2016 e eles ainda estão travados em 1400?

H. Larsson: "se é que é 1400. Eles estão se esforçando em criar uma sociedade como a que existia logo após a morte do Profeta Maomé, isso significa que estamos falando dos anos 600, 700 e 800 a.C. Esse é o ideal deles. Mas também há um Islã a procura de novos caminhos, um Islã Europeu, aqueles que querem ser muçulmanos dentro de uma sociedade democrática e secular."

Gatestone: ao que tudo indica, muitos muçulmanos na Suécia não querem se adaptar à cultura sueca. Basta olhar para todos os estupros e agressões sexuais em piscinas públicas.

H. Larsson: "sim, não é nada fácil para jovens afegãos que foram criados em uma sociedade onde as mulheres têm que se cobrir com um lençol antes de sair de casa; é claro que eles foram condicionados a terem uma atitude para com as mulheres que está a quilômetros de distância da nossa. É óbvio que não se deve permitir que eles ajam dessa maneira, não é de se admirar que haja conflitos. Mas eles precisam aprender a maneira como nós vemos os homens e as mulheres na Suécia."

Henrik Larsson elogia o imã com quem trabalha na "Casa de Deus." Seu nome é Awad Olwan, um palestino que veio para a Suécia nos anos 1960. De acordo com Henrik Larsson, Olwan é o muçulmano moderno, que se tornou imã com a idade mais avançada e aprecia a democracia.

Entretanto, quando o Gatestone entrou em contato com Olwan, para perguntar porque ele apoiava a Frente Popular para a libertação da Palestina (FPLP) nos anos 1970 e porque ele se recusava a condenar o massacre de Munique nos Jogos Olímpicos de 1972, ele primeiramente fez de conta que não sabia o que era a FPLP. A BBC a descreveu como a "junção do nacionalismo árabe com a ideologia marxista-leninista, a FPLP considerava a destruição de Israel como parte integrante da sua luta para acabar com o capitalismo ocidental do Oriente Médio."

Olwan: "ah, bem, sim, naquela época havia um monte de organizações distintas, mas esqueça isso -- isso agora faz parte da história. Significava Libertação da Palestina e mais alguma coisa. Para ser sincero, eu realmente não me lembro."

Gatestone: o senhor se recusou a condenar o ataque contra os atletas judeus na Olimpíada de Munique?

Olwan: "sim, é verdade, mas isso foi nos anos 70! Não me lembro o que eu disse naquela época."

Gatestone: agora a sua postura é outra?

Olwan: "é claro que é. Não foi nada além de assassinato."

Na nossa primeira conversa, Awad Olwan disse ser muito positivo em relação aos judeus. Ele disse que o fato de não haver nenhum judeu na Casa de Deus é porque não há nenhuma congregação judaica em Fisksätra, mas que os organizadores convidaram um coro judaico e estão se dando bem e trabalhando juntos.

Entretanto, no nosso segundo encontro começaram a emergir novas ideias. Ao ser indagado sobre o Alcorão e os hádices, Olwan começou a xingar e dizer que culpa toda era daqueles f** árabes de Meca."

Gatestone: o senhor está dizendo que o problema não é o Islã; que é a interpretação saudita do Islã que deteriora tudo?

Olwan: "exatamente! A religião deles, o (wahabbismo) foi inventado por um imperialista britânico há 200 anos. Não posso dizer mais do que isso, porque senão serei tachado de antissemita e sabe-se lá o que mais".

Gatestone: qual é a verdade em relação aos judeus?

Olwan: "ok, há fontes confiáveis do Egito, que mostram que a família real saudita é na realidade uma família judia que veio do Iraque à Península Arábica ao redor dos anos 1700. Eles montaram um exército com a ajuda de oficiais britânicos que lutavam contra o sultanato otomano. Depois, criaram o exército jordaniano e assim por diante."

Gatestone: o senhor está dizendo que é por isso que os judeus estão tão quietos?

Olwan: "isso mesmo. Eu expus em meu livro que a meta do ISIS/Daesh é desviar o foco do conflito árabe-israelense para o conflito entre sunitas e xiitas -- e conseguiram. Agora, irão apagar do mapa todo o Oriente Médio. Você verá! É terra católica, terra muçulmana e um monte de outras bobagens somente para justificar a existência de um estado judeu".

Gatestone: eu li na Internet que muitos acreditam que o Mossad e os judeus criaram o ISIS.

Olwan: "sim, é uma teoria que tem bom trânsito no Oriente Médio, mas se for dita no Ocidente, lhe dirão que você é um conspirador maluco e que não tem provas do que está dizendo. O negócio é o seguinte: não é possível travar uma guerra contra forças poderosas sem que você receba armas diariamente, é necessário dispor de planejamento e logística. Não estamos lidando com terroristas f** que aprenderam a guerrear na Internet, são pessoas altamente treinadas, altamente qualificadas. Eu vou ter que sair."

Gatestone: o senhor está se referindo aos judeus?

Olwan: "exatamente, exatamente."

Olwan provavelmente é o típico exemplo de um imã que se mostra conciliador e amigável frente aos ingênuos sacerdotes suecos, mas com um pouco de estímulo admite seu ódio aos judeus. Ao que tudo indica, ele também não aprecia muito a postura benevolente da Igreja da Suécia para com os gays.

Desde que a Igreja da Suécia se tornou uma das primeiras comunhões cristãs do mundo a aprovar o casamento gay em 2005, mais e mais sacerdotes saíram do armário. Em 2009, quando Eva Brunne foi nomeada episcopisa de Estocolmo, começaram as fofocas de que a igreja estava sendo dirigida pela "Liga das lésbicas". A Igreja da Suécia participou dos festivais do Orgulho Gay em Estocolmo em diversas ocasiões, fora isso várias igrejas receberam a certificação LGBT. O preço disso tudo é a possibilidade da igreja ser forçada a retirar certas passagens da Bíblia. Ulrika Westerlund Presidente da RFSL (Federação Sueca dos Direitos das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Diferentes), alertou a igreja ressaltando: "há elementos nas escrituras religiosas que estão sendo usados contra as "pessoas" LGBT. Assim sendo temos que acertar se ela realmente quer a certificação, não queremos que aquelas passagens da Bíblia sejam citadas."

O sacerdote Henrik Larsson, vê um problema com os imãs que condenam recorrentemente a homossexualidade como pecado -- um princípio islâmico que provavelmente jamais poderá ser alterado porque foi dito por Alá (Alcorão, 7:80-84.IG). "Temos a esperança que eles atingirão o mesmo patamar que o nosso. Não faz tanto tempo assim que o cristianismo pregava as mesmas coisas."

Gatestone: o senhor tem esperança e acredita que os muçulmanos possam mudar, mesmo que alguns joguem os homossexuais dos telhados, os enforquem e os chicoteiem?

H. Larsson: "tenho, é terrível. Mas acredito que as pessoas são intrinsecamente boas de coração."

Awad Olwan não concorda com Henrik Larsson. Ele acredita que a atitude da Igreja da Suécia frente à homossexualidade é um pecado enorme:

"Eu discordo deles. A homossexualidade não é boa para a moral da sociedade e não é o que Jesus e Moisés defendiam. Seria melhor se toda essa história de homossexualidade na vida pública se tornasse um parêntese."

Enquanto isso, como a Igreja da Suécia está ocupada, elaborando o "Crislão", jamais reconhecerá que no Oriente Médio os cristãos estão sendo mortos e efetivamente erradicados. Em 2015, Eli Göndör, estudioso da religião, assinalou na revista Dagens Samhälle:

"O envolvimento que a Igreja da Suécia demonstrou em relação à vulnerabilidade dos cristãos palestinos, foi substituído pela indiferença para com a limpeza étnica dos cristãos da Síria e do Iraque. Naqueles países, as atrocidades são cometidas na maioria das vezes pelos muçulmanos, sendo evidentemente o bastante para que a Igreja da Suécia se debruce sobre questões ambientais e climáticas."

Para ser justo, em fevereiro de 2016 a Igreja da Suécia fez algo em relação aos cristãos do Oriente Médio -- ela incentivou congregações e indivíduos para que orassem por eles. As palavras Islã e muçulmanos não foram mencionadas no apelo.

O Gatestone entrou em contato com o serviço de informações da Igreja da Suécia para saber se as orações tinham dado algum resultado.

A voz do outro lado da linha respondeu: "não posso responder a esta pergunta". "Você poderia me enviar um e-mail com sua pergunta para que eu peça aos meus colegas que lhe enviem uma resposta?"
Por: Ingrid Carlqvist,uma jornalista e autora radicada na Suécia e Ilustre Colaboradora Sênior do Gatestone Institute.Original em inglês: The Imam Celebrated by the Church of Sweden: "The Jews are Behind the Islamic State!"
Tradução: Joseph Skilnik 


A DUPLA CRISE ECONÔMICA E COMO SAÍMOS DELA


Tenho feito algumas palestras a respeito da crise atual onde tento explicar como chegamos a uma situação tão grave. Minha primeira tarefa é convencer a audiência que vivemos de fato uma crise grave com potencial para ser a mais grave de nossa história. Não sou o único que pensa assim, de fato o próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que a crise atual pode ser mais grave que a da década de 30 do século passado, um período em que o mundo passava pela Grande Depressão. O leitor ainda cético pode se interessar pela figura abaixo, nela estão as taxas de crescimento do PIB desde 1901, repare que apenas duas vezes tivemos dois anos seguidos de queda do PIB, a primeira foi em 1930/31 e a segunda será 2015/16. Para piorar repare que em 1929 o PIB cresceu 1,1% enquanto em 2014 o PIB cresceu 0,1%, não fosse uma mudança no método de cálculo do PIB teríamos tido crescimento negativo também em 2014, no que seria a primeira vez de nossa história com três anos seguidos de queda no PIB.
Dados do Ipea de 1901 a 2013, para 2014 e 2015 usei dados do IBGE, para 2016 usei a projeção do Boletim Focus do BC

Como um país que em 2010 cresceu 7,5% e parecia ser um dos motores do crescimento mundial entrou em uma crise tão grande em menos de cinco anos? Esta é a pergunta que tento responder em minhas apresentações e que não é uma questão apenas acadêmica. O diagnóstico para a crise atual fornece a estratégia para superar a crise, um diagnóstico errado leva a “soluções erradas” que podem prolongar e/ou aprofundar a crise. Para entender o que aconteceu com nossa economia é preciso considerar que não vivemos apenas uma crise, são duas crises, não estou falando de uma crise política e uma crise econômica, estou falando de duas crises econômicas. Repare que não nego a existência de uma crise política, apenas registro que além de quaisquer outras crises (política, moral, de valores, institucional, dentre outras) que possam existir temos duas crises econômicas. A primeira é de médio e longo prazo e está na nossa baixa produtividade, na baixa taxa de crescimento da produtividade e baixa taxa de investimento. A segunda, de curto prazo, está caraterizada no desequilíbrio fiscal e na necessidade de controlar a inflação.

A crise de longo prazo e está associada a estrutura da economia e da sociedade brasileira. Para que a entendamos devemos considerar que para uma economia crescer é necessário que as pessoas trabalhem mais, e/ou que as empresas acumulem mais capital, e/ou que o capital e o trabalho existentes sejam usados de formas mais eficientes. Um dos resultados fundamentais da teoria do crescimento econômico é que no longo prazo o crescimento é explicado em sua maior parte pelo aumento da eficiência no uso do capital e/ou do trabalho, ou seja, pelo aumento da produtividade. Não vivemos melhor que nossos avós porque trabalhamos mais ou porque temos mais capital, vivemos melhor porque somos mais eficientes. A eficiência a que me refiro aqui não é necessariamente decorrente de novas tecnologias, longe disso, falo de qualquer coisa que permita obter mais produto com as mesmas quantidades de capital e trabalho. Como dizem alguns chefs modernos: menos é mais.

Pois bem, a produtividade da economia brasileira está estagnada a quase quarenta anos. Apresentei esse resultado em um artigo publicado na Revista Estudos Econômicos em parceira com Pedro Ferreira e Victor Gomes, em um capítulo de livro publicado pelo IPEA e em um outro artigo a ser publicado pela Revista de Economia Aplicada. Nos trabalhos uso metodologias diferentes para calcular produtividade e sempre chego ao resultado de quase estagnação. Outros autores chegaram ao mesmo resultado usando outras metodologias, uma boa coletânea de estudos sobre produtividade está no livro do IPEA que acabei de citar. A figura abaixo resume o que estou dizendo, note que nossa produtividade cresce bem menos que a dos EUA e a da Coreia do Sul, um país que já era rico e, por ser a economia líder, precisa de inovar para ficar mais produtivo e um país que é um exemplo de crescimento no período.
O leitor desconfiado pode questionar a escolha de países ou a medida de produtividade (feita a partir de dados da Penn World Table). Para acalmar o leitor ofereço uma comparação de nossa produtividade com a de vários outros países. No lugar da produtividade total dos fatores que utilizei na figura acima vou usar a produtividade do trabalho, um conceito simples que mede o quanto é produzido por um trabalhador em um determinado período. No lugar de comparar com um milagre de crescimento com a economia líder, comparo com quatro grupos distintos: países da América Latina, OCDE, países com PIB per capita próximo ao nosso e países com relação capital trabalho próximas a nossa. A figura abaixo mostras as comparações comparando com os países da América Latina ficamos em antepenúltimo, com os da OCDE ficamos em último, com os de PIB per capita próximos ao nosso ficamos em antepenúltimo e com os de relação capital trabalho próximas a nossa ficamos em penúltimo. Se nem assim o leitor está convencido que temos um problema de produtividade peço que leia um dos textos citados acima, se ainda não ficar convencido ou se não quiser ler os textos talvez seja o caso de parar por aqui e aceitar meus pedidos de desculpas pelo tempo que o fiz perder.

Lá por 2010 falar que tínhamos um problema de produtividade era aceitar um convite para ser chamado de doido, ou, se o crítico era um amigo, de um sujeito estranho. A economia crescia, o investimento crescia, o consumo crescia, a pobreza e a desigualdade diminuíam; só um sujeito muito chato podia falar que tínhamos problemas, ainda mais que tínhamos problemas graves. Hoje não é mais assim, vários economistas, inclusive os que reclamavam dos chatos, reconhecem que temos um problema de produtividade. Infelizmente esse (quase) consenso em torno da existência do problema não resolveu a questão, pelo contrário, criou uma oura questão sobre como resolver o problema da produtividade. Grosso modo podemos falar de duas estratégias para resolver nosso problema de longo prazo: a estratégia reformista e a estratégia desenvolvimentista.

A estratégia reformista foca em melhora no ambiente de negócios, na educação, reformas na legislação que tornem as instituições mais eficientes (e.g. redução da insegurança jurídica e do compadrio), abertura da economia e estabilidade macroeconômica (equilíbrio fiscal e controle da inflação). De uma forma rápida podemos dizer que os reformistas querem facilitar a criação e o crescimento das empresas, porém sem direcionar o processo. Deixe a terra fértil e, cedo ou trade, as pessoas saberão o que plantar. A estratégia desenvolvimentista busca direcionar a economia para o setor que seria o polo dinâmico da tecnologia e do crescimento da produtividade, tal setor a indústria. Para isso o governo direciona o investimento por meio de juros subsidiados, protege a indústria local por meio de tarifas e/ou políticas de desvalorização do câmbio, faz desoneração tributária de setores que considera importante, intervém em preços críticos como juros e energia e etc. Diga o que plantar que mesmo uma terra pouco fértil vai prosperar.

Note que as duas estratégias não são totalmente exclusivas, por exemplo, existem desenvolvimentistas que valorizam a estabilidade macroeconômica e existem reformistas que defendem juros subsidiados para setores estratégicos ou intervenção no câmbio. Porém, mesmo não sendo totalmente incompatíveis, as estratégias definem linhas e atuação diferentes que se refletem em um conjunto de políticas diferentes.

Pelo menos desde o pós-guerra o Brasil apostou na estratégia desenvolvimentista (tenha em mente que isso não exclui toda e qualquer medida reformista), o aparente sucesso da estratégia a tornou quase uma unanimidade. De radicais de esquerda que viam no desenvolvimentismo o caminho para criar a classe operária que faria e revolução a grandes empresários mirando nos ganhos propiciado pelo capitalismo de compadres, passando por tecnocratas encantados com o poder adquirido e políticos corruptos de olho nos ganhos de estado grande, todos tinham motivos para apoiar as políticas desenvolvimentistas. A crise da década de 1980, combinando recessão com inflação descontrolada, acabou com o encanto desenvolvimentista. Na década de 1990 o Brasil (o fenômeno foi observado em outros países da América Latina) apostou em uma agenda reformista. Apesar de acabar com estagnação de mais de uma década, controlar a inflação e testemunhar a queda na pobreza e na desigualdade a estratégia reformista foi abandonada na primeira década do século XXI. Como costuma ser o caso é praticamente impossível dizer exatamente quando a estratégia foi abandonada. Vou considerar que foi em 2006, mas se o leitor acredita que foi um pouco antes ou u pouco depois eu não tenho nada a reclamar.

A volta do desenvolvimentismo ocorreu em duas etapas. A primeira, um período de transição, ocorreu entre 2006 e 2010 e foi caracterizada pelo PAC, com o governo induzido o crescimento, com o reforço do BNDES, com o governo financiando o investimento, e com a política de conteúdo nacional, particularmente na extração de petróleo. A segunda fase, a época da Nova Matriz, mantém e/ou amplia as políticas da fase de transição de acrescenta a tentativa reduzir juros para estimular investimento, desvalorizar o câmbio para estimular a indústria, política fiscal anticíclica, controle de preços para estimular a economia (e.g. energia) ou para combater a inflação (e.g. combustíveis). A confiança nas novas políticas, que podemos chamar de contrarreformas, era tão grande que a presidente Dilma tomou posse em 2011 prometendo ser a presidente do PIBão.

Deu tudo errado. A despeito do BNDES ter se tornado o segundo maior banco de investimento do mundo, superando o Banco Mundial e só perdendo para o Banco de Desenvolvimento da China, a taxa de investimento do Brasil não disparou, pelo contrário, andou bem perto da de outros países do continente que não possuem um BNDES e depois despencou. A figura abaixo mostra como os mais de R$ 200 bilhões por ano desembolsados pelo BNDES parece ter sumido. Antes que alguém fale de corrupção eu aviso que não é isso, ou não é só isso, muito provavelmente os empresários que pegaram dinheiro no BNDES estavam dispostos a investir mesmo sem ajuda do banco, porém se podem pegar dinheiro a juros mais baixos não tinham porque não pegar, ou seja, houve uma substituição da fonte de financiamento do investimento, por isso nosso investimento não destoa do de outros países (mais detalhes aqui). Se não tiveram efeito aparente sobre o investimento os empréstimos do BNDES tiveram efeito sobre a consta do governo, parte da nossa crise fiscal está nos gastos do Tesouro para custear a diferença entre os juros que o governo paga e os juros que o governo empresta, a diferença, por vezes chamada de bolsa empresário é bem maior que a bolsa família.
A estratégia de câmbio também não deu resultado, pior, ao abandonar o regime de câmbio flexível o governo passou a pagar os custos de administrar o câmbio. Primeiro a intenção era desvalorizar, depois, assustados com a inflação, o esforço era para não ocorrer uma desvalorização brusca, que além de aumentar a inflação poderia complicar a vida de bancos e de algumas empresas como uma certa campeã nacional. A tentativa de baixar juros na marra também não funcionou, assim como no câmbio o governo foi obrigado e recuar deixando estragos sem benefícios. O mesmo pode ser dito da desastrada intervenção no setor de energia, no lugar da prometida queda nos preços uma série de aumentos de preços para evitar o colapso do sistema. A figura abaixo mostra um retrato do fracasso da tentativa de estimular a indústria, a participação da produção da indústria continuou caindo (os dados do ipeadata vão até 2013, mas, para os mais esperançosos, aviso que a queda continuou em 2014 e 2015) apesar de todo o esforço do governo. Mais uma vez a política desenvolvimentista não cumpriu o que prometeu, mas deixou custos que colaboraram para a crise fiscal que vivemos.

Eu não vejo a queda da participação da indústria de transformação no PIB como um problema, de fato, em tempos modernos é muito difícil separar a indústria do setor de serviços e mais difícil ainda localizar um ou outro como polo dinâmico tecnológico, seja lá o que for isso. Não são poucas as indústrias com modelos de negócios onde o lucro vem mais de serviços de manutenção do que da venda de equipamentos, não sei porque isso é um problema. De toda forma vários economistas desenvolvimentistas tem uma devoção a esta variável ainda maior pela que têm ao câmbio. Foi em nome desta variável que muitas das políticas que não deram resultados, mas deixaram uma conta salgada, foram implementadas. Aqui existe uma grande ironia que não resisto à tentação de registrar. O México apostou em uma estratégia de integração econômica com os EUA, não faltaram economistas desenvolvimentistas decretando o fim da indústria de transformação mexicana. A figura abaixo mostra o tamanho do erro, olhando a figura acima e a figura abaixo creio que nossos industriais têm todos os motivos para pedir a Deus que os protejam dos que os querem defender. Em tempo, antes de vir com conversa de maquiladoras lembre de como nosso governo comemorou a vinda da Foxconn para o Brasil e dê uma outra olhada no México para ver o que mudou por lá nos últimos dez anos.

Como todo brasileiro sabe a agenda desenvolvimentista que inspirou a Nova Matriz fracassou em entregar o crescimento prometido (claro que nem todo desenvolvimentista apoiou tudo da agenda, etc, etc, e etc, mas é impossível negar de onde veio a inspiração das contrarreformas), porém o fracasso não nos dispensou de pagar a conta que chegou na forma de uma crise fiscal e de uma inflação alta. Antes de gritar que nossa dívida é baixa comparada à do Japão ou a de outros países ricos tente encontrar um país em desenvolvimento que esteja confortável com uma dívida maior que 70% do PIB (mais sobre o assunto aqui), a figura abaixo pode te ajudar. A combinação da crise no rastro da Nova Matriz e nossa estagnação da produtividade causou a crise gigantesca em que estamos.

Negar as causas internas e responsabilizar o resto do mundo por nossa crise é uma atitude infantil, se o leitor dúvida basta olhar o que está acontecendo no resto do mundo. A figura abaixo mostra as projeções de crescimento feitas pelo FMI para todos os países do mundo (uma versão de 2015 da figura está aqui). A grande maioria dos países vai crescer este ano, dos que vão encolher, apenas cinco países devem encolher mais que o Brasil: Equador, Macau (não é exatamente um país, mas está na base do FMI), Guiné Equatorial, Sudão do Sul e Venezuela; uma busca rápida por cada um dos países na internet mostra ditaduras (Venezuela, Equador e Guiné Equatorial, os dois primeiros fazem parte do time dos bolivarianos) e guerra civil (Sudão do Sul). Os números são claros: a crise é nossa.

Sendo a crise o resultado da soma duas crises serão necessárias duas categorias de medidas para que saiamos da crise. O primeiro conjunto de medidas deve focar no longo prazo. Falo de reformas que melhorem o ambiente de negócios com simplificação e redução de regulação e processos burocráticos, inclusive com aumento da transparência e eficiência da justiça; de uma reforma completa na educação desde o financiamento até a organização didático- pedagógica de nossas escolas, sim, esta reforma vai enfurecer os sindicatos, inclusive o meu; reforma na saúde focando financiamento e procurando métodos mais eficientes de gestão hospitalar bem como priorizando a saúde preventiva e uma reforma da previdência que amorteça os efeitos das mudanças demográficas. O segundo conjunto de medidas deve consistir em um ajuste fiscal e a retomada do controle da inflação e da credibilidade do Banco Central. O ajuste fiscal deve romper com a estratégia de elevar a carga tributária, é preciso repensar toda a estrutura do gasto público, devemos trocar o “dá bilhão?” pelo “é realmente necessário?” quando da avaliação do gasto público. O controle da inflação vai exigir que o BC pare de apelar para sorte ou tentar terceirizar o trabalho dele e assumir as rédeas da política monetária, se for o caso de ter de aumentar ainda mais a taxa de juros, que seja. Não fazer agora significa um aumento ainda maior da taxa de juros em um futuro onde se deseje controlar a inflação. Sim, estou propondo a volta da agenda reformista!
Por Roberto Ellery, publicado pelo Instituto Liberal Do site: http://www.institutoliberal.org.br/