sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A EDUCAÇÃO ESTATAL - E COMO ELA SERIA EM UM LIVRE MERCADO

N. do T.: o artigo a seguir foi adaptado para a realidade brasileira


O-ministro-da-Educação Aloízio Mercadante

Eis o burocrata responsável pela educação dos seus filhos

De todos os passos que foram dados rumo ao caminho da servidão, qual foi o pior?

Em minha opinião, foi o de permitir que o estado educasse nossos filhos, seja diretamente por meio de escolas públicas, seja indiretamente por meio de escolas privadas reguladas integralmente pelo Ministério da Educação.

Dado que a educação que nossos filhos recebem é toda controlada por funcionários públicos, que operam dentro das normas estabelecidas por um sistema estatal, não é surpresa nenhuma que nossos filhos cresçam acreditando que:

— o estado é um árbitro justo, imparcial, amoroso e caritativo, ao contrário de empreendedores privados, que agem somente em interesse próprio;

— programas governamentais realmente entregam aquilo que prometem e, sem eles, as pessoas estariam em situação muito pior;

— sem a saúde e a educação públicas, e sem programas de assistência social do governo, todos morreríamos doentes ainda muito jovens, seríamos analfabetos e as ruas estariam repletas de pessoas passando fome; e

— o estado é o país, e é nosso dever patriótico apoiar toda e qualquer política idiota que o governo decida implementar.

A educação é um desastre. Se você não acredita em mim, pergunte aos próprios políticos. Todo ano de eleição eles aparecem para nos contar como a educação está terrível — crianças que não conseguem ler em idade já avançada, violência nas salas de aula, professores incapacitados e mal pagos, infraestrutura precária e aos pedaços, drogas sendo vendidas dentro das escolas, salas de aula com excesso de alunos etc.

É claro que todos os políticos têm na ponta da língua soluções que irão sanar todos estes problemas. Porém, mesmo depois de eleitos, e de implementarem suas soluções, eles sempre voltam nas eleições seguintes dizendo como a situação da educação continua terrível.

A política e as escolas públicas

A primeira coisa que precisa ser entendida a respeito das escolas públicas é que elas não são instituições educacionais. Elas são agências políticas — logo, são controladas pelo grupo que tenha mais influência política. E isto exclui você e eu.

Não é de se estranhar, portanto, que suas políticas de ensino e de funcionamento sejam ditadas pelos sindicatos dos professores e dos funcionários, bem como pelas fantasias utópicas das universidades nas quais esses professores se formaram. Não existe um sistema de recompensas ou de incentivos para inovações. Mesmo os professores mais bem intencionados não têm oportunidades para utilizar métodos originais, lógicos e sensatos para resolver problemas rotineiros. Não há nenhuma chance de se recompensar aqueles que demonstram um desempenho superior. É a burocracia quem comanda tudo, e a ela todos devem ser submissos.

Para piorar, as escolas públicas acabam ensinando muitas coisas que iriam deixar os pais apavorados — isto se os pais soubessem exatamente o que se passa nas escolas. Orientação sexual e "kit-gay" são apenas a ponta do iceberg. Os alunos são ensinados a atormentar seus pais para que eles reciclem lixo, para que fechem a torneira do chuveiro enquanto estiverem se ensaboando durante o banho, e para que adotem inúmeros outros rituais da nova religião ambientalista. Literatura clássica quase nunca é mencionada. Quando o é, é apenas para mostrar como as pessoas já foram ignorantes e insensíveis, e não para mostrar aos alunos a complexidade da vida e a riqueza do idioma.

Tempo e recursos parece haver de sobra para ensinar as crianças a se conformarem com a ideologia e o pensamento politicamente correto da moda. Porém, se os pais reclamam que seus filhos não estão aprendendo ciências, português, história e matemática, os políticos respondem que está faltando dinheiro, os professores respondem que são mal pagos e vários "agentes sociais" dizem que a nova metodologia de ensino, com maior ênfase na 'consciência social do aluno', é bastante superior ao velho e reacionário método clássico de educação. E, no final, todos se unem para concluir que o grande problema realmente é o governo, que destina pouco dinheiro para a educação — logo, novos impostos são necessários.

A questão é: teria como as coisas realmente serem diferentes? Nesse atual arranjo, sem estarem submetidos a uma pressão competitiva, sem estarem sujeitos à concorrência, as pessoas que realmente estão no controle das escolas públicas — os burocratas sindicalizados — estão livres para saciar seus desejos mais indômitos de doutrinar as crianças para que elas sejam cidadãos exemplares da Nova Ordem. Em um sistema como este, os bons professores não têm a menor chance — nem o estímulo — de fazer a diferença.

Público vs. Privado

O problema não são professores despreparados. O problema não é a falta de recursos ou a falta de participação dos pais.

O problema é que as escolas são administradas pelo governo.

Podemos ver isso claramente ao comparar a educação pública com a indústria de computadores — um dos ramos menos regulados em todo o mundo.

— A educação está sob o comando de políticos e burocratas, gente que jamais irá enfrentar pessoalmente as consequências de suas próprias medidas, por mais que arruínem a educação de nossos filhos. E assim, os custos da educação vão ficando cada vez maiores, ano após ano, ao mesmo tempo em que a qualidade e a utilidade decrescem velozmente.

— A produção de computadores, notebooks e afins está sob o comando de empreendedores, pessoas que visam ao lucro e que, por isso mesmo, têm de estar sempre encontrando novas maneiras de nos satisfazer, produzindo cada vez mais com cada vez menos — caso contrário, perderão o que investiram e irão à falência. E assim, computadores, notebooks e demais apetrechos tecnológicos vão ficando cada vez mais baratos, ano após ano (ou mês após mês), ao mesmo tempo em que sua qualidade e utilidade aumentam velozmente.

Ao contrário das empresas de tecnologia, as escolas públicas são organizações monopolistas isoladas da concorrência — e inteiramente sustentadas pela coerção do governo. Um sistema de vouchers para as escolas privadas, nos moldes defendidos por alguns liberais genuínos, não tornaria as escolas públicas mais competitivas simplesmente porque as escolas do governo não precisam competir. (Em nível universitário, já temos os exemplos práticos do ProUni e do Fies, que nada mais é do que uma variância desse esquema de vouchers. O único resultado foi piorar a educação das universidades particulares que recebem esse subsídio, pois agora elas não mais têm de competir por novos alunos; o governo já garante a receita.)

Não importa quantos alunos as escolas públicas percam para as escolas privadas e para aqueles heróis que, à revelia do governo, praticam ensino doméstico; o fato é que as escolas públicas ainda obtêm seus recursos por meio da força — e quanto maiores os seus fracassos, mais eles são utilizados como desculpa para se exigir ainda mais recursos.

Dado que o governo possui livre acesso a um recurso que empresas privadas não têm — o dinheiro dos pagadores de impostos —, ele consegue oferecer seus serviços "gratuitamente". Eles não são realmente gratuitos, é claro; no contexto estatal, "gratuito" significa que todas as pessoas pagam pelo serviço, queiram elas ou não.

Infelizmente, isso que irei dizer agora não é compreendido por todos, mas enquanto o governo puder tributar os cidadãos para lhes fornecer serviços educacionais a preço marginal zero, todo um serviço educacional privado que poderia existir jamais é criado. Não deixa de ser irônico constatar essa contradição: ao mesmo tempo em que o governo vigilantemente pune empresas que praticam "concorrência predatória" (leia-se: fornecem produtos e serviços a preços baixos), ele próprio incorre nessa prática — só que de maneira totalmente coerciva, pois o faz com o dinheiro que confisca da população — no serviço educacional.

Inversão de papéis

Suponhamos que o governo tenha estatizado a indústria de computadores tão logo ela surgiu (tudo para o "bem do povo", claro). Não é difícil imaginarmos como ela seria hoje:

— Um computador pessoal custaria alguns milhões de reais e seria maior que uma casa;

— Ele provavelmente seria capaz de realizar operações de soma e subtração, porém os funcionários públicos iriam nos explicar por que é cientificamente impossível uma máquina destas realizar multiplicações e divisões;

— O custo de um computador subiria continuamente, e cada modelo novo seria pior e mais caro que o do ano anterior;

— Haveria grupos de interesse organizados tentando fazer com que o governo produzisse computadores com DOS, e outros grupos exigindo interface gráfica. Haveria intensos debates sobre se os computadores fornecidos pelo governo deveriam poder acessar sites religiosos ou não.

O lado positivo seria que todos os computadores viriam com um software que ensinaria às crianças como manusear uma camisinha.

Por outro lado...

Agora vamos supor o contrário, que a educação fosse organizada de acordo com a indústria de computadores — formada por empresas privadas concorrendo em um mercado sem barreiras à entrada, livres de todos os tipos de regulamentações, que não estivessem sujeitas a matérias obrigatórias ou a comissões políticas. Em suma, por empresas que simplesmente tivessem de competir pela preferência dos pais.

Como as escolas seriam? Parece-me óbvio que:

— O custo da educação cairia ano após ano, com as empresas encontrando maneiras de fornecer educação de qualidade a custos cada vez menores. E todo o dinheiro que você gasta hoje para pagar pelas escolas públicas por meio de impostos ficaria integralmente com você, para gastar como achar melhor.

— A concorrência faria com que as escolas tivessem de melhorar ano após ano. Não dá para fazer previsões, mas é bem possível que as crianças precisassem passar apenas 3 horas por dia na escola para receber uma educação muito superior do que a obtida hoje nas escolas controladas pelo governo.

— As escolas seriam tão mais estimulantes, que as crianças poderiam perfeitamente querer passar várias horas por dia explorando o mundo da matemática, da história, da geografia, da literatura, da redação ou de qualquer outro tema que tenha despertado sua imaginação.

— Dado que não haveria nenhum Ministério da Educação impondo um determinado tipo de currículo para todo o país, não veríamos mais as brigas amargas sobre os conteúdos ministrados, sobre a necessidade ou não de se ensinar religião, "sensibilidade social" e educação sexual; não haveria problemas com a imposição estatal de "kit-gay" ou com a aceitação ou não de professores homossexuais. Se uma escola quisesse se especializar exclusivamente em esportes, por exemplo, caberia aos pais decidir se querem ou não que seus filhos estudem ali. A liberdade definiria as escolhas. Não mais haveria as centenas de controvérsias que vemos na educação atual, completamente controlada pelos burocratas do Ministério da Educação. Se você não gosta do que a escola do seu filho está ensinando, você simplesmente vai atrás de outra melhor — do mesmo jeito que vai atrás de um supermercado que tenha o que você quer.

— Haveria dezenas de opções disponíveis para você — escolas mais severas, escolas com disciplinas especiais, como música e cinema, escolas alternativas e até mesmo escolas que ofereçam um ensino completo sobre o funcionamento do livre mercado e do empreendedorismo, o que iria ajudar seu filho a obter uma vida mais confortável quando crescesse, além de poupar seu cérebro de infecções marxistas. Algumas escolas poderiam perfeitamente criar um currículo personalizado baseando-se em suas expectativas e nas capacidades de seu filho, ao passo que outras ofereceriam uma educação mais simples a um custo menor para aqueles que precisam economizar.

Temos de agradecer aos céus pelo fato de que nossos computadores e demais aparelhos eletrônicos não são fornecidos pelo estado. Mas também nunca podemos nos esquecer de como a educação poderia ser muito melhor, mais dinâmica e estimulante, se ela fosse tão livre do estado quanto é a indústria tecnológica.

Não há nada de específico na educação que nos faça duvidar de que o mercado poderia fornecê-la. Assim como qualquer produto ou serviço, a educação é uma combinação de terra, trabalho e capital direcionados a um objetivo claro: a instrução de assuntos acadêmicos e relacionados, os quais são demandados por uma classe de consumidores, majoritariamente pais.

O argumento de que uma educação de alta qualidade seria intrinsecamente cara para uma fatia significativa da população não se sustenta. Um livre mercado que consegue saturar a sociedade com telefones celulares, geladeiras, fornos microondas, televisões da alta definição, computadores, tablets e máquinas de lavar certamente pode produzir educação de alta qualidade para as massas. O segredo é a liberdade de empreendimento.

Imagine um mundo em que os impostos para a educação deixassem de existir, em que a liberdade conduzisse a educação de seus filhos e você pudesse escolher uma escola para eles da mesma maneira que escolhe qual artefato eletrônico quer comprar.

Isso é querer demais?
Por: Harry Browne , o falecido autor de Por que o Governo Não Funciona e de vários outros livros, foi candidato à presidência dos EUA pelo Partido Libertário nas eleições de 1996 e 2000.
Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque Do site: http://www.mises.org.br

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

10 COISAS QUE VOCÊ NÃO SABIA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE PT E PSDB


10 FATOS ABSOLUTAMENTE DEPRIMENTES SOBRE A POLÍTICA BRASILEIRA

10 COISAS QUE APRENDI COM OS PETISTAS NA INTERNET


PT e PSDB são os irmãos Karamazov da política nacional. Nas últimas décadas, ambos os partidos travaram duelos apaixonados e transformaram o debate público brasileiro num imenso caldeirão, um Fla-Flu. De um lado os azuis, do outro os vermelhos. De um lado o tucano, do outro a estrela. De um lado o professor, do outro o operário.

O que poucas pessoas sabem é que há mais coisas em comum entre oPartido dos Trabalhadores e o Partido da Social Democracia Brasileira do que julga nossa vã filosofia. PT e PSDB nasceram no mesmo lugar, no coração da esquerda paulistana, com concepções políticas e econômicas muito parecidas, e com duas figuras históricas – Lula e Fernando Henrique Cardoso – que não teriam ascendido sem o outro. E tudo isso nunca foi negado por seus criadores. Pelo contrário.


“Nós estamos que nem dois jogadores de futebol, somos amigos, somos até irmãos e estamos jogando em times diferentes”, já disseLula sobre a relação entre os partidos.

“Nossas diferenças com o PT são muito mais em relação à disputa de poder do que sobre ideologia”, já assumiu Fernando Henrique Cardoso.

De fato, é muito difícil desassociar a história de ambos. O sociólogo francês Alain Touraine, de esquerda, ex-professor e amigo pessoal de Fernando Henrique, chegou a afirmar que o futuro do Brasil seria a união dos partidos. Em 2004, Touraine disse que os governos de FHC e Lula faziam parte de um mesmo projeto. E tal cenário é assumido por seu pupilo. Para FHC, há uma massa política atrasada no país e a polarização entre PT e PSDB serve para tirá-lo desse atraso.


“Os dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo, nós disputamos quem é que comanda o atraso”,disse.

Aqui, 10 coisas que você não sabia sobre a relação entre os dois partidos que mais pediram o seu voto nos últimos tempos.
1) LULA JÁ GARANTIU ELEIÇÃO PARA FERNANDO HENRIQUE CARDOSO. E LOGO NA ESTREIA DOS DOIS NA POLÍTICA PARTIDÁRIA.


Foi em 1978.

Fernando Henrique Cardoso era o príncipe dos sociólogos, um membro ativo da comunidade acadêmica paulistana que havia deixado a universidade para abraçar a vida pública. Era sua estreia de gala, o candidato de esquerda na corrida ao Senado pelo maior estado do país, a nova aposta do MDB.

Lula era o sapo dos operários, um líder do movimento sindical que tinha “ojeriza” à política partidária. Convencido por alguns amigos, abriu uma exceção para a candidatura do sociólogo do Morumbi. Pediu em troca sua adesão às bandeiras econômicas dos sindicatos, prontamente atendidas. Tal qual FH, era sua primeira vez nas corridas eleitorais. E a meta era clara: somar o máximo de votos possíveis para Fernando Henrique Cardoso.

Como conta o próprio Lula:


“Acontece que em 78, primeiro ano das greves do ABC, o MDB estava lançando sua chapa de senadores. Algumas pessoas, alguns jornalistas cujos nomes não vou dizer, queriam que a gente apoiasse Cláudio Lembo, da Arena. Fui apresentado a Fernando Henrique Cardoso. Aí fomos para a campanha. Fui representar Fernando Henrique Cardoso em vários comícios.”

Lula levou FHC às portas de fábrica e rodou com ele pelo interior do estado. Era o príncipe e o sapo unidos em torno da criação do mesmo reino – a maior figura daquilo que viria a ser o PSDB com a maior figura daquilo que viria a ser o PT. Num palanque do MDB, com artistas e figuras ilustres da esquerda paulistana, o líder operário irritou-se com a festividade. Virou-se para Ulysses Guimarães e esbravejou:


“O trato é que iria pedir votos só para o Fernando Henrique Cardoso. Todo mundo sabe que sou o principal cabo eleitoral do Fernando Henrique Cardoso. Agora querem que eu peça votos também pro Montoro. Eu não vou pedir. Se não me deixarem fazer o que eu quero, eu desço e levo o palanque todo comigo, e vamos fazer o comício em outro lugar.”

Era o início de tudo. Fernando Henrique acabaria eleito primeiro suplente do senador Franco Montoro e, quatro anos depois, quando Montoro virou governador, assumiu a vaga, dando princípio à carreira política que o levaria ao cume do poder nacional. Sem o apoio de Lula em seus primeiros passos, nada disso seria possível.
2) EDUARDO SUPLICY, LULA E FHC JÁ DIVIDIRAM UMA CASA DE PRAIA EM UBATUBA


Na década de setenta, Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa de praia em Picinguaba, Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Em 1976, entre as indas e vindas de sua vida acadêmica dentro e fora do país, deixou o imóvel nas mãos de um amigo de longa data que conhecia desde os tempos de garoto – um sujeito chamado Eduardo Matarazzo Suplicy.


“Em 1976, aluguei uma casa em Paraty e fui conhecer Picinguaba. O Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa lá, que acabou me emprestando por seis meses quando ele foi para a França. O filho da caseira me mostrou um terreno, onde acabei construindo minha casa, dois anos depois”, conta Suplicy. 

Um ano depois, o fundador do PSDB abriria as portas para o fundador do PT e sua esposa – Lula e Marisa – passarem um final de semana no imóvel. Lula ficou extasiado com a paisagem. Só reclamou dos mosquitos.
3) LULA E FERNANDO HENRIQUE CARDOSO QUASE CRIARAM UM PARTIDO POLÍTICO

Fernando Henrique Cardoso no alto, à esquerda, Lula no centro da imagem.

No final da década de 1970, Fernando Henrique e Lula participaram de uma reunião no ABC paulista, com intelectuais e dirigentes sindicais, para discutir o que fazer diante da iminente redemocratização no país. Nesse espaço, discutiram a criação de um partido socialista. Mas a ideia não foi pra frente. Como conta o sociólogo Francisco Weffort, fundador do PT e posteriormente ministro do governo FHC:


“Apesar das muitas afinidades, prevaleceu a divergência. Daquele grupo, uns saíram para criar o PT e outros, anos depois, o PSDB.”

Segundo Eduardo Suplicy, que reuniu Lula e Fernando Henrique diversas vezes em sua casa para discutir o futuro do país e a possível criação de uma nova legenda, ela só não nasceu pelo conflito de liderança entre os dois:


“Cada um avaliava que seria o líder maior da organização que se formasse. Tinham dificuldade de aceitar a liderança um do outro, e ficava muito difícil para ambos ficar no mesmo partido”, conta.

Por muito pouco, PT e PSDB não se tornaram um único partido.
4) OS POLÍTICOS DE PT E PSDB SE CONFUNDEM COM A HISTÓRIA DA ESQUERDA BRASILEIRA


A história dos principais caciques tucanos se confunde com a história dos principais caciques petistas. Juntos, ajudaram a construir a esquerda brasileira.

Fernando Henrique Cardoso sempre foi um estudioso do marxismo, por influência de Florestan Fernandes. Na década de 50, auxiliava a edição da revista “Fundamentos”, do Partido Comunista Brasileiro. Também integrava um grupo de estudos dedicado à leitura e discussão da obra O Capital, de Marx. Em 1981, ao lado de Eduardo Suplicy, ingressou numa lista da Polícia Federal. Era tratado como comunista pela ditadura.

O economista José Serra foi uma das principais lideranças estudantis de seu tempo, presidente da UNE e um dos fundadores da Ação Popular, grupo de esquerda que revelaria os petistas Plínio de Arruda Sampaio e Cristovam Buarque. Serra é amigo pessoal e conviveu por anos no exílio com a economista petista Maria da Conceição Tavares, uma das principais influências intelectuais do Partido dos Trabalhadores e referência particular de Dilma.

O tucano Aloysio Nunes, vice de Aécio Neves na última eleição, foi membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização guerrilheira liderada por Carlos Marighella – era seu motorista e guarda-costa. Aloysio realizou inúmeros assaltos à mão armada em nome da revolução socialista.

Alberto Goldman, ex-governador tucano de São Paulo, teve uma educação marxista. Foi membro do clandestino PCB durante a ditadura.

José Aníbal, uma das figuras mais proeminentes do PSDB paulista, foi amigo de adolescência de Dilma Rousseff, com quem estudava matemática depois das aulas, e seu parceiro na Organização Revolucionária Marxista Política Operária, também conhecida como POLOP. Aníbal foi um dos fundadores do PT, antes de ser presidente do PSDB.

Juntos, eles fundariam os dois partidos políticos mais relevantes do país.
5) NAS ELEIÇÕES DE 1989, O PSDB APOIOU LULA CONTRA COLLOR

Mario Covas, Lula e Brizola.

O recém formado PSDB, criado por dissidentes de esquerda do MDB, lançou o senador Mario Covas candidato à presidência em 1989. Covas alcançou pouco mais de 7 milhões de votos no primeiro turno e terminou a corrida na quarta colocação. O que pouca gente se lembra é que o PSDB apoiou Lula no segundo turno – o PMDB, de Ulysses Guimarães, tentou seguir o mesmo caminho, mas acabou rejeitado pelo Partido dos Trabalhadores. Os tucanos, por outro lado, foram acolhidos. Em almoço com o prefeito de Belo Horizonte eleito pelo PSDB, Pimenta da Veiga, Lulaouviu do tucano:


“Eu tenho também a alegria de saber que, pela primeira vez, aqui se reúnem representantes de todas as forças progressistas do país, nesta tarde, neste almoço. Eu estou certo que isso terá desdobramentos. E acho que deve ser assim, porque o Brasil deseja mudanças em profundidade. E só essas forças progressistas podem fazer essas mudanças.”

Lula perderia a eleição para Collor em poucas semanas.
6) “LULA, VENHA CONHECER A CASA ONDE VOCÊ UM DIA VAI MORAR”


Em 1993, o Brasil passou por um plebiscito sobre a forma e o sistema de governo do país. De um lado, o PT articulava a formação de uma Frente Presidencialista. De outro, o PSDB defendia a implementação do parlamentarismo. Numa conversa informal, Lula e FHC chegaram a conversar sobre um plano em que o operário se tornaria presidente e o sociólogo primeiro-ministro.

Em 1998, como revela numa conversa com o ex-senador petista Cristovam Buarque, FHC recebeu Lula no Palácio do Alvorada e arriscou uma nova previsão.


“Cristovam Buarque: Em novembro de 1998, acompanhei o Lula para visitá-lo. Quando o senhor abriu a porta do apartamento residencial no Alvorada, disse: “Lula, venha conhecer a casa onde você um dia vai morar”. Foi generosidade ou previsão?

Fernando Henrique Cardoso: Não creio que tenha sido uma previsão, mas sempre achei uma possibilidade. E também um gesto de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia: “Temos uma relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o chefe do governo não possa falar com o chefe da oposição”. Era uma época muito difícil para o Brasil. Eu disse lá, não sei se você se lembra: “Algum dia nós podemos ter de estar juntos”. Eu pensava numa crise. E disse ao Lula: “Não quero nada de você. Só conversar. É para você ter realmente essa noção de que num país, você não pode alienar uma força”. Lula conversou comigo no dia da posse. E foi bonita aquela posse… Na hora de ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o elevador. E aí ele grudou o rosto em mim, chorando. E disse: “Você deixa aqui um amigo”. Foi sincero, não é?”

Em 1999, Fernando Henrique relatou o quanto respeitava Lula. Numa conversa com Eduardo Suplicy, revelou que quando Lula aparecia na televisão falando mal dele, simplesmente desligava o aparelho.


“Fico triste, perco até o humor. Para vocês terem uma ideia do quanto eu gosto e admiro o Lula. Você sabe, Eduardo, o que eu fiz com Lula quando ele esteve comigo no Alvorada, mostrei a ele o meu quarto e disse: “Um dia isso aqui vai ser os seus aposentos”. A gente faz isso com adversário, nem com todos os amigos a gente faz isso. Pois eu mostrei a Lula as dependências da residência oficial em que moro. Mostrei o meu quarto.”

Em três anos, Lula viraria presidente. A profecia tucana se cumpriu.
7) FERNANDO HENRIQUE FEZ CAMPANHA SECRETA PARA LULA EM 2002


Nas eleições de 2002, FHC retaliou José Serra, candidato pelo PSDB à sucessão presidencial, por ataques feitos a Lula durante a campanha. Fernando Henrique disse também, em conversas reservadas, que foi um erro o ataque direto ao presidente do PT, o então deputado federal José Dirceu. Dirceu era o petista mais próximo de seu governo e a ordem era que se suspendesse imediatamente as críticas a ele. Seu puxão de orelha foi transmitido ao comando do marketing da campanha de Serra.

Com Lula eleito, FHC iniciou uma campanha secreta em sua defesa. A história é narrada no livro ”18 Dias — Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, escrito por Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e colunista da Folha de São Paulo. Como conta Spektor:


“Lula despachou José Dirceu [que viria a ser o chefe de sua Casa Civil] para os Estados Unidos e acionou grupos de mídia e banqueiros brasileiros que tinham negócios com a família Bush. Disciplinou as mensagens de sua tropa e abriu um canal reservado com a embaixada americana em Brasília. Lula não fez isso sozinho. Operando junto a ele estava o presidente brasileiro em função – Fernando Henrique Cardoso. FHC enviou seu ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, em missão à Casa Branca para avalizar o futuro governo petista. O presidente também instruiu seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, a construir uma mensagem comum junto ao homem forte de Lula, Antonio Palocci.

Eles fizeram uma dobradinha para dialogar com o Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional e Wall Street. Fernando Henrique ainda orientou Rubens Barbosa, seu embaixador nos Estados Unidos, a prestar todo o apoio a Lula.”

Sem esse apoio, Lula certamente não conseguira a estabilidade internacional que teve. Não fosse FHC, sua história teria tomado outros rumos. E a do Brasil também.
8) O HOMEM FORTE DA ECONOMIA DO GOVERNO LULA ERA… UM TUCANO!


No início dos anos 2000, Henrique Meirelles deixou de lado uma vida bem sucedida como executivo do setor financeiro para candidatar-se a deputado federal por Goiás. Recebeu 183 mil votos e se tornou o deputado mais votado do estado. Seu partido era o PSDB. Com o sucesso eleitoral e o respeito do mercado financeiro, foi convidado por Lula para ser o primeiro presidente do Banco Central de seu governo, cargo que ocuparia por longos 7 anos. Meirelles ainda receberia as bençãos de FHC, antes de se desfiliar do PSDB e deixar o cargo que havia sido eleito.Lula telefonou para Fernando Henrique para avisar a escolha.

Em 2003, Marcos Lisboa, outro homem forte da economia do primeiro governo Lula, declarou que a equipe econômica do governo Fernando Henrique Cardoso merecia uma “estátua em praça pública” por ter promovido os acordos com os governos estaduais e municipais na negociação da dívida e também por ter criado a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Anos mais tarde, Fernando Henrique revelou comemorar as conquistas do governo Lula.


“Eu também comemoro a melhoria na distribuição de renda. A política dele é a minha”, disse.
9) FERNANDO HENRIQUE CARDOSO EVITOU O IMPEACHMENTDE LULA EM 2005


Durante todo governo Lula, duas figuras construíram uma ponte entre o presidente operário e o ex-presidente sociólogo: os então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Os encontros foram confirmados por ambos – Palocci confirmou que esteve pessoalmente com FHC “pelo menos cinco vezes”; Bastos disse ter conversado pessoalmente com o ex-presidente apenas uma vez, em junho de 2005, mas confirmou que os contatos por telefone eram muito frequentes. Lula sempre soube das conversas e, mais de uma vez, em momentos difíceis, sugeria a Palocci: “Vai conversar com Fernando Henrique”.

Em 2005, no auge do escândalo do Mensalão e com a pressão por impeachment, Lula orientou seus dois homens fortes para pedirem a FHC que aplacasse os ânimos da oposição. O tucano aceitou de prontidão. Na conversa com Thomaz Bastos, FHC concordou que um impeachment de Lula, à época uma ameaça real, “tornaria o país ingovernável”. Fernando Henrique dizia que não queria criar “uma cisão no Brasil”. Os tucanos acataram a ordem e a história do impeachment perdeu força.
10) NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS, PT E PSDB ESTAVAM COLIGADOS EM 999 DISPUTAS DE PREFEITURAS

PT e PSDB são tratados como antagonista no cenário político nacional, mas a verdade é que em pelo menos 999 cidades (o correspondente a 18% das 5.569 cidades brasileiras), os partidos fizeram parte da mesma coligação nas últimas eleições municipais. Só no estado de São Paulo, esse número foi de 54 municípios.

Em Schroeder, Santa Catarina, por exemplo, o prefeito eleito foi o tucano Osvaldo Jurck; seu vice foi o petista Moacir Zamboni. Em 149 casos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as chapas que contaram com o PT foram encabeçadas por candidatos a prefeito pelo PSDB.

Tudo como se fossem feitos um para o outro.
Por: Rodrigo Silva  Do site: http://spotniks.com/10-coisas-que-voce-nao-sabia-sobre-a-relacao-entre-o-pt-e-o-psdb/

terça-feira, 3 de novembro de 2015

DUAS ÉPOCAS

Toda a esfera das atividades “culturais” tornou-se uma farsa subsidiada, um rateio de cargos, benesses, paparicações e verbas estatais entre os “companheiros”


Um dos sinais mais óbvios da autenticidade humana de um movimento político é a sua capacidade de inspirar grandes obras de literatura. Todo movimento revolucionário, no início, tem esse dom, pela simples razão de que há sempre injustiças no mundo e a revolta contra elas é uma tendência natural do coração humano. Os revolucionários apenas se apropriam dela e a utilizam como canal para a conquista do poder. Invariavelmente, tão logo instalados no poder eles multiplicam e reforçam as injustiças em vez de eliminá-las.

Isso não acontece por uma coincidência ou por algum desvio dos ideais revolucionários, mas por efeito incontornável da própria mecânica revolucionária. Quem sobe ao poder em nome de uma sociedade futura, amaldiçoando a sociedade presente na sua totalidade, só se submete ao veredito do futuro e da História, colocando-se portanto acima do julgamento dos vivos. A cristalização do impulso revolucionário numa ditadura totalitária é assim o caminho normal e normativo das revoluções sociais e não uma distorção dos seus propósitos iniciais.

Daí que a literatura de inspiração revolucionária acabe logo cedendo lugar à literatura dos dissidentes, dos prisioneiros de consciência, dos exilados e desiludidos. E invariavelmente a segunda é mais forte e mais inspirada que a primeira, porque não reflete os ideais e slogans de um movimento político, mas a experiência direta dos horrores da revolução consolidada.

Por isso é que, se nos países capitalistas se produz alguma boa literatura comunista, nos países comunistas a única grande literatura que aparece é anticomunista.

Nada do que o comunismo em ascensão produziu na Rússia, nem mesmo A Mãe, de Máximo Gorki, ou O Don Silencioso, de Vladimir Sholokov, pontos altos da literatura soviética, se compara às obras-primas de Joseph Brodsky, Alexander Zinoviev, Alexander Soljenítsin, Ossip e Nadja Mandelstam. 

No caso cubano, a diferença é mais pronunciada ainda. Quem ainda se lembrará de qualquer romance ou poema pró-castrista, se pode ler os livros de Guillermo Cabrera Infante, Severo Sarduy, Reinaldo Arenas e Leonardo Padura? Entre aqueles que não se opuseram frontalmente ao regime, ainda vale a pena ler Alejo Carpentier, que no seu período de burocrata paparicado pela ditadura nunca mais voltou a escrever algo do porte de El Reyno de Este Mundo, de 1949, e José Lezama Lima, Paradiso, de 1966, espancado pela crítica oficial cubana por sua estética “burguesa”.

Na esfera da filosofia e das ciências sociais, a penúria intelectual daquilo que proveio dos países da Cortina de Ferro contrasta de maneira patética com a riqueza e criatividade da produção marxista... nas democracias capitalistas.

Se os movimentos revolucionários inspiram ideias e obras de arte enquanto lutam contra um governo estabelecido, tão logo chegam ao poder dedicam-se com empenho e diligência em secar todas as fontes, em reduzir tudo a um deserto mental mil vezes mais seco e estéril do que qualquer ditadura reacionária jamais logrou instaurar.

No tempo dos militares, a esquerda queixava-se do empobrecimento intelectual do ambiente, ao qual no entanto ela própria, tanto quanto a direita, dava um brilho e um vigor que hoje seriam impensáveis.

Vejam só algumas amostras casuais de livros publicados naquela fase que os esquerdistas, por demagogia ou loucura, descreviam como o fundo do poço cultural.
Por: Olavo de Carvalho Publicado no Diário do Comercio

sábado, 31 de outubro de 2015

SHOWS DE MORTE

Barack Obama lamenta que os ataques mortais com armas sejam hoje uma "rotina" nos Estados Unidos. De fato, impossível discordar.

Leio na imprensa a lista dos grandes atentados solitários que aconteceram no país desde que Obama chegou à Casa Branca e os números arrepiam qualquer um. Do Alabama ao Connecticut; de Nova York ao Arizona; do Texas à Califórnia; de Washington à Virgínia, são dezenas de cadáveres.

E o filme dos massacres, com ligeiras variações, é quase sempre o mesmo: o homicida é um ser "recluso e raivoso", para usar as palavras desta Folha sobre o assassino do Oregon, que começa a cultivar ideias de destruição e martírio.

Um dia, cansado da sua própria marginalidade, ele sai para uma escola, um shopping, uma rua e atinge finalmente a celebridade.

Disse "celebridade"? Disse bem. Os especialistas no assunto podem avançar com as causas habituais para as tragédias. A violência dos filmes. A violência dos videogames. A violência da própria "sociedade capitalista", que adora vencedores e despreza os perdedores.

E depois existem as armas, vendidas sem controle, que são um convite letal para que mentes débeis possam matar com facilidade.

Admito que tudo isso seja verdade, embora estranhe que países armados até aos dentes (como a Suíça, por exemplo) tenham um número diminuto de homicídios. Mas divago.

Porque quando acontece mais um massacre, meu primeiro instinto é ler os testemunhos que os próprios criminosos deixaram para trás.

Todos eles partilham a angústia do anonimato e a busca insana da consagração midiática. Chris Harper-Mercer, 26, o último da lista com 9 mortos na escola técnica de Roseburg, Oregon, é também o último exemplo: como o próprio escreveu, "parece que quanto mais gente você mata, mais você fica no centro das atenções". A fama depende do derramamento de sangue.

No fundo, os psicopatas que matam com regularidade são uma versão extrema dos concorrentes de um "reality show". Não cantam, não dançam, não transam em frente das câmeras. Preferem a destruição e a morte como forma de mostrar ao mundo os seus "talentos".

E todos têm uma certeza: os seus atos serão relembrados e reproduzidos infinitamente pelo labirinto das "redes sociais" –essas catacumbas que o poeta Dante teria retratado como um novo inferno.

As armas matam porque há psicopatas dispostos a usá-las. Mas o circo da morte renova-se continuamente porque a cultura do espectáculo em que vivemos 24 horas sobre 24 horas é o charco fétido que transforma os alienados de ontem em estrelas, hoje.
Por: João Pereira Coutinho Publicado na Folha de SP

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

COMO DESTRUIR UM FILHO

"Violar a lei": será correto usar esse verbo em faculdades de direito? Ou a palavra "violar" pode ser ofensiva para alunas e alunos, despertando em alguns deles memórias traumáticas que devem permanecer nos calabouços da consciência?


O leitor leu o início da coluna e pensa que o autor enlouqueceu nos últimos tempos. Quem me dera. O caso aconteceu mesmo em Harvard: estudantes "desconfortáveis" com o termo pediram aos professores para o evitarem.

A história é relatada na revista "Atlantic Monthly" e os autores, Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, não se limitam às "violações" da lei.

Segundo os próprios, crescem nos Estados Unidos os casos de "microagressões" –palavras, conceitos, meras alusões que põem em risco o "bem-estar emocional" dos alunos. E os alunos têm direito a esse "bem-estar". As universidades devem ser "zonas de conforto" onde nunca se deve escutar aquilo de que não se gosta.

É exatamente por isso que os professores universitários são aconselhados a emitirem avisos prévios antes de ensinarem matérias potencialmente ofensivas.

Um exemplo do artigo: se o assunto é literatura, o professor deve avisar previamente a turma que "misoginia" e "abusos físicos" fazem parte da obra "O Grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald. Caso contrário, uma alma mais sensível pode desmaiar em plena classe e a carreira do professor estará terminada. Pergunta óbvia: como se chegou até aqui?

O artigo culpa os pais dos universitários de hoje, que educaram as suas crianças com uma obsessão pela segurança que não existia em gerações anteriores. É uma excelente hipótese e, por mero acaso, um livro lido recentemente ajuda a entender essa loucura.

Intitula-se "How to Raise an Adult" (como educar um adulto), foi escrito por Julie Lythcott-Haims e a sentença da autora, antiga decana da Universidade de Stanford, é glacial: antigamente, os pais preparavam os filhos para a vida; hoje, os progenitores preferem proteger os filhos da vida –e isso vê-se nas pequenas coisas e nas grandes coisas.

Começa logo na infância, quando o perigo de pedófilos, sequestradores ou marcianos obriga os pais modernos a aprisionarem os filhos em casa. Resultado: a epidemia da obesidade infantil, alimentada por horas de sedentarismo, suplantou em muito os acidentes normais das antigas brincadeiras da infância.

Mas a obsessão securitária dos "pais-helicóptero" (expressão que designa os espécimes nascidos entre 1946 e 1964) não fica na infância. Depois de proteger os filhos nos primeiros anos, é preciso continuar a tratá-los como flores de estufa na escola e até na universidade. Como?

Escolhendo por eles (cursos, amigos, até tempos livres); pensando por eles (com exércitos de explicadores para todas as matérias curriculares); e até vivendo por eles (de preferência, medicando qualquer comportamento "desviante", como a preguiça saudável ou o excesso de energia).

Essa atitude tem um preço e o preço encontra-se na quantidade de alunos que a autora encontrava na universidade literalmente à deriva: insones; deprimidos; ansiosos; incapazes de tomarem uma decisão por medo psicótico de fracassarem.

E, quando a decisão era inevitável, o comportamento era uniforme: um telefonema aos pais para que fossem os pais a decidirem por eles.

Para Julie Lythcott-Haims, a educação "moderna" fez dos "adultos" de hoje seres "existencialmente impotentes". Porque os pais, na ânsia de tudo protegerem e controlarem, alimentaram nos filhos uma mentalidade de vítimas: seres frágeis e amedrontados que simplesmente não sabem como "funcionar" no mundo que existe fora do aquário.

Não será de admirar que, educadas perpetuamente como crianças, as crianças universitárias de hoje vejam "microagressões" em cada frase, curso ou professor. Tudo é ameaça para quem foi constantemente protegido de qualquer ameaça. Um livro. Uma frase. Um conceito. E, claro, um preconceito.

No livro, Julie Lythcott-Haims lamenta que os filhos de hoje não tenham a atitude dos filhos de ontem: uma certa rebelião existencial contra a autoridade dos progenitores, condição primeira para forjarem uma identidade independente. E poderem voar com as próprias asas.

Essas asas não existem. Elas foram destruídas pelo amor sufocante dos pais durante anos e anos de gaiolas douradas. 
Por: João Pereira Coutinho Publicado na Folha de SP

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

EMBORA DEVA SER TOTALMENTE DESCRIMINALIZADA, A MACONHA É REPULSIVA



N. do E.: o IMB sempre foi um inflexível defensor da descriminalização de absolutamente todos os tipos de drogas. No entanto, e por motivos óbvios, a defesa da descriminalização das drogas de maneira nenhuma implica a defesa do uso de drogas, como alguns caluniadores gostam de inferir. O artigo a seguir é um perfeito resumo de nossa posição.


Podem me odiar à vontade, mas irei dizer mesmo assim: a maconha é nojenta.

Fumar maconha é, dentre todos os tipos de fumo, o pior hábito de todos. A coisa fede. O cheiro é muito pior que o de cigarros convencionais. Não dá para ficar em um mesmo ambiente com pessoas fumando maconha.

A maconha também deixa as pessoas abobadas e com um raciocínio lento. Consequentemente, ela destrói encontros sociais ao tornar toda a ocasião menos inteligente. No que mais, é extremamente rude fumar maconha perto de pessoas que, como eu, não toleram o cheiro da coisa e nunca encostariam em um baseado. Especialmente irritante é a tentativa de menosprezar e escarnecer aqueles de nós que têm interesse zero em fumar uma planta que transforma o fumante em um otário.

É por esse motivo que devo me confessar particularmente estupefato ao constatar quão estranhamente badalada e em voga a maconha se tornou.

Quando eu era criança, fumar maconha era considerado um ato depravado e perigoso. Hoje, se você falar isso perto de praticamente qualquer pessoa com menos de 30 anos de idade, ela lhe dará um sermão sobre quão maravilhosa a maconha realmente é.

Os defensores da maconha podem citar todos dados supostamente científicos que quiserem, mas eu sei mais apenas por causa da minha experiência de vida. Eu ainda me lembro de quando a maconha deixou de ser proibida e passou a ser modismo. Eu fazia faculdade no estado da Virginia e morava com outros quatro caras no andar de cima de uma casa. Eles eram absolutamente viciados na planta.

Todas as noites — e eu realmente enfatizo que eram todas as noites —, eles juntavam dezenas de latas de cerveja, ligavam o rádio em uma estação de rock, acendiam seus baseados e fumavam ininterruptamente das 5 da tarde até 1 da manhã. Eles simplesmente ficavam sentados no sofá conversando coisas idiotas em um tom de pseudo-profundidade. Eles falavam sobre o universo, sobre a vida em outros planetas, sobre personagens de desenho animado e por aí vai.

Normalmente, eu jamais teria má vontade para com a maneira que outros voluntariamente escolhem se divertir, mas fazer isso todas as noites? Com o tempo, não consegui conter meu crescente sentimento de desprezo.

Eles continuamente me pressionavam a se juntar a eles. A coisa foi se transformando em alta pressão. Inevitavelmente, acabei cedendo e dei uma tragada seguida de uma inalada. Fiquei instantaneamente nauseado. Assaltei a geladeira e fui para a cama, odiando a mim mesmo. Nunca mais fumei novamente e jamais o farei.

Desde então, nos anos subsequentes, fumar maconha deixou de ser visto como um hábito de derrotados e se transformou em uma cultura universal entre os jovens. Parece haver dezenas de maneira de fumar maconha — enrolada num papel, cachimbo, bongos, comestível etc. Não consigo me manter atualizado. E as variedades de maconha disponíveis surpreendem. Sempre que me oferecem a erva, recebo uma completa apresentação sobre a modalidade em questão, como se estivesse em um restaurante chique participando de uma degustação de vinhos.

As alegações feitas em defesa da substância estão cada vez mais implausíveis. Se você realmente parar para ouvir as pontificações dos usuários, terá a certeza de que a maconha é o caminho mágico para uma vida longa, bem-sucedida e repleta de êxtase. A única porta de entrada que ela oferece é para a felicidade.

Já o que eu vejo é muito mais óbvio. A maconha transforma você em um otário. Há um quê do personagem Salsicha, do desenho Scooby-Doo, em cada fumante: aquele jeito preguiçoso, levemente desmiolado, de andar rastejante e de fala lenta e desconexa, resultantes de se querer utilizar a maconha para anestesiar reações normais às ansiedades da vida.

Provavelmente é verdade que a maconha não seja mortífera, e não estou aqui para conjecturar se ela é prejudicial à saúde. Os perigos da maconha são mais sutis. Seu uso pressupõe que todas as ansiedades desta vida devem ser abolidas, sempre e a cada tragada. Inale a fumaça mágica e exale todos os seus problemas.

Nisso eu não acredito. A mente necessita de ansiedade; ela tem de ter esse treino, especialmente em idades mais jovens. Desapontamentos, frustrações, medos e preocupações devem fazer parte da narrativa da vida, pois estes sentimentos apenas se intensificam com o avançar do tempo. Se descobrirmos uma maneira mágica de entorpecer nossos sentidos em relação a estes sentimentos, e a uma idade jovem, como poderemos funcionar bem em um mundo adulto?

No que mais, e deixando tais considerações de lado, a estética da maconha é totalmente cafona. Já a testemunhei inúmeras vezes. Sempre que sou convidado para uma "reuniãozinha" após algum evento público, sempre fico com a esperança de que não envolva maconha. E quase sempre erro. Tão logo a fumaça (e seu fedor) começa a envolver o recinto, o nível da conversação entra em queda livre.

E então eu perco todo o dia seguinte tentando tirar o cheiro das minhas roupas e do meu cabelo. É de embrulhar o estômago.

É também algo que me entristece ver pessoas me julgando tão severamente pelo simples fato de eu não ser um usuário de maconha. Já tive amizades extremamente promissoras que foram bruscamente interrompidas tão logo confessei que não fumava maconha. A pessoa, de início, parecia apenas desapontada com a revelação. Depois, simplesmente passou a agir como se "bem, se você não fuma maconha, você jamais poderá ser meu amigo".

Quaisquer que sejam as consequências que a maconha tem sobre as pessoas, uma postura de tolerância em relação aos não-usuários não é uma delas. "Preconceito fanático" é uma descrição cabível. Aliás, nunca entendi como foi que se tornou socialmente obrigatório ser agressivo com os fumantes de tabaco, mas infinitamente tolerante — e até mesmo festivo — com os fumantes de maconha.

Apenas para deixar minha opinião bem clara, sou totalmente a favor da descriminalização da maconha (e de todas as drogas). Não quero que maconheiros sejam encarcerados. Não quero que sejam molestados. Não quero nem mesmo que a maconha seja tributada. Se você quer cultivar uma planta, empacotá-la, vendê-la e consumi-la, por mim tudo bem. Assim como quem não toma banho e se veste mal, usuários de maconha causam danos apenas a si próprios.

Já está bastante óbvio que, quanto mais a polícia persegue a maconha, mais popular ela se torna. Tenho, aliás, uma crescente suspeita de que, com efeito, foi a própria ilegalidade que gerou a implausível popularidade da maconha. Fumar maconha é uma maneira fácil de "ser contra as regras" e "desafiar o status quo". O melhor argumento em prol da retirada da maconha da lista dos frutos proibidos é que sua própria normalidade já a submeteria ao tribunal do bom gosto e das boas maneiras. E, neste tribunal, estou praticamente certo de que a maconha seria condenada.

Adoraria ver o regresso dos bons e velhos tempos em que o uso da maconha era amplamente visto como depravado e ignóbil, um hábito de derrotados. Porém, para regressarmos a isso, será essencial abolir a guerra estatal contra a maconha, para que padrões normais (e não-estatais) de desaprovação social — mais perspicazes, mais severos e mais eficazes — voltem à cena. Quando isso ocorrer, a realidade de que fumar maconha é um hábito nojento voltará a ser óbvia para todos.


domingo, 25 de outubro de 2015

CHAVÕES E REALIDADES

Que o sr. Lula seja apenas um ladrãozinho egoísta sem vínculo ou compromisso com o comunismo internacional é uma das idéias mais estúpidas e indefensáveis que já passaram por um cérebro humano.


A esquerda mundial está hoje muito mais unificada e organizada do que sessenta ou setenta anos atrás. Ganhou em força de atuação conjunta o que perdeu no debate ideológico.

Chavões, frases-feitas, clichês, estereótipos ou como se queira chamá-los existem para que o sujeito que não pensou num assunto possa obter a concordância imediata de outro que também não pensou. Onde quer que você ouça ou leia um desses maravilhosos substitutivos do pensamento, pode ter a certeza de que está assistindo a um encontro de dois corações que se apóiam e se reforçam mutuamente sem nenhuma interferência do objeto sobre o qual fingem estar conversando.

Por exemplo, quando um cidadão afirma: “Esquerda e direita são conceitos superados”, o que ele quer dizer é: “Eu sou superior a essas coisas.” O ouvinte, mais que depressa, responde: “Eu também.” E saem os dois muito contentes da sua superioridade, enquanto as duas forças inexistentes continuam a disputar o governo, xingar-se uma à outra, boicotar-se mutuamente e até trocar tiros, como se existissem.

A verdade é que nenhum fato ou coisa deste mundo, por pequeno e modesto que seja, se deixa apreender na linguagem dos chavões. Estes não têm nada a ver com a descrição de realidades, mas apenas, na mais bem sucedida das hipóteses, com a expressão da harmonia ou desarmonia entre as almas do falante e do ouvinte. Isso é assim pela simples razão de que nenhuma realidade vem junto com a linguagem pronta que a expressa, mas em cada caso a sua descoberta requer a invenção da linguagem apropriada para expressá-la. É por isso que os autores de grandes descobertas na filosofia são também inventores de linguagens originais. Conforme o talento literário de cada um, elas podem ser límpidas e claras como as de Platão ou Leibniz, ou então abstrusas e indecifráveis como as de Kant ou Heidegger, mas sempre originais, únicas e adequadas aos seus fins.

O chavão é, por excelência, a linguagem do auto-engano que busca transmutar-se em engano alheio, se possível em engano geral. É a linguagem de quem fecha os olhos ao objeto e os arregala para ver a reação do ouvinte. O pobre do objeto, do assunto, da questão, fica fora da conversa como um mendigo que espia pela janela do Ritz.

Se voltamos ao exemplo acima e, em vez de participar da deliciosa harmonia entre o falante e o ouvinte, voltamos os nossos olhos ao objeto da conversa, em cem por cento dos casos notamos que ele é bem diferente do que o imaginam aqueles que nem mesmo tentaram imaginá-lo, mas se limitaram a usá-lo como pretexto de um intercâmbio social.

Desde logo, se há pessoas que se dizem de esquerda ou de direita e que agem politicamente sob essas bandeiras, é evidente que esquerda e direita existem como agrupamentos políticos reais que sob esses nomes se reconhecem e por eles distinguem os “de dentro” e os “de fora”. Se suprimimos os nomes teremos de designá-los por outros da nossa própria invenção, nos quais os dois grupos não se reconhecerão e que só servirão para complicar o vocabulário.

Como autodenominações de grupos políticos e símbolos da sua identidade, os termos “esquerda” e “direita” não estão superados de maneira alguma. Expressam uma realidade sociológica inegável.

Faz um pouco mais de sentido dizer que seus respectivos discursos ideológicos foram ultrapassados pelo desenvolvimento crescentemente complexo do estado de coisas, que nenhum deles expressa corretamente. Teremos, com isso “superado os conceitos” de esquerda e direita? De maneira alguma, pois essa acusação é a mesma que a esquerda e a direita se fazem mutuamente, e, se não percebemos nem mesmo isso, é que ignoramos o estado de coisas ainda mais profundamente do que as duas juntas, e nós é que estamos superados. O sapientíssimo se revela um bobo na hora mesma em que tenta posar de superior.

Deveria ser óbvio para todo mundo, mas para muitos é quase um segredo esotérico inacessível, que a qualidade boa ou má, a veracidade ou falsidade das idéias de um grupo não tem nada a ver com a sua existência ou inexistência como grupo. Argumentar que duendes não existem não prova que inexistam grupos que acreditam em duendes.

Ainda mais bobo é aquele que afirma desprezar toda “retórica ideológica” e, em vez disso, examinar somente os interesses materiais malignos por trás da aparente disputa de ideologias, acreditando com isso estar firmemente assentado no terreno dos fatos e a salvo de idéias ilusórias. Mas, em primeiro lugar, apontar interesses materiais por trás de um discurso ideológico é precisamente o que as ideologias inimigas fazem umas com as outras. E o fazem quase sempre com razão, porque toda ideologia, como já a definia Karl Marx, é um “vestido de idéias” (Ideenkleid) costurado para encobrir um interesse material, um projeto de poder, uma ambição mundana. Por outro lado, é certo que, se esses interesses se apresentassem nus e crus, sem a embalagem ideológica, seriam imediatamente desmoralizados e não enganariam a ninguém. A ideologia, portanto, é parte integrante do projeto maligno, que não pode ser compreendido sem referência a ela. Por fim, também é certo que, se um discurso ideológico, uma vez formulado, serve de símbolo verbal da identidade de um grupo, o qual sem essa identidade estaria privado da possibilidade de agir em conjunto, o conteúdo desse discurso não será nunca totalmente alheio à conduta real do grupo, que em certa medida será obrigado a ajustar suas ambições de poder às promessas e valores do discurso. A tensão entre a identidade do grupo e os interesses materiais em jogo é um elemento permanente da vida político-ideológica, e fazer abstração da ideologia para enfocar somente os interesses materiais isolados é condenar-se a não compreendê-los de maneira alguma.

Um exemplo característico é o chavão mais em moda hoje em dia, segundo o qual o sr. Lula não é comunista nem esquerdista, apenas um político sem filiação ideológica que enriqueceu ilicitamente. Esse chavão soa agradável em diferentes áreas do espectro ideológico. Para o esquerdista, ele é a fórmula mágica para isentar de toda culpa pelos crimes do PT a corrente política que o criou, que o incensou, que lhe deu a hegemonia e que, se ele for para o buraco, pretende continuar no poder sob outros nomes quaisquer. Para o direitista, fornece um poderoso argumento retórico: “Estão vendo como na esquerda ninguém presta, como são todos uns ladrões e salafrários?” E, para o homem “superior a ideologias”, é mais uma prova da sua superioridade sublime. Todos os pretextos servem, portanto, para o interessado se fazer de bonito mediante a supressão de pelo menos duas perguntas:

1) Se o Lula é apenas um ladrãozinho sem compromisso com o comunismo, por que distribuiu tanto dinheiro a ditaduras e partidos comunistas, quando podia guardá-lo para si mesmo? 

2) Por que as FARC o homenagearam por ter salvado in extremis o comunismo continental, em vez de acusá-lo de usar o comunismo em benefício próprio?

Que o sr. Lula seja apenas um ladrãozinho egoísta sem vínculo ou compromisso com o comunismo internacional é uma das idéias mais estúpidas e indefensáveis que já passaram por um cérebro humano. De um lado, há o fato incontestável de que ele é aceito e celebrado por todos os governos e partidos comunistas do mundo não só como um parceiro e irmão leal, mas até como uma espécie de herói, de salvador providencial. Se ele alcançou essa posição sem nada fazer pelo comunismo e agindo sempre somente no interesse próprio, então ele enganou a todos os líderes e governos comunistas do universo, incluindo os serviços secretos de Cuba e da China, tidos como extraordinariamente eficientes e maliciosos, só não logrando tapear o tirocínio superior dos comentaristas brasileiros de mídia. De outro lado, resta o fato igualmente incontestável de que nenhum espertalhão logrou jamais utilizar-se do comunismo em benefício próprio sem beneficiar ainda mais algum governo ou partido comunista -- pelo menos não logrou fazê-lo sem pagar com a vida. Willi Münzenberg, que era um milhão de vezes mais esperto que Lula, foi simplesmente acusado de tentar fazer isso, e já o assassinaram antes que alguém pudesse verificar se fez ou não. Não é humanamente concebível que um movimento que condenou à morte cem milhões de pessoas pudesse poupar generosamente a vida de um vigarista que o ludibriasse de forma tão humilhante ante os olhos da humanidade inteira. Muito menos concebível é que depois disso continuasse a aplaudi-lo e paparicá-lo como o fazem os governos de Cuba, da China, da Venezuela etc. Essa hipótese é tão absurda, tão monstruosamente inverossímil, que acreditar nela mesmo por um minuto e em segredo já seria prova de uma imbecilidade descomunal. A desenvoltura ingênua com que tantos no Brasil a alardeiam sem a menor inibição é a prova definitiva de que algo no cérebro nacional não vai bem.

Erros monumentais como esse não aparecem sozinhos. Provêm de uma ignorância estrutural, profunda e dificilmente reversível, quanto à natureza e função das ideologias em geral. Os palpiteiros que superlotam a mídia e as cátedras imaginam que ideologia seja algo como uma crença religiosa, que exija a adesão profunda e sincera das almas. Nessa perspectiva, um comunista, por exemplo, poderia ser um “verdadeiro crente” ou um mero oportunista sem crença nenhuma. Essa diferença pode ter existido em outras épocas, quando a URSS baixava as Tábuas da Lei e condenava como heréticos os trotskistas, os revisionistas etc. De fato, não pode existir “verdadeiro crente” sem um texto canônico obrigatório para todos. Mas já faz três décadas, pelo menos, que nada disso existe no movimento comunista. A concepção eclesiástica do Partido como guardião da doutrina infalível foi substituída pela flexibilidade de um pluralismo ilimitado onde todos os discursos ideológicos são bons, desde que seus adeptos consintam em agir segundo uma estratégica unificada. Concomitantemente, a antiga hierarquia vertical foi trocada por uma organização mais flexível sob a forma de “redes”, onde as palavras-de-ordem não despencam das alturas olímpicas de um Comitê Central mas se espalham quase anonimamente, como se fossem meras exigências do senso comum em vez de ordens do Camarada Fulano ou Beltrano. A substituição da unidade ideológica pela unidade puramente estratégica, concebida nos anos 80 do século passado e testada com sucesso espetacular na guerrilha de Chiapas, México, em 1994 – chamada por isso “guerrilha pós-moderna”--, permitiu que o movimento comunista não somente sobrevivesse incólume à queda da URSS, mas multiplicasse sua força e capacidade de ação. A esquerda mundial está hoje muito mais unificada e organizada do que sessenta ou setenta anos atrás. Ganhou em força de atuação conjunta o que perdeu no debate ideológico. Quem não percebe isso não merece ser ouvido em matéria de política.

Para tornar as coisas ainda mais incompreensíveis aos sábios iluminados, resta o fato de que “esquerda” e “direita” só são entidades simetricamente opostas nos dicionários. Na vida real, “esquerda”, hoje, não é um “rótulo ideológico” e sim um movimento unificado e organizadíssimo sem nenhuma ideologia definida, ao passo que “direita” é na melhor das hipóteses o nome de um amálgama confuso de discursos ideológicos inconexos, ao qual não corresponde nenhuma organização ou movimento unificado nem mesmo em escala nacional, quanto mais mundial. Não são espécies do mesmo gênero. Aquele que assim as concebe para fazer-se de superior a ambas, como um domador que cavalga simetricamente dois cavalos com um pé em cada um, é na verdade um acrobata impossível com um pé num cavalo de carne e osso e o outro no conceito abstrato de um cavalo hipotético.Por: Olavo e Carvalho Publicado no Diário do Comércio.



sábado, 24 de outubro de 2015

COM DILMA À FRENTE, O BRASIL SEGUE EM QUEDA LIVRE. E RÁPIDA.

Eis aí o Brasil, mais de três anos antes do dia previsto para o tão esperado encerramento do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, empenhado num vigoroso sprint ladeira abaixo. A corrida já começou faz tempo, como todo mundo sabe, e ainda tem muito chão pela frente até a linha da chegada, mas provavelmente está num dos seus melhores momentos ─ ganhou aquele impulso natural e crescente que a força da gravidade, esta velha conhecida de todos nós, impõe às coisas que estão caindo. Se subiu tem de descer, anotava Raul Seixas em suas observações gerais sobre o funcionamento da vida, e é isso, precisamente, o que está acontecendo neste 2015 que entra em sua reta final.

Com uma particularidade: o presente governo, reeleito um ano atrás, começou a cair antes mesmo de concluir a subida. Teria chegado ao fundo do poço? Ninguém é louco para se arriscar com palpites assim, não nesta revista; não dá para saber a profundidade exata do poço, e a Redação está formalmente instruída a não se meter com equações que só têm a incógnita. O certo, pelo registro dos fatos, é que a economia e a politica estão em pleno acordo para se manter em queda ampla, livre e rápida. Esperar qualquer outra coisa é perda de tempo.

A mensagem que o governo Lula-Dilma-PT está passando aos cidadãos brasileiros, junto com o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, os partidos e quem mais consegue mandar em alguma coisa neste país, é a seguinte: “Não esperem nada daqui. Não vamos ajudar ninguém em coisa nenhuma. Governar, então, nem pensar. Estamos cuidando exclusivamente de nós mesmos. O Brasil que vá para o diabo que o carregue. Virem-se”. A presidente da República não governa, pois não trabalha – dedica 100% do tempo à atividade de não ser deposta, mesmo porque a última coisa de que precisa é tornar-se uma ex-presidente e, portanto uma cidadã igual aos demais brasileiros, nestes momentos de trovoada que se formam a partir da legislação penal.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha – que virou de fevereiro para cá o grande inimigo do governo e do PT, depois de passar a carreira toda na mais perfeita paz com ambos, e talvez esteja a caminho de tornar-se um grande amigo de novo – concentra todos os seus esforços em salvar o próprio couro. O PT só pensa em grudar-se em seus empregos, acesso a verbas públicas e oportunidades de negócio com a máquina do Estado. Lula está plenamente empenhado em safar-se da maré enchente de denúncias contra dois filhos, um sobrinho, uma nora e sua própria atuação como lobista de empreiteiras. Os líderes da oposição têm como prioridade eliminar-se uns aos outros. Os tribunais de justiça querem mandar na vida política. A única proposta concreta que o governo tem para oferecer à população é criar de novo o imposto do cheque. Os ministros, sem exceção, dizem que é impossível lidar com um único problema urgente porque não têm dinheiro – e o pior é que não têm mesmo. Enfim: põe ladeira abaixo nisso.

Todos os personagens responsáveis por esse angu têm em comum, entre si mesmos, a perfeita convicção de que não são responsáveis por absolutamente nada, o que torna inútil qualquer tentativa de apresentar-lhes os fatos – é como dar um espelho a um cego. Dilma quebrou o Brasil com uma inépcia jamais atingida antes dela, mas acha que não tem nada a ver com nenhum dos desastres que criou; diz que “a sociedade” tem de resolver os problemas e, enquanto isso, revela-se desapontada com as dificuldades que existem para estocar o vento. Lula declara que receber dinheiro de empresas comprovadamente culpadas de atos de corrupção é um atividade “patriótica”, e da qual tem “orgulho”. A solução que ele e seu partido têm para a crise politica é comprar aliados através da privatização do aparelho do Estado; para a crise econômica recomendam dobrar os erros já testados por Dilma nos últimos cinco anos.

É tempo de murici, como dizia o coronel Tamarindo em sua retirada na Guerra de Canudos. Cada um que cuide de si.
Por: J. R. Guzzo  Publicado na revista EXAME

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

COMO PORTUGAL COMPROU O NORDESTE DOS HOLANDESES POR R$ 3 BI

Image copyrightWikipediaImage captionQuadro do pintor brasileiro Victor Meirelles de Lima retrata Batalha dos Guararapes (1648/1649), que encerrou período do domínio holandês no Brasil

Mesmo depois de terem sido derrotados, os holandeses receberam dos portugueses o equivalente a R$ 3 bilhões em valores atuais para devolver o Nordeste ao controle lusitano no século 17.

O pagamento ─ que envolveu dinheiro, cessões territoriais na Índia e o controle sobre o comércio do chamado Sal de Setúbal – correspondeu à época a 63 toneladas de ouro, como conta Evaldo Cabral de Mello, historiador e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), no livro O negócio do Brasil, que está sendo relançado em uma nova edição ilustrada pela Editora Capivara, de Pedro Correia do Lago, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional. A edição original foi lançada em 1998.

Em valores atuais, o montante equivaleria a 480 milhões de libras esterlinas (ou cerca de R$ 3 bilhões). O cálculo foi feito à pedido da BBC Brasil por Sam Williamson, professor de economia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, e co-fundador do Measuring Worth, ferramenta interativa que permite comparar o poder de compra do dinheiro ao longo da história.

"Esta foi a solução diplomática para um conflito militar. O pagamento fez parte da negociação de paz. O que não quer dizer que a guerra não tenha sido necessária", afirmou Cabral de Mello à BBC Brasil.
'Pechincha'Image copyrightWikipediaImage captionBandeira da Nova Holanda, como ficou conhecida a colônia da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no Brasil

Os holandeses ocuparam o Nordeste por cerca de 30 anos, de 1630 a 1654, em uma área que se estendia do atual Estado de Alagoas ao Estado do Ceará. Eles também chegaram a conquistar partes da Bahia e do Maranhão, mas por pouco tempo.

Por trás das invasões, havia o interesse sobre o controle do comércio e comercialização da matéria-prima.

Isso porque, como conta Cabral de Mello, antes mesmo de ocupar o Nordeste, os holandeses já atuavam na economia brasileira com o apoio de Portugal, processando e refinando a cana de açúcar brasileira.Image captionGravura holandesa retrata o cerco a Olinda em 1630

"Quando o reino português foi incorporado pela Espanha, essa parceria acabou. Os espanhóis romperam esse acordo, que rendia altos lucros aos holandeses. Além disso, a relação entre os holandeses e os espanhóis já não era boa, já que a Holanda havia se tornado independente do império espanhol em 1581", diz o historiador.

Durante o período em que ocuparam parte do Nordeste, os holandeses foram responsáveis por inúmeras mudanças importantes, inclusive urbanísticas, principalmente durante o governo de Johan Maurits von Nassau-Siegen, ou Maurício de Nassau.

Com o intuito de transformar Recife na "capital das Américas", Nassau investiu em grandes reformas, tornando-a uma cidade cosmopolita. Apesar de benquisto, ele acabou acusado por improbidade administrativa e foi forçado a voltar à Europa em 1644.
'Sem heroísmo'Image captionQuadro do pintor espanhol Juan Bautista Maíno retrata reconquista de Salvador pelas tropas hispano-portuguesas (1635)

Naquele ano, Portugal já havia se separado da Espanha, mas demorou para enviar soldados para retomar o Nordeste. A região só foi reintegrada em janeiro de 1654.

Cabral de Mello, que é especialista no período de domínio holandês, diz que a tese de que os holandeses foram expulsos pela valentia dos portugueses, índios e negros "não é completa".

"Os senhores de engenho locais financiaram a luta pela expulsão dos holandeses, já que deviam mundos e fundos à Companhia das Índias Ocidentais, que lhe havia emprestado dinheiro. Eles, no entanto, não tinham como pagar a dívida", explica o historiador.

"Os holandeses acabaram derrotados, mas não sem antes pressionar Portugal pelo pagamento dessa dívida, inclusive chegando a bloquear o Tejo (Rio Tejo). O pagamento não foi feito em ouro, mas um observador da época fez a correspondência para o metal precioso".

"Portugal teve de pagar 10 mil cruzados aos holandeses. Também fez parte do acordo a transferência do controle de duas possessões territoriais portuguesas na Índia ─ Cranganor e Cochim ─ e o monopólio do comércio do Sal de Setúbal".

Por: Luís Guilherme Barrucho - @luisbarruchoDa BBC Brasil em Londres

terça-feira, 13 de outubro de 2015

ORGANIZAÇÃO SUSTENTÁVEL

- Se você tem metas para um ano. Plante arroz. Se você tem metas para 10 anos. Plante uma árvore. Se você tem metas para 100 anos, então eduque uma criança. Se você tem metas para 1000 anos, então preserve o meio Ambiente. Confúcio

- Sustentabilidade é equação entre o que você poupa e o que você desperdiça. Luis Nykyson Lisboa Pinheiro

- Empresas amantes do termo sustentabilidade, caso não se reciclem, trairão a sua própria natureza. Marcelo Petter de Vargas

- Sinceramente, acho que sustentabilidade é uma desculpa pra ser pão-duro. Eu, por exemplo, não economizo energia pra salvar o planeta. É pra salvar meu bolso.Tiago Bezerra


Sustentabilidade tornou-se mais recentemente, uma palavra de ordem, um conceito da moda. Entende-se como sustentável a organização que adota parques e praças, cuida do verde, obedece às normas ambientais, que desenvolve posturas ecologicamente corretas, etc..


Ser uma organização sustentável é muito mais do que apenas isto. Cuidar do meio ambiente é apenas um dos requisitos daquilo que se pode chamar de sustentabilidade.


Organização sustentável é aquela concebida, convertida e gerida visando sua perenidade, para que contribua com o pleno desenvolvimento da comunidade na qual está inserida. Que detenha postura ética na relação com todos os agentes envolvidos, lembrando que ética está para o bem e o mal, como a moral está para o certo e o errado.


Também é  promover o desenvolvimento com o menor impacto possível ao meio ambiente.

Uma organização verdadeiramente sustentável tem como premissa atender pelo menos alguns dos itens abaixo relacionados tais como:

1- Utilizar os recursos naturais com parcimônia e na medida da necessidade.

2- Criar um ambiente em que as pessoas possam dar o melhor de si, com perspectivas de crescimento profissional e desenvolvimento pessoal.

3- Garantir atualização tecnológica na medida da necessidade da organização e de acordo com as normas ambientais visando o uso racional dos recursos.

4- Prover relações justas com os agentes envolvidos com a organização, como fornecedores de produtos e serviços, clientes, órgãos oficiais, consumidores e colaboradores.

5- Proporcionar os resultados financeiros mínimos necessários para os investimentos e retorno aos acionistas. Isto independe ser ser uma organização que visa lucro ou não.

6- Planejar e gerenciar a organização para que possibilite e promova o desenvolvimento das pessoas nela inseridas e com a quais se relaciona.

7- Adotar métodos de governança e modelos participativos que priorizem a transparência das ações e a observância dos procedimentos éticos. Estar de acordo com os regulamentos e normas.

8- Promover um nível elevado de competitividade, afim de garantir a expansão permanente da organização e a melhoria na sua posição como agente do desenvolvimento e do progresso da comunidade em que estiver inserida.

Algumas vantagens podem ser obtidas pelas organizações verdadeiramente sustentáveis, tais como: Redução de custos, melhora na imagem da organização, meio ambiente mais saudável, satisfação dos colaboradores, reconhecimento pela comunidade etc.

Acredito que boa parte dos bons resultados que determinadas organizações tem alcançado decorre da adoção dos princípios abordados de forma  resumida nesse tópico. Afinal, é neste  sentido mais amplo que entendo o conceito de “organização sustentável”.
Por: Aloysio Tiscoski