quarta-feira, 4 de novembro de 2015

10 COISAS QUE VOCÊ NÃO SABIA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE PT E PSDB


10 FATOS ABSOLUTAMENTE DEPRIMENTES SOBRE A POLÍTICA BRASILEIRA

10 COISAS QUE APRENDI COM OS PETISTAS NA INTERNET


PT e PSDB são os irmãos Karamazov da política nacional. Nas últimas décadas, ambos os partidos travaram duelos apaixonados e transformaram o debate público brasileiro num imenso caldeirão, um Fla-Flu. De um lado os azuis, do outro os vermelhos. De um lado o tucano, do outro a estrela. De um lado o professor, do outro o operário.

O que poucas pessoas sabem é que há mais coisas em comum entre oPartido dos Trabalhadores e o Partido da Social Democracia Brasileira do que julga nossa vã filosofia. PT e PSDB nasceram no mesmo lugar, no coração da esquerda paulistana, com concepções políticas e econômicas muito parecidas, e com duas figuras históricas – Lula e Fernando Henrique Cardoso – que não teriam ascendido sem o outro. E tudo isso nunca foi negado por seus criadores. Pelo contrário.


“Nós estamos que nem dois jogadores de futebol, somos amigos, somos até irmãos e estamos jogando em times diferentes”, já disseLula sobre a relação entre os partidos.

“Nossas diferenças com o PT são muito mais em relação à disputa de poder do que sobre ideologia”, já assumiu Fernando Henrique Cardoso.

De fato, é muito difícil desassociar a história de ambos. O sociólogo francês Alain Touraine, de esquerda, ex-professor e amigo pessoal de Fernando Henrique, chegou a afirmar que o futuro do Brasil seria a união dos partidos. Em 2004, Touraine disse que os governos de FHC e Lula faziam parte de um mesmo projeto. E tal cenário é assumido por seu pupilo. Para FHC, há uma massa política atrasada no país e a polarização entre PT e PSDB serve para tirá-lo desse atraso.


“Os dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo, nós disputamos quem é que comanda o atraso”,disse.

Aqui, 10 coisas que você não sabia sobre a relação entre os dois partidos que mais pediram o seu voto nos últimos tempos.
1) LULA JÁ GARANTIU ELEIÇÃO PARA FERNANDO HENRIQUE CARDOSO. E LOGO NA ESTREIA DOS DOIS NA POLÍTICA PARTIDÁRIA.


Foi em 1978.

Fernando Henrique Cardoso era o príncipe dos sociólogos, um membro ativo da comunidade acadêmica paulistana que havia deixado a universidade para abraçar a vida pública. Era sua estreia de gala, o candidato de esquerda na corrida ao Senado pelo maior estado do país, a nova aposta do MDB.

Lula era o sapo dos operários, um líder do movimento sindical que tinha “ojeriza” à política partidária. Convencido por alguns amigos, abriu uma exceção para a candidatura do sociólogo do Morumbi. Pediu em troca sua adesão às bandeiras econômicas dos sindicatos, prontamente atendidas. Tal qual FH, era sua primeira vez nas corridas eleitorais. E a meta era clara: somar o máximo de votos possíveis para Fernando Henrique Cardoso.

Como conta o próprio Lula:


“Acontece que em 78, primeiro ano das greves do ABC, o MDB estava lançando sua chapa de senadores. Algumas pessoas, alguns jornalistas cujos nomes não vou dizer, queriam que a gente apoiasse Cláudio Lembo, da Arena. Fui apresentado a Fernando Henrique Cardoso. Aí fomos para a campanha. Fui representar Fernando Henrique Cardoso em vários comícios.”

Lula levou FHC às portas de fábrica e rodou com ele pelo interior do estado. Era o príncipe e o sapo unidos em torno da criação do mesmo reino – a maior figura daquilo que viria a ser o PSDB com a maior figura daquilo que viria a ser o PT. Num palanque do MDB, com artistas e figuras ilustres da esquerda paulistana, o líder operário irritou-se com a festividade. Virou-se para Ulysses Guimarães e esbravejou:


“O trato é que iria pedir votos só para o Fernando Henrique Cardoso. Todo mundo sabe que sou o principal cabo eleitoral do Fernando Henrique Cardoso. Agora querem que eu peça votos também pro Montoro. Eu não vou pedir. Se não me deixarem fazer o que eu quero, eu desço e levo o palanque todo comigo, e vamos fazer o comício em outro lugar.”

Era o início de tudo. Fernando Henrique acabaria eleito primeiro suplente do senador Franco Montoro e, quatro anos depois, quando Montoro virou governador, assumiu a vaga, dando princípio à carreira política que o levaria ao cume do poder nacional. Sem o apoio de Lula em seus primeiros passos, nada disso seria possível.
2) EDUARDO SUPLICY, LULA E FHC JÁ DIVIDIRAM UMA CASA DE PRAIA EM UBATUBA


Na década de setenta, Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa de praia em Picinguaba, Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Em 1976, entre as indas e vindas de sua vida acadêmica dentro e fora do país, deixou o imóvel nas mãos de um amigo de longa data que conhecia desde os tempos de garoto – um sujeito chamado Eduardo Matarazzo Suplicy.


“Em 1976, aluguei uma casa em Paraty e fui conhecer Picinguaba. O Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa lá, que acabou me emprestando por seis meses quando ele foi para a França. O filho da caseira me mostrou um terreno, onde acabei construindo minha casa, dois anos depois”, conta Suplicy. 

Um ano depois, o fundador do PSDB abriria as portas para o fundador do PT e sua esposa – Lula e Marisa – passarem um final de semana no imóvel. Lula ficou extasiado com a paisagem. Só reclamou dos mosquitos.
3) LULA E FERNANDO HENRIQUE CARDOSO QUASE CRIARAM UM PARTIDO POLÍTICO

Fernando Henrique Cardoso no alto, à esquerda, Lula no centro da imagem.

No final da década de 1970, Fernando Henrique e Lula participaram de uma reunião no ABC paulista, com intelectuais e dirigentes sindicais, para discutir o que fazer diante da iminente redemocratização no país. Nesse espaço, discutiram a criação de um partido socialista. Mas a ideia não foi pra frente. Como conta o sociólogo Francisco Weffort, fundador do PT e posteriormente ministro do governo FHC:


“Apesar das muitas afinidades, prevaleceu a divergência. Daquele grupo, uns saíram para criar o PT e outros, anos depois, o PSDB.”

Segundo Eduardo Suplicy, que reuniu Lula e Fernando Henrique diversas vezes em sua casa para discutir o futuro do país e a possível criação de uma nova legenda, ela só não nasceu pelo conflito de liderança entre os dois:


“Cada um avaliava que seria o líder maior da organização que se formasse. Tinham dificuldade de aceitar a liderança um do outro, e ficava muito difícil para ambos ficar no mesmo partido”, conta.

Por muito pouco, PT e PSDB não se tornaram um único partido.
4) OS POLÍTICOS DE PT E PSDB SE CONFUNDEM COM A HISTÓRIA DA ESQUERDA BRASILEIRA


A história dos principais caciques tucanos se confunde com a história dos principais caciques petistas. Juntos, ajudaram a construir a esquerda brasileira.

Fernando Henrique Cardoso sempre foi um estudioso do marxismo, por influência de Florestan Fernandes. Na década de 50, auxiliava a edição da revista “Fundamentos”, do Partido Comunista Brasileiro. Também integrava um grupo de estudos dedicado à leitura e discussão da obra O Capital, de Marx. Em 1981, ao lado de Eduardo Suplicy, ingressou numa lista da Polícia Federal. Era tratado como comunista pela ditadura.

O economista José Serra foi uma das principais lideranças estudantis de seu tempo, presidente da UNE e um dos fundadores da Ação Popular, grupo de esquerda que revelaria os petistas Plínio de Arruda Sampaio e Cristovam Buarque. Serra é amigo pessoal e conviveu por anos no exílio com a economista petista Maria da Conceição Tavares, uma das principais influências intelectuais do Partido dos Trabalhadores e referência particular de Dilma.

O tucano Aloysio Nunes, vice de Aécio Neves na última eleição, foi membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização guerrilheira liderada por Carlos Marighella – era seu motorista e guarda-costa. Aloysio realizou inúmeros assaltos à mão armada em nome da revolução socialista.

Alberto Goldman, ex-governador tucano de São Paulo, teve uma educação marxista. Foi membro do clandestino PCB durante a ditadura.

José Aníbal, uma das figuras mais proeminentes do PSDB paulista, foi amigo de adolescência de Dilma Rousseff, com quem estudava matemática depois das aulas, e seu parceiro na Organização Revolucionária Marxista Política Operária, também conhecida como POLOP. Aníbal foi um dos fundadores do PT, antes de ser presidente do PSDB.

Juntos, eles fundariam os dois partidos políticos mais relevantes do país.
5) NAS ELEIÇÕES DE 1989, O PSDB APOIOU LULA CONTRA COLLOR

Mario Covas, Lula e Brizola.

O recém formado PSDB, criado por dissidentes de esquerda do MDB, lançou o senador Mario Covas candidato à presidência em 1989. Covas alcançou pouco mais de 7 milhões de votos no primeiro turno e terminou a corrida na quarta colocação. O que pouca gente se lembra é que o PSDB apoiou Lula no segundo turno – o PMDB, de Ulysses Guimarães, tentou seguir o mesmo caminho, mas acabou rejeitado pelo Partido dos Trabalhadores. Os tucanos, por outro lado, foram acolhidos. Em almoço com o prefeito de Belo Horizonte eleito pelo PSDB, Pimenta da Veiga, Lulaouviu do tucano:


“Eu tenho também a alegria de saber que, pela primeira vez, aqui se reúnem representantes de todas as forças progressistas do país, nesta tarde, neste almoço. Eu estou certo que isso terá desdobramentos. E acho que deve ser assim, porque o Brasil deseja mudanças em profundidade. E só essas forças progressistas podem fazer essas mudanças.”

Lula perderia a eleição para Collor em poucas semanas.
6) “LULA, VENHA CONHECER A CASA ONDE VOCÊ UM DIA VAI MORAR”


Em 1993, o Brasil passou por um plebiscito sobre a forma e o sistema de governo do país. De um lado, o PT articulava a formação de uma Frente Presidencialista. De outro, o PSDB defendia a implementação do parlamentarismo. Numa conversa informal, Lula e FHC chegaram a conversar sobre um plano em que o operário se tornaria presidente e o sociólogo primeiro-ministro.

Em 1998, como revela numa conversa com o ex-senador petista Cristovam Buarque, FHC recebeu Lula no Palácio do Alvorada e arriscou uma nova previsão.


“Cristovam Buarque: Em novembro de 1998, acompanhei o Lula para visitá-lo. Quando o senhor abriu a porta do apartamento residencial no Alvorada, disse: “Lula, venha conhecer a casa onde você um dia vai morar”. Foi generosidade ou previsão?

Fernando Henrique Cardoso: Não creio que tenha sido uma previsão, mas sempre achei uma possibilidade. E também um gesto de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia: “Temos uma relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o chefe do governo não possa falar com o chefe da oposição”. Era uma época muito difícil para o Brasil. Eu disse lá, não sei se você se lembra: “Algum dia nós podemos ter de estar juntos”. Eu pensava numa crise. E disse ao Lula: “Não quero nada de você. Só conversar. É para você ter realmente essa noção de que num país, você não pode alienar uma força”. Lula conversou comigo no dia da posse. E foi bonita aquela posse… Na hora de ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o elevador. E aí ele grudou o rosto em mim, chorando. E disse: “Você deixa aqui um amigo”. Foi sincero, não é?”

Em 1999, Fernando Henrique relatou o quanto respeitava Lula. Numa conversa com Eduardo Suplicy, revelou que quando Lula aparecia na televisão falando mal dele, simplesmente desligava o aparelho.


“Fico triste, perco até o humor. Para vocês terem uma ideia do quanto eu gosto e admiro o Lula. Você sabe, Eduardo, o que eu fiz com Lula quando ele esteve comigo no Alvorada, mostrei a ele o meu quarto e disse: “Um dia isso aqui vai ser os seus aposentos”. A gente faz isso com adversário, nem com todos os amigos a gente faz isso. Pois eu mostrei a Lula as dependências da residência oficial em que moro. Mostrei o meu quarto.”

Em três anos, Lula viraria presidente. A profecia tucana se cumpriu.
7) FERNANDO HENRIQUE FEZ CAMPANHA SECRETA PARA LULA EM 2002


Nas eleições de 2002, FHC retaliou José Serra, candidato pelo PSDB à sucessão presidencial, por ataques feitos a Lula durante a campanha. Fernando Henrique disse também, em conversas reservadas, que foi um erro o ataque direto ao presidente do PT, o então deputado federal José Dirceu. Dirceu era o petista mais próximo de seu governo e a ordem era que se suspendesse imediatamente as críticas a ele. Seu puxão de orelha foi transmitido ao comando do marketing da campanha de Serra.

Com Lula eleito, FHC iniciou uma campanha secreta em sua defesa. A história é narrada no livro ”18 Dias — Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, escrito por Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e colunista da Folha de São Paulo. Como conta Spektor:


“Lula despachou José Dirceu [que viria a ser o chefe de sua Casa Civil] para os Estados Unidos e acionou grupos de mídia e banqueiros brasileiros que tinham negócios com a família Bush. Disciplinou as mensagens de sua tropa e abriu um canal reservado com a embaixada americana em Brasília. Lula não fez isso sozinho. Operando junto a ele estava o presidente brasileiro em função – Fernando Henrique Cardoso. FHC enviou seu ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, em missão à Casa Branca para avalizar o futuro governo petista. O presidente também instruiu seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, a construir uma mensagem comum junto ao homem forte de Lula, Antonio Palocci.

Eles fizeram uma dobradinha para dialogar com o Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional e Wall Street. Fernando Henrique ainda orientou Rubens Barbosa, seu embaixador nos Estados Unidos, a prestar todo o apoio a Lula.”

Sem esse apoio, Lula certamente não conseguira a estabilidade internacional que teve. Não fosse FHC, sua história teria tomado outros rumos. E a do Brasil também.
8) O HOMEM FORTE DA ECONOMIA DO GOVERNO LULA ERA… UM TUCANO!


No início dos anos 2000, Henrique Meirelles deixou de lado uma vida bem sucedida como executivo do setor financeiro para candidatar-se a deputado federal por Goiás. Recebeu 183 mil votos e se tornou o deputado mais votado do estado. Seu partido era o PSDB. Com o sucesso eleitoral e o respeito do mercado financeiro, foi convidado por Lula para ser o primeiro presidente do Banco Central de seu governo, cargo que ocuparia por longos 7 anos. Meirelles ainda receberia as bençãos de FHC, antes de se desfiliar do PSDB e deixar o cargo que havia sido eleito.Lula telefonou para Fernando Henrique para avisar a escolha.

Em 2003, Marcos Lisboa, outro homem forte da economia do primeiro governo Lula, declarou que a equipe econômica do governo Fernando Henrique Cardoso merecia uma “estátua em praça pública” por ter promovido os acordos com os governos estaduais e municipais na negociação da dívida e também por ter criado a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Anos mais tarde, Fernando Henrique revelou comemorar as conquistas do governo Lula.


“Eu também comemoro a melhoria na distribuição de renda. A política dele é a minha”, disse.
9) FERNANDO HENRIQUE CARDOSO EVITOU O IMPEACHMENTDE LULA EM 2005


Durante todo governo Lula, duas figuras construíram uma ponte entre o presidente operário e o ex-presidente sociólogo: os então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Os encontros foram confirmados por ambos – Palocci confirmou que esteve pessoalmente com FHC “pelo menos cinco vezes”; Bastos disse ter conversado pessoalmente com o ex-presidente apenas uma vez, em junho de 2005, mas confirmou que os contatos por telefone eram muito frequentes. Lula sempre soube das conversas e, mais de uma vez, em momentos difíceis, sugeria a Palocci: “Vai conversar com Fernando Henrique”.

Em 2005, no auge do escândalo do Mensalão e com a pressão por impeachment, Lula orientou seus dois homens fortes para pedirem a FHC que aplacasse os ânimos da oposição. O tucano aceitou de prontidão. Na conversa com Thomaz Bastos, FHC concordou que um impeachment de Lula, à época uma ameaça real, “tornaria o país ingovernável”. Fernando Henrique dizia que não queria criar “uma cisão no Brasil”. Os tucanos acataram a ordem e a história do impeachment perdeu força.
10) NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS, PT E PSDB ESTAVAM COLIGADOS EM 999 DISPUTAS DE PREFEITURAS

PT e PSDB são tratados como antagonista no cenário político nacional, mas a verdade é que em pelo menos 999 cidades (o correspondente a 18% das 5.569 cidades brasileiras), os partidos fizeram parte da mesma coligação nas últimas eleições municipais. Só no estado de São Paulo, esse número foi de 54 municípios.

Em Schroeder, Santa Catarina, por exemplo, o prefeito eleito foi o tucano Osvaldo Jurck; seu vice foi o petista Moacir Zamboni. Em 149 casos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as chapas que contaram com o PT foram encabeçadas por candidatos a prefeito pelo PSDB.

Tudo como se fossem feitos um para o outro.
Por: Rodrigo Silva  Do site: http://spotniks.com/10-coisas-que-voce-nao-sabia-sobre-a-relacao-entre-o-pt-e-o-psdb/

terça-feira, 3 de novembro de 2015

DUAS ÉPOCAS

Toda a esfera das atividades “culturais” tornou-se uma farsa subsidiada, um rateio de cargos, benesses, paparicações e verbas estatais entre os “companheiros”


Um dos sinais mais óbvios da autenticidade humana de um movimento político é a sua capacidade de inspirar grandes obras de literatura. Todo movimento revolucionário, no início, tem esse dom, pela simples razão de que há sempre injustiças no mundo e a revolta contra elas é uma tendência natural do coração humano. Os revolucionários apenas se apropriam dela e a utilizam como canal para a conquista do poder. Invariavelmente, tão logo instalados no poder eles multiplicam e reforçam as injustiças em vez de eliminá-las.

Isso não acontece por uma coincidência ou por algum desvio dos ideais revolucionários, mas por efeito incontornável da própria mecânica revolucionária. Quem sobe ao poder em nome de uma sociedade futura, amaldiçoando a sociedade presente na sua totalidade, só se submete ao veredito do futuro e da História, colocando-se portanto acima do julgamento dos vivos. A cristalização do impulso revolucionário numa ditadura totalitária é assim o caminho normal e normativo das revoluções sociais e não uma distorção dos seus propósitos iniciais.

Daí que a literatura de inspiração revolucionária acabe logo cedendo lugar à literatura dos dissidentes, dos prisioneiros de consciência, dos exilados e desiludidos. E invariavelmente a segunda é mais forte e mais inspirada que a primeira, porque não reflete os ideais e slogans de um movimento político, mas a experiência direta dos horrores da revolução consolidada.

Por isso é que, se nos países capitalistas se produz alguma boa literatura comunista, nos países comunistas a única grande literatura que aparece é anticomunista.

Nada do que o comunismo em ascensão produziu na Rússia, nem mesmo A Mãe, de Máximo Gorki, ou O Don Silencioso, de Vladimir Sholokov, pontos altos da literatura soviética, se compara às obras-primas de Joseph Brodsky, Alexander Zinoviev, Alexander Soljenítsin, Ossip e Nadja Mandelstam. 

No caso cubano, a diferença é mais pronunciada ainda. Quem ainda se lembrará de qualquer romance ou poema pró-castrista, se pode ler os livros de Guillermo Cabrera Infante, Severo Sarduy, Reinaldo Arenas e Leonardo Padura? Entre aqueles que não se opuseram frontalmente ao regime, ainda vale a pena ler Alejo Carpentier, que no seu período de burocrata paparicado pela ditadura nunca mais voltou a escrever algo do porte de El Reyno de Este Mundo, de 1949, e José Lezama Lima, Paradiso, de 1966, espancado pela crítica oficial cubana por sua estética “burguesa”.

Na esfera da filosofia e das ciências sociais, a penúria intelectual daquilo que proveio dos países da Cortina de Ferro contrasta de maneira patética com a riqueza e criatividade da produção marxista... nas democracias capitalistas.

Se os movimentos revolucionários inspiram ideias e obras de arte enquanto lutam contra um governo estabelecido, tão logo chegam ao poder dedicam-se com empenho e diligência em secar todas as fontes, em reduzir tudo a um deserto mental mil vezes mais seco e estéril do que qualquer ditadura reacionária jamais logrou instaurar.

No tempo dos militares, a esquerda queixava-se do empobrecimento intelectual do ambiente, ao qual no entanto ela própria, tanto quanto a direita, dava um brilho e um vigor que hoje seriam impensáveis.

Vejam só algumas amostras casuais de livros publicados naquela fase que os esquerdistas, por demagogia ou loucura, descreviam como o fundo do poço cultural.
Por: Olavo de Carvalho Publicado no Diário do Comercio

sábado, 31 de outubro de 2015

SHOWS DE MORTE

Barack Obama lamenta que os ataques mortais com armas sejam hoje uma "rotina" nos Estados Unidos. De fato, impossível discordar.

Leio na imprensa a lista dos grandes atentados solitários que aconteceram no país desde que Obama chegou à Casa Branca e os números arrepiam qualquer um. Do Alabama ao Connecticut; de Nova York ao Arizona; do Texas à Califórnia; de Washington à Virgínia, são dezenas de cadáveres.

E o filme dos massacres, com ligeiras variações, é quase sempre o mesmo: o homicida é um ser "recluso e raivoso", para usar as palavras desta Folha sobre o assassino do Oregon, que começa a cultivar ideias de destruição e martírio.

Um dia, cansado da sua própria marginalidade, ele sai para uma escola, um shopping, uma rua e atinge finalmente a celebridade.

Disse "celebridade"? Disse bem. Os especialistas no assunto podem avançar com as causas habituais para as tragédias. A violência dos filmes. A violência dos videogames. A violência da própria "sociedade capitalista", que adora vencedores e despreza os perdedores.

E depois existem as armas, vendidas sem controle, que são um convite letal para que mentes débeis possam matar com facilidade.

Admito que tudo isso seja verdade, embora estranhe que países armados até aos dentes (como a Suíça, por exemplo) tenham um número diminuto de homicídios. Mas divago.

Porque quando acontece mais um massacre, meu primeiro instinto é ler os testemunhos que os próprios criminosos deixaram para trás.

Todos eles partilham a angústia do anonimato e a busca insana da consagração midiática. Chris Harper-Mercer, 26, o último da lista com 9 mortos na escola técnica de Roseburg, Oregon, é também o último exemplo: como o próprio escreveu, "parece que quanto mais gente você mata, mais você fica no centro das atenções". A fama depende do derramamento de sangue.

No fundo, os psicopatas que matam com regularidade são uma versão extrema dos concorrentes de um "reality show". Não cantam, não dançam, não transam em frente das câmeras. Preferem a destruição e a morte como forma de mostrar ao mundo os seus "talentos".

E todos têm uma certeza: os seus atos serão relembrados e reproduzidos infinitamente pelo labirinto das "redes sociais" –essas catacumbas que o poeta Dante teria retratado como um novo inferno.

As armas matam porque há psicopatas dispostos a usá-las. Mas o circo da morte renova-se continuamente porque a cultura do espectáculo em que vivemos 24 horas sobre 24 horas é o charco fétido que transforma os alienados de ontem em estrelas, hoje.
Por: João Pereira Coutinho Publicado na Folha de SP

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

COMO DESTRUIR UM FILHO

"Violar a lei": será correto usar esse verbo em faculdades de direito? Ou a palavra "violar" pode ser ofensiva para alunas e alunos, despertando em alguns deles memórias traumáticas que devem permanecer nos calabouços da consciência?


O leitor leu o início da coluna e pensa que o autor enlouqueceu nos últimos tempos. Quem me dera. O caso aconteceu mesmo em Harvard: estudantes "desconfortáveis" com o termo pediram aos professores para o evitarem.

A história é relatada na revista "Atlantic Monthly" e os autores, Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, não se limitam às "violações" da lei.

Segundo os próprios, crescem nos Estados Unidos os casos de "microagressões" –palavras, conceitos, meras alusões que põem em risco o "bem-estar emocional" dos alunos. E os alunos têm direito a esse "bem-estar". As universidades devem ser "zonas de conforto" onde nunca se deve escutar aquilo de que não se gosta.

É exatamente por isso que os professores universitários são aconselhados a emitirem avisos prévios antes de ensinarem matérias potencialmente ofensivas.

Um exemplo do artigo: se o assunto é literatura, o professor deve avisar previamente a turma que "misoginia" e "abusos físicos" fazem parte da obra "O Grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald. Caso contrário, uma alma mais sensível pode desmaiar em plena classe e a carreira do professor estará terminada. Pergunta óbvia: como se chegou até aqui?

O artigo culpa os pais dos universitários de hoje, que educaram as suas crianças com uma obsessão pela segurança que não existia em gerações anteriores. É uma excelente hipótese e, por mero acaso, um livro lido recentemente ajuda a entender essa loucura.

Intitula-se "How to Raise an Adult" (como educar um adulto), foi escrito por Julie Lythcott-Haims e a sentença da autora, antiga decana da Universidade de Stanford, é glacial: antigamente, os pais preparavam os filhos para a vida; hoje, os progenitores preferem proteger os filhos da vida –e isso vê-se nas pequenas coisas e nas grandes coisas.

Começa logo na infância, quando o perigo de pedófilos, sequestradores ou marcianos obriga os pais modernos a aprisionarem os filhos em casa. Resultado: a epidemia da obesidade infantil, alimentada por horas de sedentarismo, suplantou em muito os acidentes normais das antigas brincadeiras da infância.

Mas a obsessão securitária dos "pais-helicóptero" (expressão que designa os espécimes nascidos entre 1946 e 1964) não fica na infância. Depois de proteger os filhos nos primeiros anos, é preciso continuar a tratá-los como flores de estufa na escola e até na universidade. Como?

Escolhendo por eles (cursos, amigos, até tempos livres); pensando por eles (com exércitos de explicadores para todas as matérias curriculares); e até vivendo por eles (de preferência, medicando qualquer comportamento "desviante", como a preguiça saudável ou o excesso de energia).

Essa atitude tem um preço e o preço encontra-se na quantidade de alunos que a autora encontrava na universidade literalmente à deriva: insones; deprimidos; ansiosos; incapazes de tomarem uma decisão por medo psicótico de fracassarem.

E, quando a decisão era inevitável, o comportamento era uniforme: um telefonema aos pais para que fossem os pais a decidirem por eles.

Para Julie Lythcott-Haims, a educação "moderna" fez dos "adultos" de hoje seres "existencialmente impotentes". Porque os pais, na ânsia de tudo protegerem e controlarem, alimentaram nos filhos uma mentalidade de vítimas: seres frágeis e amedrontados que simplesmente não sabem como "funcionar" no mundo que existe fora do aquário.

Não será de admirar que, educadas perpetuamente como crianças, as crianças universitárias de hoje vejam "microagressões" em cada frase, curso ou professor. Tudo é ameaça para quem foi constantemente protegido de qualquer ameaça. Um livro. Uma frase. Um conceito. E, claro, um preconceito.

No livro, Julie Lythcott-Haims lamenta que os filhos de hoje não tenham a atitude dos filhos de ontem: uma certa rebelião existencial contra a autoridade dos progenitores, condição primeira para forjarem uma identidade independente. E poderem voar com as próprias asas.

Essas asas não existem. Elas foram destruídas pelo amor sufocante dos pais durante anos e anos de gaiolas douradas. 
Por: João Pereira Coutinho Publicado na Folha de SP

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

EMBORA DEVA SER TOTALMENTE DESCRIMINALIZADA, A MACONHA É REPULSIVA



N. do E.: o IMB sempre foi um inflexível defensor da descriminalização de absolutamente todos os tipos de drogas. No entanto, e por motivos óbvios, a defesa da descriminalização das drogas de maneira nenhuma implica a defesa do uso de drogas, como alguns caluniadores gostam de inferir. O artigo a seguir é um perfeito resumo de nossa posição.


Podem me odiar à vontade, mas irei dizer mesmo assim: a maconha é nojenta.

Fumar maconha é, dentre todos os tipos de fumo, o pior hábito de todos. A coisa fede. O cheiro é muito pior que o de cigarros convencionais. Não dá para ficar em um mesmo ambiente com pessoas fumando maconha.

A maconha também deixa as pessoas abobadas e com um raciocínio lento. Consequentemente, ela destrói encontros sociais ao tornar toda a ocasião menos inteligente. No que mais, é extremamente rude fumar maconha perto de pessoas que, como eu, não toleram o cheiro da coisa e nunca encostariam em um baseado. Especialmente irritante é a tentativa de menosprezar e escarnecer aqueles de nós que têm interesse zero em fumar uma planta que transforma o fumante em um otário.

É por esse motivo que devo me confessar particularmente estupefato ao constatar quão estranhamente badalada e em voga a maconha se tornou.

Quando eu era criança, fumar maconha era considerado um ato depravado e perigoso. Hoje, se você falar isso perto de praticamente qualquer pessoa com menos de 30 anos de idade, ela lhe dará um sermão sobre quão maravilhosa a maconha realmente é.

Os defensores da maconha podem citar todos dados supostamente científicos que quiserem, mas eu sei mais apenas por causa da minha experiência de vida. Eu ainda me lembro de quando a maconha deixou de ser proibida e passou a ser modismo. Eu fazia faculdade no estado da Virginia e morava com outros quatro caras no andar de cima de uma casa. Eles eram absolutamente viciados na planta.

Todas as noites — e eu realmente enfatizo que eram todas as noites —, eles juntavam dezenas de latas de cerveja, ligavam o rádio em uma estação de rock, acendiam seus baseados e fumavam ininterruptamente das 5 da tarde até 1 da manhã. Eles simplesmente ficavam sentados no sofá conversando coisas idiotas em um tom de pseudo-profundidade. Eles falavam sobre o universo, sobre a vida em outros planetas, sobre personagens de desenho animado e por aí vai.

Normalmente, eu jamais teria má vontade para com a maneira que outros voluntariamente escolhem se divertir, mas fazer isso todas as noites? Com o tempo, não consegui conter meu crescente sentimento de desprezo.

Eles continuamente me pressionavam a se juntar a eles. A coisa foi se transformando em alta pressão. Inevitavelmente, acabei cedendo e dei uma tragada seguida de uma inalada. Fiquei instantaneamente nauseado. Assaltei a geladeira e fui para a cama, odiando a mim mesmo. Nunca mais fumei novamente e jamais o farei.

Desde então, nos anos subsequentes, fumar maconha deixou de ser visto como um hábito de derrotados e se transformou em uma cultura universal entre os jovens. Parece haver dezenas de maneira de fumar maconha — enrolada num papel, cachimbo, bongos, comestível etc. Não consigo me manter atualizado. E as variedades de maconha disponíveis surpreendem. Sempre que me oferecem a erva, recebo uma completa apresentação sobre a modalidade em questão, como se estivesse em um restaurante chique participando de uma degustação de vinhos.

As alegações feitas em defesa da substância estão cada vez mais implausíveis. Se você realmente parar para ouvir as pontificações dos usuários, terá a certeza de que a maconha é o caminho mágico para uma vida longa, bem-sucedida e repleta de êxtase. A única porta de entrada que ela oferece é para a felicidade.

Já o que eu vejo é muito mais óbvio. A maconha transforma você em um otário. Há um quê do personagem Salsicha, do desenho Scooby-Doo, em cada fumante: aquele jeito preguiçoso, levemente desmiolado, de andar rastejante e de fala lenta e desconexa, resultantes de se querer utilizar a maconha para anestesiar reações normais às ansiedades da vida.

Provavelmente é verdade que a maconha não seja mortífera, e não estou aqui para conjecturar se ela é prejudicial à saúde. Os perigos da maconha são mais sutis. Seu uso pressupõe que todas as ansiedades desta vida devem ser abolidas, sempre e a cada tragada. Inale a fumaça mágica e exale todos os seus problemas.

Nisso eu não acredito. A mente necessita de ansiedade; ela tem de ter esse treino, especialmente em idades mais jovens. Desapontamentos, frustrações, medos e preocupações devem fazer parte da narrativa da vida, pois estes sentimentos apenas se intensificam com o avançar do tempo. Se descobrirmos uma maneira mágica de entorpecer nossos sentidos em relação a estes sentimentos, e a uma idade jovem, como poderemos funcionar bem em um mundo adulto?

No que mais, e deixando tais considerações de lado, a estética da maconha é totalmente cafona. Já a testemunhei inúmeras vezes. Sempre que sou convidado para uma "reuniãozinha" após algum evento público, sempre fico com a esperança de que não envolva maconha. E quase sempre erro. Tão logo a fumaça (e seu fedor) começa a envolver o recinto, o nível da conversação entra em queda livre.

E então eu perco todo o dia seguinte tentando tirar o cheiro das minhas roupas e do meu cabelo. É de embrulhar o estômago.

É também algo que me entristece ver pessoas me julgando tão severamente pelo simples fato de eu não ser um usuário de maconha. Já tive amizades extremamente promissoras que foram bruscamente interrompidas tão logo confessei que não fumava maconha. A pessoa, de início, parecia apenas desapontada com a revelação. Depois, simplesmente passou a agir como se "bem, se você não fuma maconha, você jamais poderá ser meu amigo".

Quaisquer que sejam as consequências que a maconha tem sobre as pessoas, uma postura de tolerância em relação aos não-usuários não é uma delas. "Preconceito fanático" é uma descrição cabível. Aliás, nunca entendi como foi que se tornou socialmente obrigatório ser agressivo com os fumantes de tabaco, mas infinitamente tolerante — e até mesmo festivo — com os fumantes de maconha.

Apenas para deixar minha opinião bem clara, sou totalmente a favor da descriminalização da maconha (e de todas as drogas). Não quero que maconheiros sejam encarcerados. Não quero que sejam molestados. Não quero nem mesmo que a maconha seja tributada. Se você quer cultivar uma planta, empacotá-la, vendê-la e consumi-la, por mim tudo bem. Assim como quem não toma banho e se veste mal, usuários de maconha causam danos apenas a si próprios.

Já está bastante óbvio que, quanto mais a polícia persegue a maconha, mais popular ela se torna. Tenho, aliás, uma crescente suspeita de que, com efeito, foi a própria ilegalidade que gerou a implausível popularidade da maconha. Fumar maconha é uma maneira fácil de "ser contra as regras" e "desafiar o status quo". O melhor argumento em prol da retirada da maconha da lista dos frutos proibidos é que sua própria normalidade já a submeteria ao tribunal do bom gosto e das boas maneiras. E, neste tribunal, estou praticamente certo de que a maconha seria condenada.

Adoraria ver o regresso dos bons e velhos tempos em que o uso da maconha era amplamente visto como depravado e ignóbil, um hábito de derrotados. Porém, para regressarmos a isso, será essencial abolir a guerra estatal contra a maconha, para que padrões normais (e não-estatais) de desaprovação social — mais perspicazes, mais severos e mais eficazes — voltem à cena. Quando isso ocorrer, a realidade de que fumar maconha é um hábito nojento voltará a ser óbvia para todos.


domingo, 25 de outubro de 2015

CHAVÕES E REALIDADES

Que o sr. Lula seja apenas um ladrãozinho egoísta sem vínculo ou compromisso com o comunismo internacional é uma das idéias mais estúpidas e indefensáveis que já passaram por um cérebro humano.


A esquerda mundial está hoje muito mais unificada e organizada do que sessenta ou setenta anos atrás. Ganhou em força de atuação conjunta o que perdeu no debate ideológico.

Chavões, frases-feitas, clichês, estereótipos ou como se queira chamá-los existem para que o sujeito que não pensou num assunto possa obter a concordância imediata de outro que também não pensou. Onde quer que você ouça ou leia um desses maravilhosos substitutivos do pensamento, pode ter a certeza de que está assistindo a um encontro de dois corações que se apóiam e se reforçam mutuamente sem nenhuma interferência do objeto sobre o qual fingem estar conversando.

Por exemplo, quando um cidadão afirma: “Esquerda e direita são conceitos superados”, o que ele quer dizer é: “Eu sou superior a essas coisas.” O ouvinte, mais que depressa, responde: “Eu também.” E saem os dois muito contentes da sua superioridade, enquanto as duas forças inexistentes continuam a disputar o governo, xingar-se uma à outra, boicotar-se mutuamente e até trocar tiros, como se existissem.

A verdade é que nenhum fato ou coisa deste mundo, por pequeno e modesto que seja, se deixa apreender na linguagem dos chavões. Estes não têm nada a ver com a descrição de realidades, mas apenas, na mais bem sucedida das hipóteses, com a expressão da harmonia ou desarmonia entre as almas do falante e do ouvinte. Isso é assim pela simples razão de que nenhuma realidade vem junto com a linguagem pronta que a expressa, mas em cada caso a sua descoberta requer a invenção da linguagem apropriada para expressá-la. É por isso que os autores de grandes descobertas na filosofia são também inventores de linguagens originais. Conforme o talento literário de cada um, elas podem ser límpidas e claras como as de Platão ou Leibniz, ou então abstrusas e indecifráveis como as de Kant ou Heidegger, mas sempre originais, únicas e adequadas aos seus fins.

O chavão é, por excelência, a linguagem do auto-engano que busca transmutar-se em engano alheio, se possível em engano geral. É a linguagem de quem fecha os olhos ao objeto e os arregala para ver a reação do ouvinte. O pobre do objeto, do assunto, da questão, fica fora da conversa como um mendigo que espia pela janela do Ritz.

Se voltamos ao exemplo acima e, em vez de participar da deliciosa harmonia entre o falante e o ouvinte, voltamos os nossos olhos ao objeto da conversa, em cem por cento dos casos notamos que ele é bem diferente do que o imaginam aqueles que nem mesmo tentaram imaginá-lo, mas se limitaram a usá-lo como pretexto de um intercâmbio social.

Desde logo, se há pessoas que se dizem de esquerda ou de direita e que agem politicamente sob essas bandeiras, é evidente que esquerda e direita existem como agrupamentos políticos reais que sob esses nomes se reconhecem e por eles distinguem os “de dentro” e os “de fora”. Se suprimimos os nomes teremos de designá-los por outros da nossa própria invenção, nos quais os dois grupos não se reconhecerão e que só servirão para complicar o vocabulário.

Como autodenominações de grupos políticos e símbolos da sua identidade, os termos “esquerda” e “direita” não estão superados de maneira alguma. Expressam uma realidade sociológica inegável.

Faz um pouco mais de sentido dizer que seus respectivos discursos ideológicos foram ultrapassados pelo desenvolvimento crescentemente complexo do estado de coisas, que nenhum deles expressa corretamente. Teremos, com isso “superado os conceitos” de esquerda e direita? De maneira alguma, pois essa acusação é a mesma que a esquerda e a direita se fazem mutuamente, e, se não percebemos nem mesmo isso, é que ignoramos o estado de coisas ainda mais profundamente do que as duas juntas, e nós é que estamos superados. O sapientíssimo se revela um bobo na hora mesma em que tenta posar de superior.

Deveria ser óbvio para todo mundo, mas para muitos é quase um segredo esotérico inacessível, que a qualidade boa ou má, a veracidade ou falsidade das idéias de um grupo não tem nada a ver com a sua existência ou inexistência como grupo. Argumentar que duendes não existem não prova que inexistam grupos que acreditam em duendes.

Ainda mais bobo é aquele que afirma desprezar toda “retórica ideológica” e, em vez disso, examinar somente os interesses materiais malignos por trás da aparente disputa de ideologias, acreditando com isso estar firmemente assentado no terreno dos fatos e a salvo de idéias ilusórias. Mas, em primeiro lugar, apontar interesses materiais por trás de um discurso ideológico é precisamente o que as ideologias inimigas fazem umas com as outras. E o fazem quase sempre com razão, porque toda ideologia, como já a definia Karl Marx, é um “vestido de idéias” (Ideenkleid) costurado para encobrir um interesse material, um projeto de poder, uma ambição mundana. Por outro lado, é certo que, se esses interesses se apresentassem nus e crus, sem a embalagem ideológica, seriam imediatamente desmoralizados e não enganariam a ninguém. A ideologia, portanto, é parte integrante do projeto maligno, que não pode ser compreendido sem referência a ela. Por fim, também é certo que, se um discurso ideológico, uma vez formulado, serve de símbolo verbal da identidade de um grupo, o qual sem essa identidade estaria privado da possibilidade de agir em conjunto, o conteúdo desse discurso não será nunca totalmente alheio à conduta real do grupo, que em certa medida será obrigado a ajustar suas ambições de poder às promessas e valores do discurso. A tensão entre a identidade do grupo e os interesses materiais em jogo é um elemento permanente da vida político-ideológica, e fazer abstração da ideologia para enfocar somente os interesses materiais isolados é condenar-se a não compreendê-los de maneira alguma.

Um exemplo característico é o chavão mais em moda hoje em dia, segundo o qual o sr. Lula não é comunista nem esquerdista, apenas um político sem filiação ideológica que enriqueceu ilicitamente. Esse chavão soa agradável em diferentes áreas do espectro ideológico. Para o esquerdista, ele é a fórmula mágica para isentar de toda culpa pelos crimes do PT a corrente política que o criou, que o incensou, que lhe deu a hegemonia e que, se ele for para o buraco, pretende continuar no poder sob outros nomes quaisquer. Para o direitista, fornece um poderoso argumento retórico: “Estão vendo como na esquerda ninguém presta, como são todos uns ladrões e salafrários?” E, para o homem “superior a ideologias”, é mais uma prova da sua superioridade sublime. Todos os pretextos servem, portanto, para o interessado se fazer de bonito mediante a supressão de pelo menos duas perguntas:

1) Se o Lula é apenas um ladrãozinho sem compromisso com o comunismo, por que distribuiu tanto dinheiro a ditaduras e partidos comunistas, quando podia guardá-lo para si mesmo? 

2) Por que as FARC o homenagearam por ter salvado in extremis o comunismo continental, em vez de acusá-lo de usar o comunismo em benefício próprio?

Que o sr. Lula seja apenas um ladrãozinho egoísta sem vínculo ou compromisso com o comunismo internacional é uma das idéias mais estúpidas e indefensáveis que já passaram por um cérebro humano. De um lado, há o fato incontestável de que ele é aceito e celebrado por todos os governos e partidos comunistas do mundo não só como um parceiro e irmão leal, mas até como uma espécie de herói, de salvador providencial. Se ele alcançou essa posição sem nada fazer pelo comunismo e agindo sempre somente no interesse próprio, então ele enganou a todos os líderes e governos comunistas do universo, incluindo os serviços secretos de Cuba e da China, tidos como extraordinariamente eficientes e maliciosos, só não logrando tapear o tirocínio superior dos comentaristas brasileiros de mídia. De outro lado, resta o fato igualmente incontestável de que nenhum espertalhão logrou jamais utilizar-se do comunismo em benefício próprio sem beneficiar ainda mais algum governo ou partido comunista -- pelo menos não logrou fazê-lo sem pagar com a vida. Willi Münzenberg, que era um milhão de vezes mais esperto que Lula, foi simplesmente acusado de tentar fazer isso, e já o assassinaram antes que alguém pudesse verificar se fez ou não. Não é humanamente concebível que um movimento que condenou à morte cem milhões de pessoas pudesse poupar generosamente a vida de um vigarista que o ludibriasse de forma tão humilhante ante os olhos da humanidade inteira. Muito menos concebível é que depois disso continuasse a aplaudi-lo e paparicá-lo como o fazem os governos de Cuba, da China, da Venezuela etc. Essa hipótese é tão absurda, tão monstruosamente inverossímil, que acreditar nela mesmo por um minuto e em segredo já seria prova de uma imbecilidade descomunal. A desenvoltura ingênua com que tantos no Brasil a alardeiam sem a menor inibição é a prova definitiva de que algo no cérebro nacional não vai bem.

Erros monumentais como esse não aparecem sozinhos. Provêm de uma ignorância estrutural, profunda e dificilmente reversível, quanto à natureza e função das ideologias em geral. Os palpiteiros que superlotam a mídia e as cátedras imaginam que ideologia seja algo como uma crença religiosa, que exija a adesão profunda e sincera das almas. Nessa perspectiva, um comunista, por exemplo, poderia ser um “verdadeiro crente” ou um mero oportunista sem crença nenhuma. Essa diferença pode ter existido em outras épocas, quando a URSS baixava as Tábuas da Lei e condenava como heréticos os trotskistas, os revisionistas etc. De fato, não pode existir “verdadeiro crente” sem um texto canônico obrigatório para todos. Mas já faz três décadas, pelo menos, que nada disso existe no movimento comunista. A concepção eclesiástica do Partido como guardião da doutrina infalível foi substituída pela flexibilidade de um pluralismo ilimitado onde todos os discursos ideológicos são bons, desde que seus adeptos consintam em agir segundo uma estratégica unificada. Concomitantemente, a antiga hierarquia vertical foi trocada por uma organização mais flexível sob a forma de “redes”, onde as palavras-de-ordem não despencam das alturas olímpicas de um Comitê Central mas se espalham quase anonimamente, como se fossem meras exigências do senso comum em vez de ordens do Camarada Fulano ou Beltrano. A substituição da unidade ideológica pela unidade puramente estratégica, concebida nos anos 80 do século passado e testada com sucesso espetacular na guerrilha de Chiapas, México, em 1994 – chamada por isso “guerrilha pós-moderna”--, permitiu que o movimento comunista não somente sobrevivesse incólume à queda da URSS, mas multiplicasse sua força e capacidade de ação. A esquerda mundial está hoje muito mais unificada e organizada do que sessenta ou setenta anos atrás. Ganhou em força de atuação conjunta o que perdeu no debate ideológico. Quem não percebe isso não merece ser ouvido em matéria de política.

Para tornar as coisas ainda mais incompreensíveis aos sábios iluminados, resta o fato de que “esquerda” e “direita” só são entidades simetricamente opostas nos dicionários. Na vida real, “esquerda”, hoje, não é um “rótulo ideológico” e sim um movimento unificado e organizadíssimo sem nenhuma ideologia definida, ao passo que “direita” é na melhor das hipóteses o nome de um amálgama confuso de discursos ideológicos inconexos, ao qual não corresponde nenhuma organização ou movimento unificado nem mesmo em escala nacional, quanto mais mundial. Não são espécies do mesmo gênero. Aquele que assim as concebe para fazer-se de superior a ambas, como um domador que cavalga simetricamente dois cavalos com um pé em cada um, é na verdade um acrobata impossível com um pé num cavalo de carne e osso e o outro no conceito abstrato de um cavalo hipotético.Por: Olavo e Carvalho Publicado no Diário do Comércio.



sábado, 24 de outubro de 2015

COM DILMA À FRENTE, O BRASIL SEGUE EM QUEDA LIVRE. E RÁPIDA.

Eis aí o Brasil, mais de três anos antes do dia previsto para o tão esperado encerramento do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, empenhado num vigoroso sprint ladeira abaixo. A corrida já começou faz tempo, como todo mundo sabe, e ainda tem muito chão pela frente até a linha da chegada, mas provavelmente está num dos seus melhores momentos ─ ganhou aquele impulso natural e crescente que a força da gravidade, esta velha conhecida de todos nós, impõe às coisas que estão caindo. Se subiu tem de descer, anotava Raul Seixas em suas observações gerais sobre o funcionamento da vida, e é isso, precisamente, o que está acontecendo neste 2015 que entra em sua reta final.

Com uma particularidade: o presente governo, reeleito um ano atrás, começou a cair antes mesmo de concluir a subida. Teria chegado ao fundo do poço? Ninguém é louco para se arriscar com palpites assim, não nesta revista; não dá para saber a profundidade exata do poço, e a Redação está formalmente instruída a não se meter com equações que só têm a incógnita. O certo, pelo registro dos fatos, é que a economia e a politica estão em pleno acordo para se manter em queda ampla, livre e rápida. Esperar qualquer outra coisa é perda de tempo.

A mensagem que o governo Lula-Dilma-PT está passando aos cidadãos brasileiros, junto com o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, os partidos e quem mais consegue mandar em alguma coisa neste país, é a seguinte: “Não esperem nada daqui. Não vamos ajudar ninguém em coisa nenhuma. Governar, então, nem pensar. Estamos cuidando exclusivamente de nós mesmos. O Brasil que vá para o diabo que o carregue. Virem-se”. A presidente da República não governa, pois não trabalha – dedica 100% do tempo à atividade de não ser deposta, mesmo porque a última coisa de que precisa é tornar-se uma ex-presidente e, portanto uma cidadã igual aos demais brasileiros, nestes momentos de trovoada que se formam a partir da legislação penal.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha – que virou de fevereiro para cá o grande inimigo do governo e do PT, depois de passar a carreira toda na mais perfeita paz com ambos, e talvez esteja a caminho de tornar-se um grande amigo de novo – concentra todos os seus esforços em salvar o próprio couro. O PT só pensa em grudar-se em seus empregos, acesso a verbas públicas e oportunidades de negócio com a máquina do Estado. Lula está plenamente empenhado em safar-se da maré enchente de denúncias contra dois filhos, um sobrinho, uma nora e sua própria atuação como lobista de empreiteiras. Os líderes da oposição têm como prioridade eliminar-se uns aos outros. Os tribunais de justiça querem mandar na vida política. A única proposta concreta que o governo tem para oferecer à população é criar de novo o imposto do cheque. Os ministros, sem exceção, dizem que é impossível lidar com um único problema urgente porque não têm dinheiro – e o pior é que não têm mesmo. Enfim: põe ladeira abaixo nisso.

Todos os personagens responsáveis por esse angu têm em comum, entre si mesmos, a perfeita convicção de que não são responsáveis por absolutamente nada, o que torna inútil qualquer tentativa de apresentar-lhes os fatos – é como dar um espelho a um cego. Dilma quebrou o Brasil com uma inépcia jamais atingida antes dela, mas acha que não tem nada a ver com nenhum dos desastres que criou; diz que “a sociedade” tem de resolver os problemas e, enquanto isso, revela-se desapontada com as dificuldades que existem para estocar o vento. Lula declara que receber dinheiro de empresas comprovadamente culpadas de atos de corrupção é um atividade “patriótica”, e da qual tem “orgulho”. A solução que ele e seu partido têm para a crise politica é comprar aliados através da privatização do aparelho do Estado; para a crise econômica recomendam dobrar os erros já testados por Dilma nos últimos cinco anos.

É tempo de murici, como dizia o coronel Tamarindo em sua retirada na Guerra de Canudos. Cada um que cuide de si.
Por: J. R. Guzzo  Publicado na revista EXAME

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

COMO PORTUGAL COMPROU O NORDESTE DOS HOLANDESES POR R$ 3 BI

Image copyrightWikipediaImage captionQuadro do pintor brasileiro Victor Meirelles de Lima retrata Batalha dos Guararapes (1648/1649), que encerrou período do domínio holandês no Brasil

Mesmo depois de terem sido derrotados, os holandeses receberam dos portugueses o equivalente a R$ 3 bilhões em valores atuais para devolver o Nordeste ao controle lusitano no século 17.

O pagamento ─ que envolveu dinheiro, cessões territoriais na Índia e o controle sobre o comércio do chamado Sal de Setúbal – correspondeu à época a 63 toneladas de ouro, como conta Evaldo Cabral de Mello, historiador e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), no livro O negócio do Brasil, que está sendo relançado em uma nova edição ilustrada pela Editora Capivara, de Pedro Correia do Lago, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional. A edição original foi lançada em 1998.

Em valores atuais, o montante equivaleria a 480 milhões de libras esterlinas (ou cerca de R$ 3 bilhões). O cálculo foi feito à pedido da BBC Brasil por Sam Williamson, professor de economia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, e co-fundador do Measuring Worth, ferramenta interativa que permite comparar o poder de compra do dinheiro ao longo da história.

"Esta foi a solução diplomática para um conflito militar. O pagamento fez parte da negociação de paz. O que não quer dizer que a guerra não tenha sido necessária", afirmou Cabral de Mello à BBC Brasil.
'Pechincha'Image copyrightWikipediaImage captionBandeira da Nova Holanda, como ficou conhecida a colônia da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no Brasil

Os holandeses ocuparam o Nordeste por cerca de 30 anos, de 1630 a 1654, em uma área que se estendia do atual Estado de Alagoas ao Estado do Ceará. Eles também chegaram a conquistar partes da Bahia e do Maranhão, mas por pouco tempo.

Por trás das invasões, havia o interesse sobre o controle do comércio e comercialização da matéria-prima.

Isso porque, como conta Cabral de Mello, antes mesmo de ocupar o Nordeste, os holandeses já atuavam na economia brasileira com o apoio de Portugal, processando e refinando a cana de açúcar brasileira.Image captionGravura holandesa retrata o cerco a Olinda em 1630

"Quando o reino português foi incorporado pela Espanha, essa parceria acabou. Os espanhóis romperam esse acordo, que rendia altos lucros aos holandeses. Além disso, a relação entre os holandeses e os espanhóis já não era boa, já que a Holanda havia se tornado independente do império espanhol em 1581", diz o historiador.

Durante o período em que ocuparam parte do Nordeste, os holandeses foram responsáveis por inúmeras mudanças importantes, inclusive urbanísticas, principalmente durante o governo de Johan Maurits von Nassau-Siegen, ou Maurício de Nassau.

Com o intuito de transformar Recife na "capital das Américas", Nassau investiu em grandes reformas, tornando-a uma cidade cosmopolita. Apesar de benquisto, ele acabou acusado por improbidade administrativa e foi forçado a voltar à Europa em 1644.
'Sem heroísmo'Image captionQuadro do pintor espanhol Juan Bautista Maíno retrata reconquista de Salvador pelas tropas hispano-portuguesas (1635)

Naquele ano, Portugal já havia se separado da Espanha, mas demorou para enviar soldados para retomar o Nordeste. A região só foi reintegrada em janeiro de 1654.

Cabral de Mello, que é especialista no período de domínio holandês, diz que a tese de que os holandeses foram expulsos pela valentia dos portugueses, índios e negros "não é completa".

"Os senhores de engenho locais financiaram a luta pela expulsão dos holandeses, já que deviam mundos e fundos à Companhia das Índias Ocidentais, que lhe havia emprestado dinheiro. Eles, no entanto, não tinham como pagar a dívida", explica o historiador.

"Os holandeses acabaram derrotados, mas não sem antes pressionar Portugal pelo pagamento dessa dívida, inclusive chegando a bloquear o Tejo (Rio Tejo). O pagamento não foi feito em ouro, mas um observador da época fez a correspondência para o metal precioso".

"Portugal teve de pagar 10 mil cruzados aos holandeses. Também fez parte do acordo a transferência do controle de duas possessões territoriais portuguesas na Índia ─ Cranganor e Cochim ─ e o monopólio do comércio do Sal de Setúbal".

Por: Luís Guilherme Barrucho - @luisbarruchoDa BBC Brasil em Londres

terça-feira, 13 de outubro de 2015

ORGANIZAÇÃO SUSTENTÁVEL

- Se você tem metas para um ano. Plante arroz. Se você tem metas para 10 anos. Plante uma árvore. Se você tem metas para 100 anos, então eduque uma criança. Se você tem metas para 1000 anos, então preserve o meio Ambiente. Confúcio

- Sustentabilidade é equação entre o que você poupa e o que você desperdiça. Luis Nykyson Lisboa Pinheiro

- Empresas amantes do termo sustentabilidade, caso não se reciclem, trairão a sua própria natureza. Marcelo Petter de Vargas

- Sinceramente, acho que sustentabilidade é uma desculpa pra ser pão-duro. Eu, por exemplo, não economizo energia pra salvar o planeta. É pra salvar meu bolso.Tiago Bezerra


Sustentabilidade tornou-se mais recentemente, uma palavra de ordem, um conceito da moda. Entende-se como sustentável a organização que adota parques e praças, cuida do verde, obedece às normas ambientais, que desenvolve posturas ecologicamente corretas, etc..


Ser uma organização sustentável é muito mais do que apenas isto. Cuidar do meio ambiente é apenas um dos requisitos daquilo que se pode chamar de sustentabilidade.


Organização sustentável é aquela concebida, convertida e gerida visando sua perenidade, para que contribua com o pleno desenvolvimento da comunidade na qual está inserida. Que detenha postura ética na relação com todos os agentes envolvidos, lembrando que ética está para o bem e o mal, como a moral está para o certo e o errado.


Também é  promover o desenvolvimento com o menor impacto possível ao meio ambiente.

Uma organização verdadeiramente sustentável tem como premissa atender pelo menos alguns dos itens abaixo relacionados tais como:

1- Utilizar os recursos naturais com parcimônia e na medida da necessidade.

2- Criar um ambiente em que as pessoas possam dar o melhor de si, com perspectivas de crescimento profissional e desenvolvimento pessoal.

3- Garantir atualização tecnológica na medida da necessidade da organização e de acordo com as normas ambientais visando o uso racional dos recursos.

4- Prover relações justas com os agentes envolvidos com a organização, como fornecedores de produtos e serviços, clientes, órgãos oficiais, consumidores e colaboradores.

5- Proporcionar os resultados financeiros mínimos necessários para os investimentos e retorno aos acionistas. Isto independe ser ser uma organização que visa lucro ou não.

6- Planejar e gerenciar a organização para que possibilite e promova o desenvolvimento das pessoas nela inseridas e com a quais se relaciona.

7- Adotar métodos de governança e modelos participativos que priorizem a transparência das ações e a observância dos procedimentos éticos. Estar de acordo com os regulamentos e normas.

8- Promover um nível elevado de competitividade, afim de garantir a expansão permanente da organização e a melhoria na sua posição como agente do desenvolvimento e do progresso da comunidade em que estiver inserida.

Algumas vantagens podem ser obtidas pelas organizações verdadeiramente sustentáveis, tais como: Redução de custos, melhora na imagem da organização, meio ambiente mais saudável, satisfação dos colaboradores, reconhecimento pela comunidade etc.

Acredito que boa parte dos bons resultados que determinadas organizações tem alcançado decorre da adoção dos princípios abordados de forma  resumida nesse tópico. Afinal, é neste  sentido mais amplo que entendo o conceito de “organização sustentável”.
Por: Aloysio Tiscoski



ESTADÃO OU ESTADINHO


Vou repetir a pergunta, hein? Que tamanho deve ter o Estado? Aliás, pra que serve o Estado, hein? Que funções ele deve exercer? Por que tanta incompetência, corrupção e incapacidade, hein? Continuo nessa praia hoje e já aviso que vou deixar uns progressistas aí bem nervosos.

Posso entrar?

Amigo, amiga, não importa quem seja, bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Este programa chega até você com o apoio do Itaú Cultural e do Auditório Ibirapuera que, você já sabe, né? Estão aí, olha, a um clique de distância. 

E quem vai levar o exemplar de meu livro ME ENGANA QUE EU GOSTO é o Salmir, lá de Minas Gerais…

“Bom dia, equipe do Café Brasil, Luciano Pires, Ciça e Lalá. Meu nome é Salmir e eu falo de Joatuba, Minas Gerais, to ido pro trabalho aqui e estou ouvindo o podcast Meritocracia2. Cara, eu não tenho ainda a capacidade intelectual de deixar um comentário tão qualificado igual dos nossos amigos ouvintes aí, que deixam comentários maravilhosos. Mas, eu liguei pra falar da capacidade do Café Brasil de nos fazer pensar nessa questão da meritocracia e, principalmente cara e principalmente me fazer prestar atenção numa letra de funk. Essa música aí do Sou patrão e não funcionário. Eu tenho aversão a funk, na verdade um pouco de nojo, eu nunca consegui prestar atenção em nenhuma letra de funk. Mas, no Café Brasil até uma letra de funk eu consigo ouvir. Etnão, parabéns mesmo pelas ideias aí, por colocar essa minhoquinha no cérebro e fazer a gente conseguir pensar em tudo de uma forma diferente do que foi apresentado até hoje. Um abraço e vida longa ao nosso cafezinho!”

Grande Salmir, eu já disse uma vez e repito aqui: os comentários mais legais não são apenas aqueles escritos com o intelecto, mas os que são feitos com o coração, como você acaba de fazer. Tem uma ideia, pega o fone e manda bala, cara. Muito obrigado. Ainda farei um Café Brasil só sobre esse funk aí que você não suporta, pode esperar.

Muito bem. Além do livro, o Salmir receberá um KIT DKT. O Kit DKT está recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculino e feminino. PRUDENCE é a marca dos produtos que a DKT distribui como parte de sua missão para conter as doenças sexualmente transmissíveis e contribuir para o controle da natalidade. O que a DKT faz é marketing social e você contribui quando usa produtos Prudence. 

Vamos lá então! Ô dois, hoje eu quero com sotaque mineirinho…

Na hora do amor, use

Lalá e Ciça – Prudence, uai. Ô sô!

Esta série sobre o tamanho do estado promete, viu? Você que ouve o Café Brasil sabe que a lente que eu uso aqui para observar o mundo não é a progressista, de esquerda, mas a liberal, com toques de conservador, não é? Aliás, tem um monte de gente muito brava comigo por conta disso, dizendo que antigamente eu era mais, digamos, imparcial… Imparcial uma ova! Eu sempre fui parcial. O que ocorre é que eu pisei no acelerador politizando mais o Café Brasil de dois anos para cá. E sabe por quê, hein? Porque entendi que os brasileiros estavam, como as crianças da fábula, seguindo Flautistas de Hamelin, hipnotizadas. Aquela música tão gostosa que os hipnotizava selava seus destinos. Era preciso tirá-las do transe, trocar de música, de músico, de instrumento. E isso não poderia ser feito sem tocar mais alto. Por isso abracei com força as ideias do liberalismo e pintei o Café Brasil com elas. Perdi ouvintes? É claro que sim. Mas eu tenho salvo muito mais gente…

Mas, vamos à nossa conversa sobre o Estado. A visão liberal clássica defende que o Estado deve ficar completamente fora da economia, sem se envolver nas funções da indústria, do comércio, do setor financeiro ou monetário, que devem ser entidades que operam num mercado completamente livre, sem qualquer tipo de intervenção estatal, seja para auxilio ou garantias de forma direta ou indireta. Todos os meios de produção devem pertencer à iniciativa privada e quem define a forma como esses meios são empregados, seu sucesso ou fracasso, é o sistema de preços fixado pelo próprio mercado.

O conceito do sistema de preços está na obra de Adam Smith, dois séculos e meio atrás. É, meu caro, isso não é invenção dos coxinhas não, viu… É o sistema de preços que regula a produção e o consumo de produtos e serviços. Num sistema de preços livre, o consumidor escolhe o produto que quer comprar – normalmente o mais barato – e o produtor escolhe que produto vai produzir – normalmente aquele que dá mais lucro. É o equilíbrio entre o desejo do cliente de comprar e o do produtor de produzir, que define os produtos e serviços que serão bem sucedidos. E isso acontece sem que o consumidor e o produtor tenham contato direto! É a tal mão invisível do mercado, aquela que assombra os progressistas. Os preços são fixados pela demanda: produtos que todo mundo quer, tem preços mais altos. E muitas vezes, os produtores baixam os preços para conquistar consumidores. Dois produtores disputando o consumidor constituem o que chamamos de concorrência, que é o que equilibra os preços. Quando o consumidor percebe que o preço de um subiu demais, ele muda para outro produtor mais barato e o mais caro vai ter que baixar seu preço se quiser o consumidor de volta. E assim o mercado vai se regulando.

Essa é a lei da oferta e da procura, que seu avô um dia falou para você: quando um produto é mais procurado, seu preço sobe. Quando a procura cai, o preço desce.

Nesse cenário, lucros e prejuízos são os definidores do sucesso e fracasso de cada empreendimento. Dê aquilo que o seu público quer ou enfrente a ruína econômica. É simples assim. O Estado não se envolve nem mesmo nos chamados serviços sociais como: educação, previdência ou saúde, por exemplo.

Essa visão dos liberais está apoiada na certeza de que a única forma de se conseguir aplicar recursos escassos com eficiência é através do sistema de preços do mercado. É ele que indica as escolhas, urgências e necessidades do público.

Mas sistemas de preços de mercado só podem existir onde houver propriedade privada e liberdade de troca voluntária entre os indivíduos. As pessoas têm de ser donas dos produtos e serviços e ter a liberdade de decidir onde, como, quando e por quanto os trocarão por dinheiro ou por outros produtos e serviços. É essa liberdade que mantém um sistema de preços sadio. Sem propriedade privada não há livre comércio e nem formação de preços pelo mercado.

No livre mercado os empreendedores podem arriscar o pescoço livremente, investindo seus recursos para produzir bens e serviços que eles acham que as pessoas vão querer. Se acertarem no gosto das pessoas, terão lucros, que serão investidos na aquisição de bens e serviços de outras pessoas que produzem coisas que eles precisam.

Divisão do trabalho, acumulação de capital e liberdade de trocas são os fatores que proporcionam o crescimento contínuo de nosso padrão de vida.

Putz! Lalá, a Ciça caiu da cadeira aí! Ajuda ela aí!

Que tal, hein? Podres Poderes, de Caetano Veloso, com o carioca André Muato, que eu acho que você nunca ouviu, não é? É muito bom isso! E olha a dica: a Ciça pega cada música tocada no programa … Aliás, depois do tombo eu não sei, normalmente ela pegacada música tocada no programa, procura a versão em vídeo e cola no roteiro deste programa no portalcafebrasil.com.br. E além disso, na home do portal, do lado direito em cima, tem um link para arádio Café Brasil que tem a programação 24 horas por dia, composta das músicas que tocam por aqui.

E quando o Estado passa a ser o dono dos meios de produção, acaba a liberdade dos consumidores e dos produtores e com ela o sistema de preços de mercado que possibilita comparações e competição entre os produtores. Desaparece a busca incessante por melhorias que permitam ganhar a competição pelo gosto do cliente. É por isso que os serviços estatais jamais serão satisfatórios. Você pode ver trabalhando, por exemplo, num sistema de saúde estatal, pessoas bem intencionadas, bem treinadas e muito motivadas, pode ter equipamentos modernos, processos redondos e mesmo assim não apresentar serviços satisfatórios. No sistema estatal não há risco de falência, de demissão, de fuga para o concorrente. A incompetência não é punida. Se o sistema quebrar, o Estado aumenta os impostos e pronto. Se o sujeito é incompetente, fica por lá anos a fio, pois tem estabilidade de emprego.

Sem o risco da recusa do consumidor aos produtos e serviços que o Estado oferece, a acomodação é inevitável. Isso faz parte da natureza humana.

É o risco de perder, de se machucar, de morrer, de quebrar, de ser demitido, de sofrer dor, que nos impele a sempre querer melhorar.

No pain, no gain.

É o empreendedorismo, o gosto por correr riscos e, especialmente, a possibilidade de ser recompensado pelos riscos corridos que nos empurram para a frente. O Estado não tem isso. O Estado não gosta disso. O Estado não quer isso. Essas são ferramentas da meritocracia. Ferramentas capitalistas.

Caiu de novo

Você ouve O CIO DA TERRA, de Milton Nascimento e Chico Buarque, que a chamou essa música de canção do trabalho agrário. Aqui com as violas de Téo Azevedo e Gedeão da Viola. É maravilhosa…

Pois é… Mas aquele apelo dos que defendem que só um Estado forte pode oferecer serviços gratuitos para todos, é irresistível, não é? Não é linda a perspectiva de um Estadão que proporciona educação gratuita? Saúde gratuita? Transporte gratuito, hein? Ah, sim, e com qualidade, hein? Putz, que sonho!

E como é que se faz para realizar esse sonho? Constituímos um Estado forte, com poder de coagir as pessoas a dar seu dinheiro para que ele possa ser dono das escolas, hospitais, estradas, portos, ferrovias, aeroportos e assim dar ao povo serviços de primeira categoria.

Entendeu o ciclo, hein?

O Estado pega seu dinheiro para oferecer a você serviços gratuitos que você precisa, mas o Estado não sofre nenhuma ameaça se o serviço oferecido for ruim. Você não tem para onde correr. E aí você grita por melhoria dos serviços. E o Estado então diz que precisa de mais dinheiro e aumenta os impostos. E sem ameaça de perder sua preferência, os serviços continuam ruins. E você fica sem escolha… Se quiser qualidade, tem de pagar um plano de saúde privado, segurança privada, transporte privado, educação privada, previdência privada.

Paga duas vezes. E o Estado incompetente, lerdo, ineficaz, continua crescendo.

Ah, mas e os pobres, hein?

Bem, deixe-me primeiro falar desse conceito de “serviços grátis”.

Não existe nada grátis. Alguém sempre está pagando. Também não existe “dinheiro público”. Há um vídeo famoso de Margaret Tatcher.

Há um vídeo famoso de um discurso da ex-primeira ministra britânica Margaret Tatcher em que ela diz assim:

“Um dos grandes debates do nosso tempo é sobre quanto do seu dinheiro deve ser gasto pelo Estado e com quanto você deve ficar para gastar com a sua família.

Não nos esqueçamos nunca desta verdade fundamental: o Estado não tem outra fonte de recursos além do dinheiro que as pessoas ganham por si próprias.

Se o Estado deseja gastar mais, ele só pode fazê-lo tomando emprestado sua poupança ou cobrando mais tributos de você. E é melhor não pensar que outra pessoa vai pagar. Essa outra pessoa é você.

Não existe esta coisa de dinheiro público, existe apenas o dinheiro dos pagadores de impostos.

A prosperidade não virá por inventarmos mais e mais programas generosos de gastos públicos. Você não enriquece por pedir outro talão de cheques ao banco. E nenhuma nação jamais se tornou próspera por tributar seus cidadãos além de sua capacidade de pagar. Nós temos o dever de garantir que cada centavo que arrecadamos com a tributação seja gasto bem e sabiamente. (…)

Proteger a carteira dos cidadãos, proteger os serviços públicos. Essas são nossas duas maiores tarefas e ambas devem ser conciliadas.

Como seria prazeroso, como seria popular dizer: ‘gaste mais nisso, gaste mais naquilo’. É claro que todos nós temos causas favoritas. Eu, pelo menos, tenho. Mas alguém tem que fazer as contas. Toda empresa tem de fazê-lo, toda dona de casa tem de fazê-lo, todo governo deve fazê-lo e este irá fazê-lo.”

Esse discurso foi realizado por Margaret Tatcher em 1983 numa conferência do Partido Conservador Britânico. Como a Ciça está sem condições, eu mesmo colocarei o link para o vídeo no roteiro deste programa em www.portalcafebrasil.com.br .

Muito bem. Todo dinheiro é privado, e sai de nossos bolsos. O busão grátis foi pago com dinheiro dos impostos que você pagou. O SUS grátis foi você que pagou. A escola grátis foi você que pagou. Sacou?

Voltamos então aos pobres.

Para mim qualquer indivíduo que tenha uma situação financeira mais confortável tem obrigação moral de ajudar outros indivíduos mais necessitados. Os ricos devem sim, ajudar os pobres a sair de situações de fragilidade e encontrar meios para se auto sustentar. Mas essa obrigação moral é voluntária, não deveria ser impingida pelo Estado, até por uma contradição com sua missão.

A missão primordial do Estado é defender de interferências violentas a vida, a liberdade e a propriedade honestamente adquirida por seus cidadãos. Vida, liberdade e propriedade, lembra? Coisas essenciais para que o mercado funcione. Ao assumir o papel de tomar dinheiro dos que têm para redistribuir aos que não têm, o Estado passa a praticar a violência que deveria prevenir. O mesmo Estado que defende, violenta. É uma esquizofrenia. Ou defende a propriedade ou a redistribui.

Entendeu a questão?

É por isso que os Stédiles, PSÓis e PSTUS da vida vivem com o discurso de acabar com a propriedade privada, transferindo tudo para o Estado, que então será o grande pai, o provedor, o que distribuirá as benesses para todo o povo.

O nome disso é socialismo. Aquele treco que nunca deu certo em nenhum lugar do mundo.

A fundo você ouviu SE ESSA RUA FOSSE MINHA, com Ricardo Herz e Carlos Nunez…

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Texto especial para a versão do programa para assinantes.

Surgem então esses conceitos que você vê por aí, de “justiça social”, como se o termo “justiça” devesse ter algum adjetivo a ele acoplado. Em nome da justiça social o Estado pode confiscar parte de sua propriedade privada, de sua renda.

Pausa. Nesta altura, se ainda há algum progressista ouvindo este programa, já deve estar urrando, esperando que eu diga que comunistas vão tomar a sua casa e fazer com que você coloque dentro dela uma família carente, como numa cena de Doutor Jivago. Não vou chegar a tanto.

O que estou dizendo é que quando o Estado, em nome da justiça social, assume responsabilidades de confisco e redistribuição da propriedade privada – e é isso que são os impostos – seu direito, de você aí, o seu aí ó, de propriedade, sua liberdade, está em risco.

- Ah, Luciano, mas eu abro mão de um pouco da minha liberdade se for para ajudar outras pessoas.

Que pessoas hein, cara pálida?

- Os pobres e oprimidos.

Bem, eu gosto muito de uma frase de um professor alemão chamado Martin Grundler, que disse um dia:

“É fácil relevar a liberdade quando ela nunca foi tirada de você.”

Abrir mão de um pouco da liberdade… quanto é esse pouco? E se amanhã precisar de mais um pouco? Tá valendo?

Quando o Estado se coloca como o juiz que define que há outras pessoas mais necessitadas e ou moralmente dignas que você, e que portanto, merecem uma parte de seus direitos, de sua propriedade ou sua liberdade, mergulhamos no universo perigoso da incerteza.

E se você não for amigo ou protegido do rei, hein?

Onde quero chegar? O discurso do Estado é a busca por algo impossível de ser alcançado, a igualdade e a justiça social ao mesmo tempo. E como isso é impossível, mas o discurso é irresistível, cria-se aquela ideia da utopia e o Estado vai exigindo cada vez mais poderes. Vai crescendo. Vai entrando em todas as áreas de nossas vidas, a ponto de ser praticamente impossível imaginar como seria uma vida com o Estado mínimo.

O Estado que tudo pode, pode mais que qualquer indivíduo. Passa a ter direitos que nenhum de nós tem. E, como uma espécie de Skynet (quem assistiu O Exterminador do Futuro sabe o que é), ganha vida própria e passa a ter suas próprias definições sobre moral e justiça. E passa a impô-las sobre os indivíduos.

Se você gastou quase 200 reais para trocar o extintor de incêndio de seu carro pelo tal modelo ABC que o Estado decidiu que é melhor e que seria obrigatório a partir de primeiro de outubro de 2015, sabe do que é que estou falando. Uma semana antes do prazo final o Estado voltou atrás e decidiu que extintores nos carros não são mais obrigatórios. E os duzentos reais que você gastou por causa da igualdade? Se transformaram em prejuízo por causa da liberdade, ué.

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Muito bem. O Estado que eu sonho é aquele que assegura o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, (parece um progressista falando, cara!) fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias.

Esse trechinho que eu falei aqui cara, é o começo da Constituição brasileira, viu? Só pra você entender.

Mas entendeu, hein? Liberdade, igualdade, bem estar como VALORES. VALORES. E eu duvido que você discorde de mim.

Mas esse estado não tem de ser dono de nada. Não tem que produzir nada. Esse Estado é pequeno, enxuto, focado onde pode realmente agregar valor à sociedade. Esse estado não vai tomar de um para dar para outro, ele vai incentivar que a ajuda humanitária, a benfeitoria, as doações, o apoio à cultura e às causas assistenciais tenham seu valor reconhecido e assim, atraia mais gente voluntariamente para sua prática.

Esse Estado não intervencionista e não autoritário permitirá que cada indivíduo escolha onde e como educar seus filhos, cuidar de sua saúde e de seus investimentos.

Esse estado estimulará, eliminando obstáculos burocráticos e juros estratosféricos, que mais gente empreenda, corra riscos, crie serviços e produtos que poderão chegar a todas as camadas da população.

Esse Estado compreende que quem sai do rebanho para se arriscar a fazer algo que melhore a sociedade, merece ser recompensando por isso.

Esse Estado sabe que livre mercado e bem estar social não são excludentes. É impossível ter serviços e produtos na qualidade e quantidade necessárias para atender a toda a população sem ter uma economia eficiente. E nesse contexto não cabe a mão peluda que tudo controla.

Esse Estado sabe que quanto maior for, mais incompetente, corrupto e caro será.

Esse Estado sabe que justiça social por decreto, não existe.

No programa 464 – Desigualdade social, eu falei de Rousseau e do Contrato Social, lembra? Volte lá. Aquele programa complementa muito do que você está ouvindo aqui hoje.

Esse tema do tamanho e das responsabilidades do Estado é quente, não é? Fica esperto aí viu, que eu vou voltar a ele de quando em quando.



Só se não for brasileiro nessa hora
Galvão
Moraes Moreira

Desde lá, quando me furaram a primeira bola no meio da rua, na minha terra quer dizer,
Juazeiro onde se dá ao mesmo tempo Ituaçú.

Desde lá, quando me furaram a primeira bola no meio da rua, na minha terra quer dizer,
Juazeiro onde se dá ao mesmo tempo Ituaçú.

O ho ho ho, a vizinha tem vidraças. Tem sim sinhô.
O ho ho ho, a vizinha tem vidraças. Tem sim sinhô.

Ao meus olhos bola, rua, campo e sigo jogando porque eu sei o que sofro e me rebolo para continuar menino como a rua que continua uma pelada.

Que a vida que há do menino atrás da bola: para carro, para tudo. Quando já não há tempo

Para pito, para grito e o menino deixa a vida pela bola…

Só se não for brasileiro nessa hora!
Só se não for brasileiro nessa hora!

É assim então, ao som da SÓ SE NÃO FOR BRASILEIRO NESSA HORA, um daqueles petardos dos Novos Baianos, que vamos saindo pensativos.

Com o preocupadíssimo Lalá Moreira na técnica, a descadeirada Ciça Camargo na produção e eu, que quero um estadinho piquinininho, Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Salmir, um cover do Pink Floyd, André Muato, Gedeão da Viola e Théo Azevedo, Ricardo Herz, os Novos Baianos e… Margareth Tatcher.

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E para terminar, uma frase de Sigmund Freud

O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los.